Seca nos dividendos em 2026 tende a ser passageira, avalia economista
14 janeiro 2026 às 17h00

COMPARTILHAR
O investidor que esperava iniciar 2026 com os dividendos caindo na conta pode se deparar com um começo de ano frustrante. Após uma verdadeira enxurrada de anúncios no fim de 2025, o mercado financeiro vive agora um período de seca temporária na distribuição de lucros.
A frustração, no entanto, não deve ser motivo de pânico imediato. Para a economista Greice Guerra, em entrevista ao Jornal Opção, a queda nos pagamentos no início do ano reflete mais um efeito pontual da antecipação de lucros ocorrida no fim de 2025 do que uma mudança estrutural no mercado.
“Todo investimento a pessoa tem que acompanhar. Ainda que, no primeiro momento, a gente esteja vendo essa questão dos dividendos como algo passageiro, no Brasil tudo é muito efêmero. Aquilo que parece pontual pode se perpetuar”, afirma.
Apesar da ressalva, Greice pondera que, neste momento, não há razão para alarme. “No primeiro momento, eu acredito que o investidor não deve se preocupar. É um movimento normal do mercado.”
No apagar das luzes de 2025, empresas anteciparam anúncios e pagamentos de dividendos para aproveitar os últimos momentos de isenção do Imposto de Renda. A estratégia foi uma resposta direta à nova legislação que prevê a taxação dos dividendos em situações específicas.
Com isso, parte relevante do fluxo de renda que normalmente chegaria ao investidor no primeiro trimestre foi concentrada em dezembro, provocando um vazio temporário nos anúncios de 2026.
Segundo a economista, empresas de capital aberto são obrigadas a cumprir regras claras de distribuição de dividendos. “As empresas listadas em Bolsa têm estatutos”, explica. O descumprimento dessas normas pode gerar sanções da CVM, o que prejudica a governança e a reputação da companhia no mercado de capitais. “Isso pega mal, suja a imagem da empresa”, diz.
Nova tributação de dividendos: quem realmente será afetado?
A mudança na lei estabelece uma alíquota de 10% sobre dividendos, com imposto retido na fonte, mas apenas sobre valores que ultrapassem R$ 50 mil por mês pagos por uma única empresa ao mesmo acionista.
Na prática, a regra foi desenhada para atingir grandes investidores e controladores de empresas, e não o pequeno investidor que busca complementar renda ou formar patrimônio no longo prazo.
Para a maioria das pessoas físicas, a isenção continua válida, o que reduz significativamente o impacto da nova tributação sobre a renda passiva. Para Greice, o impacto varia conforme o perfil do investidor.
“Depende do poder e do perfil. O investidor agressivo, acostumado a correr risco, sente menos. Mas o investidor médio, que é a maioria no Brasil, pode ser impactado, sim”, avalia.
Ela ressalta a importância de revisões constantes da carteira, sobretudo diante da implementação gradual da reforma tributária a partir de 2026. “É fundamental rever posições para alocar em ativos com menor tributação ou menos voláteis. Senão, a carteira fica travada ou deficitária.”
Construtoras no topo
A corrida para antecipar pagamentos alterou de forma atípica o ranking das ações que mais pagaram dividendos em 2025. Empresas tradicionalmente conhecidas como grandes distribuidoras ficaram fora do topo, abrindo espaço para construtoras.
Esse cenário levou empresas como Direcional, Cury e Cyrela a liderarem o ranking de dividend yield, algo considerado fora da curva no histórico recente da bolsa brasileira. Para Greice, o fenômeno tem explicação macroeconômica.
“O mercado imobiliário está aquecido por causa do aquecimento da economia, da migração de recursos e dos programas sociais. Por isso as construtoras ficaram no topo.” Enquanto isso, empresas estatais como Petrobras e Banco do Brasil enfrentaram dificuldades.
“O Banco do Brasil teve problemas com inadimplência e provisões. Isso pesa no balanço”, afirma. Ainda assim, a economista acredita que, enquanto a economia permanecer aquecida, as construtoras devem continuar como boas pagadoras.
Sobre as estatais, Greice recomenda cautela. “Elas têm histórico de boas pagadoras, como Caixa Econômica Federal, Petrobras e Banco do Brasil, mas a gestão impacta muito. Muitas vezes são usadas politicamente, o que gera déficits”, diz, citando também a situação delicada dos Correios.
Outro ponto de atenção é o Juros sobre Capital Próprio (JCP). Esse mecanismo, bastante utilizado por bancos e empresas de energia, sempre foi tributado, mas a alíquota subiu de 15% para 17,5%.
Mesmo com o aumento, estudos indicam que o retorno líquido segue atrativo, especialmente em empresas com políticas consistentes de distribuição. O imposto reduz o rendimento, mas não elimina a vantagem da previsibilidade.
Renda passiva em 2026
Para o investidor focado em renda passiva em 2026, a principal orientação é diversificar sem abrir mão da cautela. “Em primeiro lugar, investir nos dividendos tradicionais, olhando o histórico e a análise fundamentalista”, recomenda Greice.
Ela defende uma diversificação moderada, inclusive com produtos multimercado, mas sem concentração excessiva. “Nunca colocar 100% em um só ativo. Se for arriscar, arriscar pouco.” O cenário eleitoral também entra na conta. “Estamos em um ano eleitoral, que é atípico. Até as eleições, podem surgir muitas surpresas”, alerta.
Ainda assim, a economista conclui que, olhando para o histórico, os dividendos tradicionais continuam sendo uma estratégia válida. “Eles não são ruins. Vale a pena insistir, desde que com atenção e equilíbrio.”
É o caso de companhias de commodities, bancos e utilities continuam distribuindo lucros, desde que preservem uma estrutura financeira saudável. Além disso, algumas empresas podem optar por recompras de ações e bonificações como forma alternativa de gerar valor aos acionistas, especialmente diante da nova tributação.
Setores tradicionais seguem ancorando a distribuição de lucros, como bancos, energia elétrica, saneamento, seguros e telecomunicações. Essas empresas possuem receitas previsíveis, geração de caixa consistente e histórico sólido de remuneração ao acionista.
Ou seja, para quem busca renda passiva com ações, a principal recomendação é evitar a armadilha de perseguir os dividendos extraordinários de 2025, que não devem se repetir.
A estratégia mais segura envolve priorizar empresas com histórico consistente de distribuição, avaliar geração de caixa e endividamento, manter diversificação setorial e acompanhar o cenário macroeconômico.
As chamadas “vacas leiteiras” da bolsa seguem relevantes justamente por sua resiliência, mesmo com o governo passando a ficar com uma fatia maior do lucro distribuído.

Leia também:

