O avanço das discussões e uma maior rede de informações sobre saúde mental provocam um fenômeno novo e importante para autistas: cada vez mais adultos, que após décadas de sensação de inadequação, descobrem que estão no espectro. No mercado de trabalho, onde a produtividade e a sociabilidade caminham justas, a revelação do laudo pode trazer um questionamento: as empresas estão preparadas para talentos que pensam de forma diferente?

Para a doutora em neuropsicologia e professora de psicologia, Larissa de Oliveira e Ferreira, o diagnóstico na fase adulta pode funcionar como uma peça de um quebra-cabeça que finalmente se encaixa. “Muitos adultos chegam ao consultório com quadros de burnout ou depressão, sem saber que a causa base é o esforço hercúleo que fazem para ‘parecerem normais’, o que chamamos de masking. O diagnóstico traz alívio, mas também a necessidade de renegociar o espaço no mundo profissional”, explica.

Apesar dos avanços, o ambiente corporativo ainda é projetado para perfis neurotípicos. As barreiras são muitas: dificuldade de socialização e comunicação não verbal, interpretação literal de mensagens e sensibilidades a estímulos sensoriais podem afetar o desempenho de profissionais brilhantes.

Ferreira diz que as conexões no trabalho exigem uma leitura de entrelinhas que autistas podem não ter de forma intuitiva. “Muitas vezes, o que se interpreta como desinteresse ou grosseria é apenas uma forma direta de processar a informação”, diz. Ela complementa dizendo que falta às empresas o que chamou de letramento em neurodiversidade.

Adaptação no local de trabalho

A adaptação do local de trabalho para um profissional com TEA dialoga com a necessidade de as organizações evoluírem seus pilares de diversidade e inclusão (SDG). Para Larissa, a inclusão real vai além da contratação; ela passa pela adaptação da cultura organizacional para acolher a singularidade.

Essas mudanças não exigem grandes investimentos, mas mudanças de comportamento e processos. “Pequenas alterações, como permitir o uso de fones de ouvido para reduzir o ruído ou garantir que as demandas sejam passadas de forma escrita e objetiva, fazem uma diferença enorme”, argumenta. Ela lembra ainda que o com um ambiente seguro, o profissional entrega um foco e uma capacidade analítica acima da média.

Aprender a valorizar a neurodivergência é, segundo a psicologa, um dos grandes desafios da gestão de pessoas na atualidade. “Quando a empresa aprende a lidar com o diferente, ela se torna mais humana e eficiente para todos”, finaliza.

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