Estudo revela que romanos usavam fezes humanas como tratamento médico
14 fevereiro 2026 às 11h35

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Um estudo recente revelou evidências inéditas de que os romanos utilizavam fezes humanas com finalidade medicinal há aproximadamente 1.900 anos. A prática, descrita em textos antigos, foi agora confirmada por análises químicas realizadas em resíduos encontrados dentro de um frasco de vidro da época romana. Para reduzir o odor desagradável, a substância era misturada com tomilho, segundo os pesquisadores.
A descoberta surgiu a partir da análise de flocos marrom-escuros localizados no interior de um unguentarium, pequeno recipiente de vidro usado na Antiguidade para armazenar perfumes, óleos ou medicamentos. O frasco foi encontrado selado com argila em uma tumba da antiga cidade de Pérgamo, no oeste da atual Turquia.
O trabalho foi conduzido pelo arqueólogo Cenker Atila, da Universidade Sivas Cumhuriyet, que identificou resíduos em recipientes armazenados no Museu de Bergama. Dos sete vasos analisados, apenas um apresentou material em condições adequadas para exames conclusivos.
“Quando abrimos o recipiente, não havia cheiro algum. O resíduo passou despercebido por muito tempo, até que iniciei a análise”, relatou o pesquisador em entrevista à Live Science.
Evidência química inédita
Os resíduos foram examinados por meio de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS), técnica que permite identificar compostos orgânicos com alta precisão. A análise revelou a presença de coprostanol e 24-etilcoprostanol, substâncias associadas ao processo digestivo de seres humanos e animais que metabolizam colesterol.
Segundo os pesquisadores, a proporção entre esses compostos indica fortemente origem humana. “A identificação consistente de estanóis, biomarcadores fecais amplamente validados, sugere que o recipiente continha material fecal”, afirma o estudo publicado em 19 de janeiro no Journal of Archaeological Science: Reports.
Além disso, foi identificado carvacrol, um composto aromático presente em óleos essenciais de ervas como o tomilho, o que reforça a hipótese de que a planta era utilizada para mascarar o mau cheiro da preparação.
Relação com a medicina romana
A cidade de Pérgamo foi um dos principais centros médicos do Império Romano entre os séculos 2 e 3. O local está diretamente associado às ideias de Galeno de Pérgamo, médico e anatomista cujas teorias influenciaram a medicina ocidental por séculos.
De acordo com Atila, a combinação de fezes humanas e tomilho corresponde a receitas descritas por Galeno em seus escritos. “Assim que identificamos os compostos, reconhecemos tratar-se de uma preparação medicinal mencionada nos textos clássicos”, afirmou o arqueólogo.
Fontes históricas indicam que a medicina romana utilizava diferentes tipos de matéria fecal para tratar inflamações, infecções e distúrbios reprodutivos. Em um dos relatos mais curiosos, Galeno descreve o uso terapêutico das fezes de uma criança alimentada com leguminosas, pão e vinho.
Cientes da repulsa que esse tipo de remédio poderia causar, médicos da época recomendavam misturá-lo com ervas aromáticas, vinho ou vinagre, tornando o tratamento mais aceitável aos pacientes.
Os autores do estudo destacam que esta é a primeira evidência química direta que comprova o uso medicinal de fezes humanas na Antiguidade greco-romana. Até então, a prática era conhecida apenas por registros escritos.
“Os resultados confirmam que essas receitas não eram apenas teóricas, mas efetivamente preparadas e utilizadas”, concluem os pesquisadores. A descoberta também reforça a sofisticação, ainda que hoje cause estranhamento, das práticas médicas no mundo romano.
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