Aplicativo criado por pai de jovem autista promete agilizar diagnóstico e ampliar suporte a famílias
03 abril 2026 às 11h14

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O empresário Augusto Moura, conhecido como Guto, desenvolveu um aplicativo voltado à identificação precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA), inspirado em estudos internacionais e adaptado à realidade brasileira. Pai de um adolescente de 14 anos com autismo nível 3 não verbal, ele afirma que a vivência pessoal foi decisiva para a criação da ferramenta.
“Meu filho tem 14 anos e é nível 3 não verbal. Sempre organizei ações sociais gratuitas e vi de perto a dificuldade das famílias”, afirmou. Segundo ele, a ideia surgiu a partir da própria rotina. “A gente precisa de exames, relatórios, acompanhamento. Para famílias mais pobres, isso é muito difícil”, explicou ao Jornal Opção.
O aplicativo, chamado NexisX, foi desenvolvido com base no protocolo M-CHAT, utilizado mundialmente para triagem de autismo, mas com funcionamento digital. “Hoje, esse método é feito no papel. Eu peguei as mesmas perguntas e transformei em um sistema digital que calcula automaticamente e indica se a criança pode estar no espectro”, explicou.
A inspiração veio de uma pesquisa estrangeira. “Vi uma reportagem sobre um aplicativo nos Estados Unidos que detecta o autismo precocemente. Pensei: ‘se isso existisse aqui, eu teria descoberto o caso do meu filho muito antes’. Hoje, é possível identificar sinais a partir dos 17 meses”, disse.
Segundo Augusto, o sistema foi adaptado integralmente ao Brasil. “Peguei o estudo deles, o código-base, e adaptei para o português, com tarefas e comandos voltados para a nossa realidade. Incluí inteligência artificial, imagens, interações e outras funções que o modelo original não tinha”, afirma.

O projeto conta com apoio financeiro e técnico de um banco digital. “Um amigo acreditou na ideia e patrocinou tudo: engenheiros, desenvolvimento e estrutura. Hoje temos oito engenheiros trabalhando para finalizar o aplicativo. Ele já está funcionando muito bem.”
Além da triagem, o aplicativo oferece uma rede completa de acompanhamento. “Não é só detectar. Ele acompanha a pessoa com autismo ao longo da vida. Controla medicação, alimentação, rotina, crises e preferências. Tudo fica registrado”, explicou.
Segundo ele, a ferramenta também pode reduzir drasticamente o tempo de acesso a especialistas. “Hoje, uma família pode esperar anos por um neurologista. No aplicativo, ela pode ser atendida online em 10 ou 15 minutos. O neurologista encaminha para o neuropsicólogo e fecha o diagnóstico.”
A proposta inclui ainda suporte no dia a dia. “Ele avisa o horário do remédio, alerta se faltou terapia e envia notificações. Muitas vezes, nem os pais sabem todos os detalhes da rotina. Eu mesmo não sei exatamente o horário da medicação do meu filho, quem controla é minha esposa”, disse.
Outro diferencial, segundo Augusto, é o uso de recursos personalizados. “Temos mais de 3 mil tarefas e vídeos dentro do aplicativo, baseados no que a criança gosta. Isso ajuda a evitar crises. Até em situações como viagem de avião, sem internet, o sistema já tem conteúdo offline para acalmar”, explicou.
O desenvolvedor afirma que não pretende vender o projeto neste momento. “Já houve interesse de planos de saúde, mas eu não quero isso. Minha ideia é disponibilizar gratuitamente para as famílias, principalmente as mais pobres”, afirmou.
Segundo ele, a monetização futura será voltada apenas para instituições. “Talvez, daqui a um ou dois anos, cobrar de clínicas ou empresas. Mas o usuário final não paga. Qualquer valor arrecadado será revertido para ajudar pessoas com autismo.”
O aplicativo também começa a chamar atenção de autoridades. “Já fui procurado pelo Ministério da Saúde. Quero mostrar que existe uma ferramenta pronta, que pode ajudar muito. Isso pode fazer o governo olhar com mais atenção para o problema”, disse.
Apesar do avanço tecnológico, Augusto faz um alerta sobre a estrutura pública. “Detectar é só o começo. A grande questão é: o sistema está preparado para receber essas crianças? Hoje faltam vagas, profissionais e suporte”, afirmou.
Ele também destaca o impacto social do projeto. “Muitos pais abandonam a família quando descobrem o diagnóstico. Quem fica são as mães, muitas vezes sem apoio. Esse aplicativo pode ser uma ferramenta de suporte real.”
O sistema segue em fase de testes, com validação em famílias. “Já testamos com cerca de 30 famílias, com 97% de precisão. Quero chegar perto de 100% antes de lançar oficialmente”, disse.
Para Augusto, o objetivo é claro. “Não fiz isso pensando em dinheiro. Fiz pensando em ajudar outras famílias a não passarem pelo que eu passei. Se conseguir facilitar o diagnóstico e dar suporte, já valeu a pena”, completou.
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