A valorização da enfermagem, os desafios enfrentados pela categoria e os avanços conquistados nos últimos anos estiveram no centro da entrevista com a presidente do Conselho Regional de Enfermagem de Goiás (Coren-GO), Thais Luane de Almeida. Em uma conversa franca, ela abordou desde questões salariais e saúde mental até fiscalização profissional, ensino superior e as lutas atuais da categoria em Brasília.

À frente do Conselho em seu primeiro mandato, Thais destacou a importância da presença institucional junto aos profissionais, especialmente diante de cenários como sobrecarga de trabalho, violência no ambiente de saúde e déficit de servidores na rede pública. Segundo ela, o fortalecimento da enfermagem passa não apenas por conquistas legislativas, como o piso salarial, mas também por escuta ativa e atuação direta nas unidades de saúde, inclusive no interior do Estado.

A entrevista também trouxe reflexões sobre pandemia, negacionismo, prescrição de medicamentos por enfermeiros, empreendedorismo na área da saúde e inclusão, como o primeiro Seminário LGBTQIA+ promovido pelo sistema federal de enfermagem. Em meio a tantos desafios, Thais reforça que a categoria segue movida por compromisso, qualificação e luta por reconhecimento.

João Paulo – Gostaria muito de ouvir a opinião da senhora sobre o caso ocorrido no Hospital Anchieta, no Distrito Federal, em que enfermeiros foram acusados de matar pacientes, inclusive com o uso de desinfetantes, entre outras substâncias. Na sua avaliação, doutora, que ensinamentos um caso como esse pode trazer para a área da enfermagem?

Trata-se de uma situação lamentável ocorrida no Distrito Federal, cujas investigações já estão em andamento. O que mais nos chamou a atenção foi a grande repercussão nacional do caso, sobretudo por envolver a enfermagem — que é, reconhecidamente, a linha de frente do cuidado em saúde.

Infelizmente, em todas as profissões e na sociedade como um todo, existem questões relacionadas ao caráter individual. E é importante reforçar que a enfermagem é uma profissão capacitada e qualificada para prestar assistência à sociedade e ao povo brasileiro de forma eficiente, ética e fundamentada na ciência. O cuidado é exercido com zelo, responsabilidade e compromisso.

A mensagem que deixo é que o olhar sobre a enfermagem deve ser mais amplo e considerar a totalidade da nossa atuação. Sem o serviço de enfermagem, não há um bom funcionamento do sistema de saúde — na verdade, a saúde simplesmente não funciona.

João Paulo – É importante a senhora destacar esse ponto, porque quando situações como essa acontecem — como você mencionou, em qualquer profissão — é natural que as pessoas fiquem receosas e até mesmo temerosas.Diante disso, como você avalia o impacto de um caso como esse para a população?

Como mencionei, fala-se pouco sobre a enfermagem. Diante de uma situação como essa, que nos envolve diretamente, cabe a nós destacar a grandiosidade da profissão.

É fundamental mostrar à sociedade que a enfermagem está presente, que tem competência, conhecimento e compromisso com o cuidado, salvando vidas diariamente. Hoje, no Brasil, somos mais de 3 milhões de profissionais de enfermagem. Portanto, a enfermagem precisa ser reconhecida nessa dimensão e nessa grandeza.

Situações isoladas, infelizmente, podem ocorrer — não apenas na enfermagem, mas em diversas outras áreas. No entanto, elas não representam a totalidade nem o compromisso ético e profissional da imensa maioria dos trabalhadores da saúde.

Ton Paulo – Doutora, no ano passado, o Fantástico, da Rede Globo, exibiu uma reportagem de grande repercussão — bastante controversa, inclusive — revelando que aproximadamente 80% dos profissionais de saúde, entre eles os da enfermagem, já sofreram algum tipo de violência, seja física ou verbal. Na prática, como o Coren ampara os profissionais que foram vítimas de violência no ambiente de trabalho durante o exercício da profissão?

Na verdade, essa pesquisa foi divulgada pelo Coren São Paulo. Trata-se de uma entrevista concedida pelo presidente Sérgio Coleto ao Fantástico, na qual foi apresentado um dado alarmante e bastante real: em todo o sistema, cerca de 80% dos profissionais que atuam na linha de frente já sofreram algum tipo de violência.

