Trabalhador da Metrobus morreu após esperar dois dias por vaga de UTI, denuncia família
18 fevereiro 2026 às 11h44

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A morte do trabalhador Nadir Oliveira Lima, colaborador do setor de manutenção da Metrobus Transporte Coletivo S.A., ganhou novos contornos após a família revelar que ele morreu enquanto aguardava vaga em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), dois dias depois de ter sido reinternado em estado grave.
Nadir sofreu um acidente de trabalho no último dia 9, na garagem da empresa, quando um ônibus caiu sobre ele durante um serviço de manutenção. Ele foi socorrido, internado e recebeu alta hospitalar na sexta-feira, mesmo apresentando palidez, fraqueza e episódios de vômito, segundo relatos da família.
De acordo com a sobrinha dele, Thaline Gonçalves, horas após receber alta, o trabalhador passou mal em casa. “No sábado, por volta das seis horas da manhã, ele começou a vomitar jatos de sangue. Liguei imediatamente para o SAMU. Ele já estava muito fraco”, afirmou em entrevista ao Jornal Opção.
Durante o atendimento, ainda dentro da ambulância, Nadir teria apresentado início de parada cardíaca. Ele foi encaminhado novamente ao Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), mas, segundo a família, não chegou a ser internado em uma UTI.
“Ele ficou o sábado inteiro e o domingo inteiro aguardando vaga. Na madrugada de segunda-feira, ele morreu sem conseguir leito”, relatou Thaline.
Segundo a sobrinha, após o acidente foram diagnosticadas quatro fraturas na região da bacia, lombar e pelve. Ela questiona, no entanto, a ausência de exames mais aprofundados durante a primeira internação. “Fizeram tomografia da bacia, mas não investigaram outros órgãos. Ele estava pálido, vomitando, fraco. Mesmo assim recebeu alta”, disse.
Ainda conforme o relato, após a reinternação foi constatado rompimento decorrente de úlcera e choque hemorrágico. A família agora cobra explicações tanto da unidade hospitalar quanto da empresa onde o trabalhador atuava há quase 40 anos.
Além da suposta negligência médica, os familiares também levantam questionamentos sobre as condições de trabalho na área de manutenção da Metrobus. Segundo Thaline, o local onde ocorreu o acidente era conhecido internamente como “cemitério dos eixos”, devido ao reaproveitamento constante de peças e às condições estruturais consideradas precárias.
Ela afirma que o ônibus estava suspenso por um macaco considerado inadequado para o peso do veículo, estimado em mais de 15 toneladas. “Qual EPI protegeria alguém de um ônibus desse peso? O problema não é só equipamento individual, é estrutura, é procedimento”, afirmou.
No momento do acidente, outro trabalhador também teria sido atingido, mas sofreu apenas escoriações leves. De acordo com a família, colegas de trabalho retiraram Nadir debaixo do ônibus antes da chegada do resgate, temendo que o solo instável, com lama e barro, cedesse ainda mais.
A sobrinha também afirma que o tio nunca recebeu advertências em quase quatro décadas de serviço e que era reconhecido como funcionário exemplar. “Ele sempre cumpriu ordens. Fez cursos, participava de treinamentos. Era um homem extremamente responsável”, disse.
A família ainda cita relatos de outros acidentes anteriores na empresa e cobra investigação rigorosa sobre as condições de segurança no setor de manutenção.
O Jornal Opção buscou posicionamento da Metrobus Transporte Coletivo S.A. e do Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol) sobre as denúncias de possíveis falhas nos protocolos de segurança e no atendimento médico.
O que diz o Hugol
O Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol) informa que o paciente foi atendido conforme todos os protocolos assistenciais estabelecidos, tendo recebido acompanhamento e avaliação por equipe multiprofissional, com a adoção das condutas clínicas indicadas para o seu quadro.
A unidade reforça que todas as ações foram conduzidas em conformidade com os padrões técnicos, assistenciais e éticos que norteiam a assistência prestada pelo hospital.
Por questões de ética médica e em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), informações detalhadas sobre o caso possuem caráter sigiloso e são disponibilizadas exclusivamente aos familiares do paciente, não sendo passíveis de divulgação pública.
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