Setor farmacêutico deve crescer 30% até 2027, impulsionado por quebras de patentes
14 janeiro 2026 às 19h05

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A presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO), Luciana Calil, avalia que o Brasil deve viver um novo ciclo de forte expansão da indústria farmacêutica nos próximos anos, impulsionado principalmente pelos medicamentos para emagrecimento, pela chegada de novas formulações e pela quebra de patentes.
As declarações foram dadas em entrevista ao Jornal Opção. A análise de Luciana parte de projeções divulgadas pela Associação Médica Brasileira, que indicam crescimento de até 30% do setor farmacêutico nacional até 2027.
Para a presidente do CRF-GO, esse avanço estará concentrado em segmentos específicos. O farmacêutico brasileiro deixou de ser visto apenas como o profissional atrás do balcão. De acordo com ela, embora cerca de 80% dos profissionais ainda estejam concentrados em farmácias e drogarias, o campo de atuação é cada vez mais amplo.
Segundo Luciana, em Goiás, a categoria ocupa hoje espaços que vão da estética à oncologia, da indústria de medicamentos à fiscalização sanitária, passando por consultórios próprios e atuação decisiva dentro de hospitais.
“Hoje eu tenho a possibilidade de ter um consultório farmacêutico, onde eu faço acupuntura, homeopatia, ozônio e estética. Há pouco tempo atrás, você não imaginava um farmacêutico ter um consultório”, afirma. “É uma profissão em muita evolução.”
Luciana cita exemplos de áreas em crescimento, como a ozonioterapia, utilizada tanto em procedimentos estéticos quanto para melhorar a qualidade de vida de pacientes com câncer, dificuldades de cicatrização ou diabetes, além da radiofarmácia, da oncologia e do desenvolvimento de cosméticos e fórmulas farmacêuticas. “O campo de trabalho do farmacêutico hoje é imenso”, resume.
Segundo ela, os chamados análogos do GLP-1 já movimentam bilhões no mercado global e começam a ganhar maior protagonismo no Brasil, inclusive com produção nacional.
“Nós já temos laboratório brasileiro produzindo esse tipo de medicamento. A EMS já iniciou a produção nacional, e os laboratórios multinacionais devem chegar com novas formulações, novos princípios ativos associados, mais eficácia e menos efeitos colaterais”, explicou.
Luciana destacou que a inovação não deve se limitar aos produtos já conhecidos. “Nós teremos medicamentos cada vez mais potentes, com múltiplos mecanismos de ação. Isso significa maior capacidade, mas também exige mais responsabilidade no uso”, disse.
Quebra de patentes amplia concorrência
Outro fator apontado pela presidente do CRF-GO como decisivo para o crescimento do setor é a quebra de patentes de medicamentos de referência. “Com o fim das patentes, abre-se espaço para a produção de genéricos, similares e bioequivalentes. O mercado deixa de ser dominado apenas pelo medicamento de referência”, explicou.
Ela citou, como exemplo, as disputas em torno de medicamentos da mesma linha do Ozempic, que já começam a enfrentar concorrência de novos produtos e versões equivalentes.
“A disputa já começou. Novos medicamentos estão em desenvolvimento, alguns em teste nos Estados Unidos, com potencial inclusive de reduzir a indicação de cirurgias bariátricas”, afirmou.
Apesar do cenário positivo para a indústria, Luciana reforçou que o crescimento traz desafios importantes para a saúde pública. “Nós ainda não sabemos os efeitos a longo prazo desses medicamentos. Já existem relatos de problemas de visão e de complicações na vesícula biliar, mas não temos dados consolidados de muitos anos de uso”, alertou.
Ela também ressaltou que esses medicamentos não devem ser usados como soluções rápidas. “Não é uma medicação de uso pontual. Existe um processo de desmame, que precisa de acompanhamento médico. Quem usa de forma indiscriminada pode sofrer efeito rebote e outros prejuízos à saúde”, afirmou.
