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Pela primeira vez na série histórica medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com início em 2014, as mulheres são responsáveis pela maioria dos domicílios em Goiás. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2024, divulgada pelo IBGE, revela que 50,1% das residências goianas têm mulheres como chefes, o que representa um marco significativo na transformação do perfil das famílias do estado.

Os números consolidam uma tendência de crescimento constante observada ao longo da última década. Em 2014, apenas 33,7% dos domicílios goianos eram chefiados por mulheres. A evolução foi gradual e consistente: 34,1% (2015), 38,2% (2016), 38,9% (2017), 37,9% (2018), 43,2% (2019), 42,6% (2020), 47,3% (2021), 50,0% (2022), 48,2% (2023) até atingir os 50,1% em 2024.

Goiás acompanha e até antecipa, em alguns aspectos, uma tendência nacional significativa. Enquanto o estado atingiu a maioria feminina na chefia dos domicílios em 2024, o Brasil já havia registrado essa virada em 2022, quando 51,2% dos domicílios passaram a ter mulheres como responsáveis. Em 2024, a média nacional se manteve em 51,9%, indicando que Goiás segue um caminho similar ao do resto do país, ainda que em ritmo ligeiramente diferente.

Na capital goiana, o fenômeno é ainda mais pronunciado. Goiânia registrou 51,9% de domicílios com mulheres responsáveis em 2024, patamar superior à média estadual e equivalente à nacional. A evolução na capital foi ainda mais acentuada: em 2014, 40,7% dos domicílios goianienses eram chefiados por mulheres, saltando para 46,2% (2015), 48,7% (2016), 48,5% (2017), 45,7% (2018), 49,3% (2019), 49,4% (2020), 53,6% (2021), 54,1% (2022), 48,2% (2023) até os atuais 51,9%.

Os dados da PNAD Contínua 2024 mostram ainda que, paralelamente ao aumento da chefia feminina, ocorreu uma significativa redução dos domicílios com homens como responsáveis. Em Goiás, este percentual caiu de 66,3% em 2014 para 49,9% em 2024. Essa inversão histórica consolida uma nova realidade social no estado, com implicações para políticas públicas, mercado consumidor e dinâmicas familiares.

A pesquisa, que investiga características gerais dos moradores e domicílios, consolida dados de aproximadamente 168 mil domicílios em todo o país. A metodologia da PNAD Contínua visita os domicílios selecionados por cinco trimestres consecutivos, sendo as características gerais dos domicílios investigadas somente na primeira visita. Para 2024, foram considerados os dados acumulados da primeira entrevista.

Histórico

Em entrevista ao Jornal Opção, a socióloga Maria Aparecida Guimarães analisou as recentes mudanças na estrutura familiar de Goiás. A professora atribuiu as transformações a um processo histórico impulsionado por necessidades econômicas e pela busca de autonomia feminina.

“Essa história não começa agora. No começo do século XX, durante as guerras, os maridos iam para as trincheiras e as mulheres tinham que sustentar a família”, explicou a socióloga. “Elas começaram a sair para trabalhar fora de casa, e isso foi crescendo com as exigências do mercado por mais mão de obra.”

A professora destacou que a realidade do século XXI acelerou este processo: “O mercado de trabalho mudou demais. Vivemos numa sociedade machista onde a mulher ganha menos que os homens. Com o desemprego muito grande, as mulheres foram levadas ao mercado de trabalho”.

Sobre a busca por independência, a socióloga foi enfática: “As mulheres hoje querem autonomia. Isso mudou o tipo de relação entre homem e mulher. Elas não dependem mais exclusivamente dos homens para poder sobreviver”. Ela também ressaltou a dupla jornada feminina: “A mulher está no comando da família e, ao mesmo tempo, está no mercado de trabalho em condições inferiores, mas com responsabilidade quase total da família”.

Questionada sobre o futuro, a professora mostrou-se otimista: “A tendência é a mulher ocupar novos espaços cada vez mais. Na universidade, elas já são maioria”. Ela previu mudanças na estrutura familiar: “Daqui uns dias, a família vai ter outra forma de gestão. A mulher, quando decide assumir uma função, faz com responsabilidade e faz bem”.

Recorte de vulnerabilidade

Também em entrevista à reportagem, o sociólogo João Coelho analisou o significativo aumento de mulheres à frente dos lares goianos, situando o fenômeno no contexto nacional onde, pela primeira vez, a maioria dos domicílios brasileiros (51,1%) é chefiada por mulheres. “Estamos diante de uma transformação profunda na estrutura familiar brasileira, que exige uma análise dos números”, afirmou o especialista.

Coelho alertou para a complexidade por trás dos dados: “Há uma ambivalência crucial nesta tendência. Se por um lado celebramos a conquista de autonomia econômica e decisória das mulheres, por outro precisamos reconhecer que muitas assumem essa chefia não por escolha, mas por necessidade decorrente de abandono, viuvez ou insuficiência financeira dos parceiros”. O sociólogo ressaltou que “a aparente conquista esconde, em muitos casos, situações de extrema vulnerabilidade”.

O professor destacou a importância de analisar o perfil sociodemográfico dessas mulheres: “Quando falamos em chefia feminina dos lares, precisamos perguntar: qual mulher? A realidade mostra que se trata majoritariamente de mulheres negras ou pardas, com menor escolaridade, que frequentemente trabalham em dois ou três empregos para sustentar seus filhos. São mães solo que carregam sozinhas o peso econômico familiar”.

Coelho também chamou atenção para os desafios específicos enfrentados por esses arranjos familiares: “Estes lares são mais suscetíveis à pobreza e à violência doméstica. Paradoxalmente, muitos homens que não contribuem economicamente continuam exercendo violência por herança de um machismo estrutural profundamente enraizado”. E completou: “Temos no Brasil mais de um milhão de pessoas sem o nome do pai na certidão – dado que ilustra esta realidade de abandono”.

Por fim, o sociólogo fez um apelo por políticas públicas mais efetivas: “Urge que o poder público reconheça essa nova configuração familiar. Precisamos de políticas específicas que apoiem verdadeiramente essas mulheres, considerando suas realidades intersetoriais de classe, raça e gênero. As atuais políticas ainda se baseiam em um modelo nuclear de família que não corresponde mais à realidade brasileira”.

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