Polícia aponta simulação de venda de empresa e direcionamento de licitações na Goinfra
13 janeiro 2026 às 12h45

COMPARTILHAR
A Polícia Civil de Goiás (PC-GO) aprofundou as investigações da Operação Nexo Oculto e identificou indícios robustos de fraude em processos licitatórios, falsidade documental e conflito de interesses envolvendo um ex-servidor temporário da Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra). As apurações apontam que o investigado teria mantido, de forma oculta, o controle de uma empresa de engenharia beneficiada em certames públicos entre 2023 e 2025.
Em entrevista, o delegado Rodrigo Godim, responsável pelo caso, afirmou que a investigação exigiu atuação rápida para evitar a perda de provas, especialmente digitais. Segundo ele, a Polícia Civil só avançou para a fase ostensiva após obter autorização judicial para o cumprimento dos mandados de busca e apreensão.
“Quanto mais o tempo passa, mais elementos se perdem. Equipamentos eletrônicos são trocados, documentos desaparecem. A atuação precisa ser célere”, explicou o delegado.

Venda simulada e vínculo oculto
De acordo com a investigação, o ex-servidor era proprietário de uma empresa de engenharia até 2021. Em 2022, seis meses após ingressar na Goinfra, a titularidade da empresa foi transferida para um terceiro, em uma operação que, para a polícia, teria sido apenas simulada.
Mesmo após a suposta venda, o investigado continuou recebendo valores expressivos da empresa — superiores a R$ 100 mil, segundo a Polícia Civil — cerca de um ano e meio depois da transferência. O pagamento não constava em contrato formal, o que reforça a suspeita de que o vínculo societário nunca foi, de fato, rompido.
“Não é normal alguém repassar valores dessa monta sem previsão contratual. Isso indica que a empresa nunca saiu do controle dele”, destacou Godim.
Documentos e dinheiro apreendidos
Durante o cumprimento de três mandados de busca e apreensão, os policiais localizaram, na residência do investigado, documentos empresariais datados de 2025, incluindo notas fiscais e comprovantes de pagamento, incompatíveis com a versão de que a empresa teria sido vendida em 2021. Também foram apreendidos R$ 10,5 mil em dinheiro em espécie, cuja origem não foi esclarecida pelo suspeito.
A empresa investigada não possui sede física própria, operando a partir de coworkings, o que, segundo a polícia, reforça o caráter de fachada utilizado no esquema.
Direcionamento de licitações
As apurações indicam que o ex-servidor utilizava sua posição interna para direcionar editais, criando critérios técnicos que favoreciam exclusivamente sua empresa ou restringindo a publicidade dos certames, esvaziando o caráter competitivo das licitações.
“Quando você direciona uma licitação, retira a concorrência. Um contrato que poderia custar R$ 3 milhões passa a custar R$ 4 ou R$ 5 milhões. É aí que está o prejuízo ao Estado”, afirmou o delegado.
Até o momento, foram identificados ao menos três procedimentos licitatórios suspeitos, realizados nos anos de 2023, 2024 e 2025.
Investigação continua
O vínculo do servidor com a Goinfra já foi encerrado, e o órgão instaurou Processo Administrativo Disciplinar (PAD). A Polícia Civil segue analisando o material apreendido, especialmente os dispositivos eletrônicos, para verificar a existência de outros crimes e possíveis novos envolvidos.
“Por enquanto, identificamos ao menos dois crimes. Mas a análise do material pode revelar uma estrutura criminosa maior”, concluiu Rodrigo Godim.
A Goinfra informou que mantém colaboração integral com as investigações e reforçou seu compromisso com a legalidade, a transparência e o correto uso dos recursos públicos.
Confira a nota na íntegra:
A Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra) informa que o ex-servidor temporário, atualmente investigado pela Polícia Civil do Estado de Goiás, no âmbito da Operação Nexo Oculto, foi desligado dos quadros da autarquia, que instaurou sindicância administrativa para apurar possível conflito de interesses, direcionamento e atuação como sócio oculto de uma empresa de engenharia.
A sindicância culminou na instauração de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para a devida responsabilização do ex-servidor, processo que está em andamento.
A Goinfra comunicou formalmente os fatos à Polícia Civil, por intermédio da Gerência de Ações Estratégicas da Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinfra), e mantém colaboração com as investigações em curso.
A autarquia reforça seu compromisso com a legalidade, a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos, não tolerando qualquer prática de irregularidade, e destaca a atuação da Diretoria de Controle Interno no acompanhamento e fortalecimento dos mecanismos de controle e integridade institucional.

