O sábado amanheceu estranho, como naqueles dias nublados, onde você sabe que a vida vai lhe tirar algo. “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”. Me lembro a primeira vez que li um livro que me tirou o sossego, me revirou na cama por noites, e me fez questionar o mundo. José Saramago foi denso, difícil, mas sobretudo — necessário. Não consigo esquecer o primeiro dia que senti dor vendo uma foto. Uma criança de três anos, de blusinha vermelha, estirada ao chão de uma praia qualquer. Morto. Eu tinha 16 anos e ali o mundo perdeu um pouco o brilho pra mim.

Um agente retira o corpinho de Alan Kurdi da areia na Turquia. A família embarcou na tentativa de escapar da guerra civil na Síria e todos (20 a bordo) morreram. Muitos imigrantes, fugindo de uma vida miserável, morrem antes mesmo de chegar ao destino. Porque a vida é cínica, e por vezes, impiedosa. Fronteiras são criações do homem e nós somos criações divinas. A morte é inaceitável e é inconcebível alguém morrer tentando atravessar o mar em busca de um futuro digno. Não há sono tranquilo quando se sabe que agentes de um país que se acredita senhor do mundo atuam como deuses, assumindo o poder de determinar a vida e a morte.

Não matarás é a maior lei, que rege todos os seres humanos, de um extremo ao outro do mundo. Não me matam porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque será a morte pra mim. A primeira vez que vi um corpo de perto eu ainda era criança, não entendi. Eu só queria o fim da missa para comer pão de queijo. Quando vi a morte já adulta, tive a certeza que acabava ali. E acabou pra mim. Eu não quero pensar que “chegou a hora” da pessoa. Eu apenas percebo que a morte é capaz de derrotar a vida. Eu que achei que a vida sempre vencia.

Não posso naturalizar a morte (eu não devo) e quando o faço, é porque já morri um pouco. Quando objetifico um ser humano, retiro dele tudo que há em mim. Eu não sei o que sou, mas somos esse algo que não tem nome. Quando Clarice ouve os 13 tiros que mataram Mineirinho, ela se questiona sobre o preço de sua segurança. “Essa justiça que vale meu sono eu a repudio”.

Alex Pretti, assim como Alan Kurdi, foi uma vítima da imigração, mas também da barbaridade. Criado em Green Bay, Wisconsin, Pretti foi atleta no ensino médio, escoteiro e integrante de um coral juvenil. Formou-se em 2011 pela Universidade de Minnesota em biologia, sociedade e meio ambiente, atuando inicialmente como pesquisador.

Um agente lhe arrancou a arma da cintura,
como quem desarma não apenas um corpo,
mas qualquer chance de defesa.

Outro agente disparou cinco vezes.
E quando Alex já não se movia,
quando o silêncio do corpo anunciava a morte,
vieram mais cinco tiros —
não por medo, mas por excesso.

Alex tinha licença para portar a arma.
Ainda assim, não teve licença para viver.

Após o escárnio, um ser digno de pena diz que os agentes fizeram um “trabalho fenomenal”.

Já desejei a morte de alguém. Naquele tempo, eu era apenas um inseto — um ser humano em estado de metamorfose falhada. Faz tempo que não oro. Mas choro todos os dias. E não quero parar de chorar.

Porque o dia em que eu deixar de sentir
será o dia em que terei perdido minha vocação —
a primeira que nos é dada ao nascer:
a de ser humano.

E se não consigo ser gente,
não posso ser jornalista.

Quando as lágrimas vão embora, procuro motivos para chorar outra vez.
Não por fraqueza, mas por vigilância.

Marcelo Cosme chorou ao comentar a morte de Paulo Gustavo, em meio à pandemia que nos roubava o ar e o futuro. Disse que pensava assim: “Se minha mãe vê uma mãe acolhendo um filho gay e rindo na TV, talvez ela me acolha quando eu contar.”

Guga Chacra chorou.
Natuza Nery chorou.

Flávia Oliveira também chorou,
ao noticiar o assassinato de Kathlen Romeu,
grávida, morta por uma bala perdida no Rio de Janeiro —
ou melhor, por uma bala direcionada ao destino errado do país.

Porque é preciso ser sempre melhor:
melhor que a brutalidade da vida
e superior à indiferença da morte.

É preciso amadurecer sem perder a ternura.

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