Para a presidente do CRF-GO, o avanço da indústria farmacêutica brasileira é inevitável e desejável, desde que caminhe junto com fiscalização rigorosa e uso racional de medicamentos. “O crescimento é uma realidade, mas ele precisa vir acompanhado de responsabilidade, tanto da indústria quanto dos profissionais de saúde e dos pacientes”, concluiu.
PICs
A presidente também relaciona a expansão da atuação do farmacêutico impulsionada, sobretudo, pelo crescimento das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). Segundo ela, tais práticas deixaram de ser um campo periférico para se tornar um mercado em franca expansão dentro da farmácia.
“As práticas integrativas e complementares têm crescido muito porque dão suporte especialmente a pacientes com dores crônicas, ansiedade e insônia. Há pessoas que não têm condições de tomar tantos medicamentos ou que já sofrem efeitos adversos, e as PICS entram como um cuidado complementar importante”, afirmou.
Luciana destacou ainda a recente regulamentação federal da acupuntura para profissionais da saúde. “Ela já era regulamentada para o farmacêutico, mas agora existe uma lei federal que amplia essa atuação para outros profissionais, deixando claro que não é exclusividade médica. Os farmacêuticos atuam muito nas PICS, principalmente na prescrição de medicamentos fitoterápicos e isentos de prescrição”, explicou.
Além das PICS, a presidente do CRF-GO apontou a estética como outra área em expansão acelerada. “Duas áreas cresceram absurdamente na farmácia: as PICS e a estética. A estética é um boom em todas as profissões da saúde”, disse.
Esse movimento ocorre em paralelo ao crescimento da indústria farmacêutica, intensificado desde a pandemia. “A indústria farmacêutica tem crescido muito e abriu fronteiras importantes para a atuação profissional”, avaliou.
Números de um polo em expansão
De acordo com dados apresentados pela presidente do CRF-GO, o estado conta atualmente com 14.360 farmacêuticos ativos, dos quais 7.315 atuam como responsáveis técnicos. São 4.409 farmácias e drogarias, 2.012 farmácias de manipulação, 36 indústrias de medicamentos, 42 indústrias de cosméticos e dezenas de outras empresas ligadas ao setor de saúde.
Esse conjunto faz de Goiás um dos principais polos farmacêuticos do país, com destaque para Anápolis. “Temos indústrias que estão saindo do Rio de Janeiro e de São Paulo para vir para cá”, relata Luciana.
Segundo ela, o Conselho atua na recepção dessas empresas, auxiliando desde a contratação de farmacêuticos até a orientação sobre exigências legais, estrutura física e documentação.
Parte dessa engrenagem envolve institutos especializados em biodisponibilidade e bioequivalência de medicamentos, fundamentais para o desenvolvimento de genéricos. “O Brasil inteiro manda princípio ativo para ser analisado em Goiás”, diz a presidente, ao citar o CDPI como um dos centros de referência.
O trabalho é feito em articulação com entidades como a Indústria Química do Estado de Goiás S.A. (Iquego), que reúne indústrias químicas do estado. Nos hospitais, o papel do farmacêutico também se fortaleceu.
“Em muitos casos, o último profissional a ter contato com o paciente é o farmacêutico”, explica Luciana. “O médico prescreve, e o farmacêutico vai explicar para que serve cada medicamento, como usar, o que não pode ser associado. Ele participa da internação, da reavaliação de doses e da segurança do tratamento.”
Para a presidente do Conselho, a sociedade ainda desconhece essa dimensão da profissão. “Como seria a medicina hoje sem os exames de análises clínicas, que no início eram feitos pelos farmacêuticos bioquímicos? Ou sem o desenvolvimento de medicamentos e vacinas?”, questiona.
Além da assistência e da indústria, a fiscalização ganhou protagonismo nos últimos anos. Só em 2025, o CRF-GO revisou 233 eventos, capacitou 10.343 farmacêuticos e realizou visitas em 81 municípios do estado, segundo Luciana.
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