Relatório aponta liderança e qualificação como prioridades do RH em 2026
02 março 2026 às 19h09

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O desenvolvimento de lideranças e a contratação de profissionais qualificados passaram a ocupar o centro da agenda de Recursos Humanos em 2026. É o que revela a oitava edição do Relatório Tendências em Gestão de Pessoas, produzido pelo Great Place to Work Brasil, com 1.577 lideranças ouvidas entre novembro e dezembro de 2025.
O estudo aponta aumento da incerteza no ambiente de negócios, crescimento mais moderado das empresas e mudanças nas prioridades da gestão de pessoas no Brasil e na América Latina.
Ao Jornal Opção, a presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Recursos Humanos do Estado de Goiás (ABPRHGO), Marísia Lorenzo, afirma que o cenário de incerteza precisa ser analisado à luz de transformações regulatórias e culturais que impactam diretamente o mercado de trabalho.
“Essa pesquisa é a oitava edição de um estudo. Ela mostra aumento da incerteza no ambiente de negócios, um crescimento mais moderado das empresas e mudanças nas prioridades da gestão de pessoas no Brasil e na América Latina. A gente não pode analisar isso de forma isolada”, afirma.
Segundo o relatório, 63,4% das lideranças enxergam oportunidades com otimismo, o menor índice desde 2019. Já a incerteza alcança 35,4%, o maior patamar da série histórica. Para Marísia Lorenzo, esse ambiente está diretamente relacionado à nova fase de exigências regulatórias envolvendo saúde mental no trabalho.
“Se a gente for pensar de forma otimista, positiva, a gente está com a NR-1 vindo aí. Hoje existe um dado de que 60% dos colaboradores estão afastados por questão de saúde mental. Não tem como tirar a NR-1 desse processo de incerteza.”
Ela explica que a norma regulamentadora, que existe há anos, passa a ter aplicação prática mais rigorosa. “Esses 60% estavam afastados pelo INSS. Quem estava pagando a conta? O governo. O que o governo fez? ‘Olha, dono da empresa, agora você vai pagar essa conta’. Então ele reativou a NR-1 por causa da saúde mental, que é o principal motivo de afastamentos e atestados.”
Segundo a presidente da ABPRHGO, a associação tem atuado na sensibilização de empresários e lideranças. “O que a gente está fazendo hoje é uma sensibilização da NR-1, explicando para diretores, donos e líderes que eles têm que tomar conta da saúde mental dos colaboradores para mudar o cenário do mercado.”
Liderança no topo do ranking de desafios
O levantamento mostra que, pela primeira vez, o desenvolvimento de lideranças aparece como principal desafio da gestão de pessoas, com 43,9% das respostas. Em seguida vem a contratação de profissionais qualificados (42,9%).
Para Marísia, essa mudança tem relação direta com a nova exigência regulatória. “A mudança da cultura de um líder está completamente relacionada à NR-1. Ninguém estava esperando por ela. Era para ter acontecido antes e foi prorrogada. Agora não vai ser prorrogada mais.”
Ela compara o momento ao início da implementação do eSocial. “Lembra do eSocial? Os RHs e os DPs tiveram que rebolar porque não tinham dados. Agora, com a NR-1, nós vamos ter dados de saúde mental. Quantos são afastados? O líder vai ter que mudar a postura e a cultura da empresa.”
Segundo ela, a resistência tende a ser maior em estados com predominância de empresas familiares. “Nós estamos em Goiás vivendo uma realidade em que 95% das empresas são familiares. E está dando certo do jeito que está, entre aspas. Mas vai ter que haver uma mudança de cultura.”
O relatório também aponta maior dificuldade de contratação, especialmente em setores como Tecnologia, Serviços e Indústria. Questionada sobre o chamado “apagão de talentos”, Marísia relativiza o problema e chama atenção para outra questão estrutural: o etarismo.
“O apagão acontece muito por conta do etarismo. Profissionais acima de 45 anos encontram barreiras. O grande erro é achar que a geração mais nova veio para prejudicar.” Ela defende a integração entre gerações.
“O etarismo impede que a pessoa com experiência conviva com quem tem mais facilidade tecnológica. Não é nem mais a geração Z, é a geração milênio. A gente precisa unir experiência com tecnologia.”
Inteligência Artificial
A Inteligência Artificial aparece como desafio para 10,3% das lideranças brasileiras, o dobro em relação ao ano anterior. Na América Latina, o índice é ainda maior. Em Goiás, porém, a avaliação é de que a maturidade tecnológica ainda é limitada.
“Se a gente falar de São Paulo, eles estão muito preparados para IA. Mas Goiás ainda tem uma ação reativa. Preferem uma planilha de Excel a uma plataforma robusta.” Ela afirma que a resistência não está necessariamente no RH, mas na cultura organizacional.
“Não estou falando só de RH. Estou falando de cultura de empresa. O dono, muitas vezes de empresa familiar, diz: ‘Está dando certo do jeito que está, para que mexer?’. Então o uso de IA em Goiás ainda é precário.”
Apesar do ambiente mais cauteloso, 73% das empresas relataram crescimento em 2025. Entre as certificadas pelo GPTW, o índice foi maior (75,9%) do que entre as não certificadas (69,7%).
Na América Latina, os desafios aparecem de forma mais distribuída entre comunicação interna, liderança, transformação cultural, saúde mental e diferenças geracionais. Para Marísia Lorenzo, o momento exige reposicionamento estratégico da área de gestão de pessoas.
“O RH vai ter que conduzir isso muito bem, mas o líder precisa ter consciência de que precisa mudar postura e cultura. A saúde mental não pode ser separada desse cenário de incerteza.”
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