Quanto à nossa atuação, falo com base na experiência prática. Em diversas situações, inclusive, eu mesma estive presente oferecendo apoio aos profissionais que foram vítimas de violência em seus locais de trabalho. A postura do Conselho é, прежде de tudo, acolher e orientar esse profissional sobre quais caminhos deve seguir.

A partir das denúncias recebidas, acompanhamos os profissionais — aqui no nosso Estado — até a Delegacia, juntamente com a Assessoria Jurídica, prestando todo o suporte necessário e auxiliando no encaminhamento e nos trâmites legais do caso.

Ton Paulo – Então, há um amparo direto por parte da entidade aqui em Goiás, com esses casos que chegam até vocês. 

Com certeza. Aqui no Estado de Goiás, no Coren-Goiás, durante a nossa gestão e sob a minha liderança, temos, sim, estado ao lado desses profissionais, oferecendo apoio.

Eu acredito muito que, em situações como essas, uma das principais atitudes que o Conselho pode ter é a presença. O profissional está ali exercendo sua função, com a responsabilidade de cuidar, e, de repente, é vítima de agressão. Isso o deixa profundamente abalado e desolado.

Costumo dizer que a presença faz a diferença. Procuro agir pensando naquilo que eu gostaria que fizessem por mim. Muitas vezes, em momentos difíceis, a presença de alguém ao nosso lado nos fortalece e nos encoraja a seguir adiante — inclusive para dar continuidade aos trâmites legais e aos processos judiciais com mais firmeza e segurança.

Ton Paulo – Gostaria de perguntar também sobre o ensino da enfermagem aqui no Estado. Recentemente, a divulgação dos resultados do Enade surpreendeu muitas pessoas, ao revelar que diversas universidades e faculdades em Goiás obtiveram notas muito baixas. Isso gerou a percepção de que, em alguns casos, o ensino pode estar aquém do esperado para a formação dos profissionais que ingressarão no mercado de trabalho.

Diante desse cenário, como o Estado avalia a qualidade do ensino superior em enfermagem? As instituições que atualmente oferecem o curso estão atendendo às demandas do mercado? Estamos recebendo profissionais devidamente capacitados para atuar na área?

A fiscalização da qualidade do ensino em enfermagem não é uma atribuição direta do Conselho. No entanto, como docente e atuante na área da educação, mantenho um olhar muito atento em relação à formação dos profissionais.

E de que forma exercemos esse olhar? Promovendo capacitações e qualificações para os profissionais que já possuem registro no Conselho. Acreditamos que, dessa maneira, conseguimos contribuir para o aprimoramento daquele profissional que já concluiu sua formação, fortalecendo sua prática e sua segurança no exercício da profissão.

Tivemos um avanço significativo por meio do Sistema COFEN/Conselhos Regionais, que travou uma importante luta pela proibição dos cursos de enfermagem na modalidade 100% a distância. A enfermagem exige contato, prática, presença — é uma profissão que demanda interação direta, o “olho no olho”. Esse foi um grande passo, especialmente no ensino superior.

Seguimos atentos também em relação aos cursos de nível médio, sobretudo diante de situações em que há autorização para oferta em formato híbrido. O Conselho tem acompanhado esse cenário e se posicionado em defesa da qualidade da formação.

Além disso, a partir das informações que recebemos de hospitais e instituições de saúde sobre a contratação de profissionais, desenvolvemos ações voltadas à qualificação, buscando contribuir para que esses trabalhadores estejam cada vez mais preparados para atender às demandas do mercado e da sociedade.

Thais Luane de Almeida | Foto: Fabio Chagas

João Paulo – Eu queria que a senhora me contasse também agora sobre o salário dos enfermeiros. Como é que essa é a realidade aqui no Estado? E se ela acaba sendo justa perante as funções que eles acabam desempenhando? 

A questão salarial da enfermagem, historicamente, nunca foi justa. No entanto, tivemos uma grande conquista com a aprovação da lei que instituiu o piso salarial nacional da categoria, em 2022. Foi uma vitória construída com muita luta: manifestações, mobilizações, idas a Brasília e o engajamento de toda a categoria.

