Poder de compra em Goiânia se aproxima do nível pré-pandemia após reajuste do salário mínimo
12 março 2026 às 11h23

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Luiz Paulo Tavares Gonçalves
Apoena Torres Lima
Mesmo com o reajuste de 6,79% no salário mínimo no início de 2026, o poder de compra do trabalhador brasileiro ainda não voltou ao patamar observado antes da pandemia em boa parte do país. Em várias capitais brasileiras, esse indicador ainda permanece abaixo do nível registrado no período pré-pandemia. Em Goiânia não é diferente, no entanto, o cenário é relativamente mais favorável.
A constatação pode ser feita a partir de dados da pesquisa nacional da cesta básica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Uma forma simples de observar essa evolução é dividir o valor do salário mínimo pelo preço da cesta básica. O indicador resultante mostra quantas cestas básicas podem ser adquiridas com um salário mínimo em diferentes períodos, permitindo a comparação do poder de compra ao longo do tempo.
De acordo com os dados mais recentes, em janeiro de 2026 um trabalhador que recebe um salário mínimo na capital goiana consegue comprar aproximadamente 2,20 cestas básicas (cada cesta básica custando R$ 735,94). O resultado indica uma recuperação em relação aos anos mais críticos da pandemia e sugere um nível de poder de compra próximo ao observado no início de 2020. Em janeiro de 2020, por exemplo, um salário mínimo comprava aproximadamente 2,28 cestas básicas, ou seja, próximo ao poder de compra registrado em janeiro de 2026. Para uma visão mais ampla, pode-se visualizar no gráfico a seguir a trajetória do poder de compra ao longo dos anos para Goiânia.

A título de comparação, em São Paulo, um salário mínimo comprova 2,0 cestas básicas no período pré-pandemia, contra 1,89 cestas em janeiro de 2026 (com a cesta básica custando R$ 854,37). Para Goiânia, é o maior patamar de poder de compra desde do começo do terceiro mandato do governo Lula. Não obstante, por mais que os resultados sejam positivos, quando olhamos para um horizonte de longo prazo, de 2010 a 2019, percebe-se que o patamar atual está abaixo. A média de 2010 a 2019 é de 2,43 cestas (uma diferença de 10,45% quando comparado com o poder de compra atual). Assim como, a recuperação do poder de compra depende não apenas do reajuste salarial, mas também da trajetória dos preços dos alimentos, que continuam exercendo forte pressão sobre o custo de vida das famílias. Como indicado pelo índice IPC-C1 (índice de preços focalizado em famílias com renda mensal de 1 a 2,5 salários mínimos), divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a cesta de consumo aumentou 2,86% em fevereiro em relação ao mesmo período do ano anterior.
Portanto, a inflação persistente e o cenário externo instável podem não apenas ajudar a explicar a conjuntura atual, como também corroer o poder de compra das famílias. Por exemplo, a inflação acumulada dos alimentos e bebidas (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, grupo Alimentos e Bebidas), em Goiânia, de janeiro de 2020 a janeiro de 2026, foi de aproximadamente 58%. Com inflação acumulada de 40,3% no período pandêmico (01/2020-01/2023) e 11,7% de janeiro de 2023 a janeiro de 2026, conforme dados do IBGE. A seguir, observamos o comportamento do IPCA, grupo Alimentos e Bebidas, com base nos dados verificados.

Em relação às determinações que regem as variações nos preços dos alimentos, podemos elencar algumas, a começar, à luz da teoria econômica, pelo caráter volúvel dos preços de bens in natura, isto é, quanto menos valor adicionado, quantos menos processamento um bem recebe, maior são suas flutuações de preço, principalmente se é um bem destinado à exportação. Entretanto, algumas medidas podem ser tomadas para atenuar tais flutuações, uma delas é criar estoques reguladores, que são capazes de aumentar a oferta em momentos que a demanda estiver inadequadamente acima da capacidade de oferta do mercado, aumentando desproporcionalmente os preços (inflação de alimentos), além de ser uma forma de garantir uma parte da produção ao plano doméstico, frente a demandas internacionais que eventualmente provocariam alguma escassez no mercado interno.
No Brasil, temos a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), cuja função é precisamente a de estoque regulador e incentivadora da agricultura familiar, através do Programa de Aquisição Alimentar (PPA). Nada obstante, seu papel foi impossibilitado por restrições orçamentárias, já que seu orçamento, em comparação com 2012, caiu 97,5% em 2020. Nesse período, mais de 27 agências da Conab foram fechadas.
Outro fator que influencia estruturalmente os preços é a forma como o Brasil se insere na economia mundial, como economia dependente, com falta de soberania energética, com 85% dos adubos utilizados na prática agrícola vindos do exterior; a mudança na política de construção de preços da Petrobras no governo Temer, que ocasionou a internacionalização dos preços do barril, elevando o preço da gasolina; a importação de quase toda a tecnologia usada na agropecuária; a falta de incentivos financeiros à produção agrícola destinada à soberania alimentar e toda uma intrincada teia de determinações que pressionam os preços e tensionam as variações para cima constantemente.

