Ao usar “pobre de direita” e “CEO de MEI”, esquerda amplia distância de eleitores, avalia socióloga Elisa Signates
13 outubro 2026 às 18h22

COMPARTILHAR
O uso de expressões que ridicularizam eleitores de direita contribui para afastá-los da esquerda e dificulta a compreensão de suas demandas. A avaliação é da professora e pesquisadora Elisa Signates, graduada em Ciências Sociais, especialista em Políticas Públicas e mestre em Sociologia. Para ela, reconhecer a legitimidade das críticas a um governo é necessário para preservar o diálogo entre posições políticas diferentes.
“Expressões como ‘pobre de direita’ ou ‘CEO de MEI’, que ganhou bastante repercussão, são exemplos disso. São termos que acabam ridicularizando determinados grupos sociais e desconsiderando suas preocupações”, afirma.
Na análise da pesquisadora, o longo período do PT no poder contribuiu para que parte de seus apoiadores adotasse uma postura de menosprezo em relação aos eleitores de direita. Esse comportamento, segundo ela, faz com que pessoas se sintam desrespeitadas e interpretem que suas reivindicações não encontram espaço no debate.
“Essas pessoas se sentem ofendidas e passam a ter a percepção de que suas reivindicações não são legítimas. Mas elas são. Existem críticas válidas ao PT, assim como a qualquer outro governo.”
Elisa argumenta que a recusa em ouvir essas críticas produz distanciamento político. Ao deixar de compreender as preocupações de determinados grupos, a esquerda também compromete sua capacidade de dialogar com eles.
Violência e falta de diálogo
Questionada sobre a importância da oposição para o equilíbrio institucional e os limites de sua atuação, a socióloga aponta a violência e a incapacidade de diálogo como sinais de que o debate ultrapassa os limites democráticos.
“Acredito que esses limites começam a ser ultrapassados quando há violência ou quando as pessoas deixam de conseguir dialogar. Atualmente, temos dificuldade até mesmo de reunir duas pessoas com posições políticas diferentes, uma de direita e outra de esquerda, para um debate.”
A pesquisadora também analisa como discursos políticos mobilizam sentimentos de pertencimento. Segundo ela, a extrema-direita utiliza frases de impacto, como “precisamos salvar o Brasil”, para estabelecer identificação com pessoas que compartilham valores tradicionais e religiosos.
Na avaliação de Elisa, a força dessas mensagens está na conexão com crenças e valores de parte da população. A dificuldade de outros campos políticos em compreender essa identificação limita o diálogo com esse eleitorado.
Articulação de Flávio não elimina preocupações
Na entrevista, Elisa também foi questionada sobre a possibilidade de um eventual governo de Flávio Bolsonaro se aproximar mais do perfil de Michel Temer do que do de Jair Bolsonaro, com uma orientação de direita mais liberal e moderada.
A socióloga considera essa possibilidade, mas ressalta que a capacidade de negociação não elimina preocupações sobre os objetivos políticos de uma eventual gestão.
“Flávio Bolsonaro tem um perfil diferente do pai. Na minha avaliação, ele demonstra maior capacidade de articulação política e de elaboração de estratégias.”
Para a pesquisadora, Flávio demonstra compreender a importância das negociações e da construção de acordos. Ela pondera, porém, que essa habilidade não equivale, necessariamente, a uma trajetória marcada por grandes realizações.
Seu receio está na forma como essa capacidade poderia ser utilizada para implementar propostas do grupo político que ele representa, especialmente aquelas que, em sua avaliação, possam prejudicar determinados segmentos da sociedade.
“Portanto, não considero Flávio Bolsonaro uma figura politicamente despreparada. Pelo contrário, acredito que ele tenha capacidade de negociação e articulação.”
Elisa distingue essa habilidade da experiência acumulada por Lula. Na avaliação dela, o petista possui uma trajetória mais extensa de negociação, construída também no movimento sindical. Ao defini-lo como um “animal político”, a pesquisadora destaca o peso dessa formação em sua atuação.
Leia também: Articulação para eleição de novo presidente da Alego acirra ânimos e ressuscita discussão sobre vaga no TCM