Conquistamos o piso, mas seguimos na luta, porque a realidade ainda não é igual para todos. Embora a lei exista desde 2022, sua implementação plena ainda enfrenta desafios. Além disso, o que deveria ser um piso acabou se tornando, na prática, um teto para muitos profissionais.

Outra questão importante é que o valor estabelecido está vinculado a uma carga horária de 44 horas semanais — uma jornada que, na prática, muitas vezes não corresponde à realidade da profissão. Por isso, teremos uma grande mobilização no dia 17 de março, em Brasília, com o objetivo de buscar a equiparação do piso para uma carga horária de 30 horas semanais, além da garantia de reajuste anual. Desde a criação da lei, não houve atualização dos valores.

Atualmente, o piso do enfermeiro é de R$ 4.750,00. O técnico de enfermagem recebe 70% desse valor, e o auxiliar de enfermagem, 50%, conforme previsto na legislação. Seguimos firmes na defesa da valorização salarial, porque reconhecer a enfermagem é também garantir condições dignas de trabalho e remuneração adequada.

Ton Paulo – Há uma narrativa que circula no mercado de que o técnico de enfermagem seria o “patinho feio” da categoria. Gostaria da sua ajuda para esclarecer o que é percepção e o que, de fato, corresponde à realidade nessa afirmação. Existe também a ideia de que o técnico exerce praticamente as mesmas funções do enfermeiro, mas recebe uma remuneração significativamente menor. Isso realmente acontece na prática? Essa é uma realidade no mercado de trabalho?

Você trouxe uma questão muito pertinente. Quando falamos em enfermagem, estamos nos referindo a uma categoria composta por enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, cada um com atribuições específicas definidas em lei.

A Lei nº 7.498/1986, que regulamenta o exercício profissional da enfermagem, estabelece de forma clara quem é o enfermeiro e quais são os requisitos para o exercício da função — entre eles, a formação em nível superior, com graduação que dura, em média, cinco anos.

Já o técnico e o auxiliar de enfermagem são profissionais de nível médio. Ambos exercem suas atividades sob a supervisão do enfermeiro. O técnico é preparado para executar procedimentos técnicos e atuar em situações de menor complexidade, sempre dentro das atribuições previstas em lei.

Na minha visão, não existe “patinho feio” dentro da enfermagem. O que existem são funções distintas, responsabilidades diferentes e níveis de formação específicos para cada categoria. O enfermeiro possui uma formação mais ampla e aprofundada, o que o habilita, por exemplo, para o planejamento da assistência, a supervisão da equipe e a tomada de decisões mais complexas. O técnico e o auxiliar desempenham um papel fundamental na execução do cuidado, dentro das competências que lhes são atribuídas.

Caso haja situações em que um técnico esteja sendo colocado para exercer atribuições privativas do enfermeiro — eventualmente como forma de reduzir custos —, isso é irregular. A fiscalização dessa prática é competência do Conselho Regional de Enfermagem, que realiza inspeções periódicas nas instituições de saúde.

Durante as fiscalizações, é verificada a escala de profissionais, a distribuição das atribuições e se todos estão devidamente inscritos no Conselho. Apenas profissionais regularmente registrados podem atuar, e cada um deve exercer exclusivamente as atividades correspondentes à sua formação.

Portanto, o que precisa existir é respeito às atribuições legais e valorização de todos os integrantes da equipe de enfermagem, cada qual dentro do seu papel.

João Paulo – Presidente, conte para nós como é a realidade da enfermagem no interior do Estado. Sabemos que a capital e os grandes centros urbanos concentram maior demanda, maior estrutura e, muitas vezes, mais profissionais. Mas e nas pequenas cidades do interior? Como é o dia a dia dos enfermeiros que atuam nesses locais? Quais são os principais desafios enfrentados pela categoria nessas regiões? Existe, de fato, uma disparidade significativa quando comparamos os grandes centros com o interior, seja em relação às condições de trabalho, à oferta de profissionais ou à disponibilidade de insumos e estrutura adequada?

Olha, hoje a realidade da enfermagem no Estado não difere tanto entre municípios pequenos e grandes. É claro que, quando falamos de cidades como Goiânia, Aparecida de Goiânia, Anápolis e toda a região metropolitana, há um número maior de profissionais e de unidades de saúde.

No entanto, ao percorrermos o Estado de Norte a Sul nos últimos dois anos, percebemos que muitos dos desafios se repetem, independentemente do porte do município. A questão salarial ainda é um ponto sensível, mas o problema que mais se destaca é o subdimensionamento das equipes.

Há falta de profissionais nas unidades de saúde, o que gera uma sobrecarga evidente. Os trabalhadores acabam assumindo múltiplas demandas, acumulando funções e enfrentando jornadas exaustivas. Essa sobrecarga compromete não apenas a qualidade de vida do profissional, mas também a qualidade da assistência prestada à população

Portanto, embora existam diferenças estruturais entre capital e interior, o grande desafio comum é garantir equipes adequadamente dimensionadas, condições dignas de trabalho e valorização profissional em todo o Estado.

João Paulo – Gostaria de abordar também a questão da violência na enfermagem. Trata-se de uma profissão que lida diretamente com vidas — assim como a medicina — e que carrega uma enorme responsabilidade.

Ao mesmo tempo, percebemos que há uma sobrecarga significativa, inclusive na cobrança sobre o trabalho desses profissionais, que muitas vezes não recebem o devido reconhecimento, como a senhora mesma já destacou.Como a senhora avalia essa realidade? De que forma a violência e a pressão excessiva impactam o exercício da enfermagem e a saúde emocional desses profissionais?

Esse é um ponto fundamental. Inclusive, discutimos recentemente a necessidade de ampliar o olhar para a saúde mental dos profissionais de enfermagem.

A enfermagem está na linha de frente do cuidado, acompanhando o paciente desde a sua entrada na unidade de saúde até a alta — ou, em muitos casos, até os momentos mais delicados da vida. Essa responsabilidade contínua gera uma carga emocional muito intensa.

Embora hoje exista um piso salarial, ele ainda não é suficiente para garantir condições ideais. Como consequência, muitos profissionais mantêm mais de um vínculo empregatício para complementar a renda. Isso leva a jornadas exaustivas e a uma sobrecarga física e emocional significativa.

Além disso, a enfermagem é composta majoritariamente por mulheres — mais de 80% da categoria — e muitas são mães, inclusive mães solo. Ou seja, além das múltiplas jornadas de trabalho, ainda assumem responsabilidades familiares, o que intensifica o desgaste e contribui para o adoecimento mental.

Quando falamos de violência, estamos tratando de um problema amplo e multifatorial. Ela pode vir de usuários do sistema de saúde, de acompanhantes, da própria estrutura precária de algumas unidades — que gera tensão e frustração — e também de ambientes internos marcados por falhas de gestão, assédio ou relações de trabalho abusivas. Tudo isso impacta diretamente a saúde emocional da equipe.

Diante desse cenário, nossa atuação envolve o enfrentamento à violência institucional e interpessoal, a defesa de melhores condições de trabalho e a luta por uma remuneração mais justa. Cuidar da saúde mental da enfermagem é, também, cuidar da qualidade da assistência prestada à população.

João Paulo – Nessa questão de denúncia de assédio, que o senhor está falando, como é o canal de denúncia? Vocês acham que é importante trazer isso para a gente? Porque pode ter gente que não sabe ainda. E como é o volume dessas denúncias também? 

Thais Luane de Almeida | Foto: Fabio Chagas

Temos, sim, uma dificuldade no recebimento dessas denúncias.

O Conselho disponibiliza um canal de ouvidoria — acessível diretamente pelo nosso site — por meio do qual o profissional pode registrar sua denúncia de forma oficial. Sempre que estamos nas unidades, reforçamos essa informação e orientamos sobre como utilizar esse canal.

No entanto, percebemos que muitos profissionais ainda têm receio de denunciar, por medo de represálias no ambiente de trabalho. Esse temor acaba dificultando que as informações cheguem até nós de maneira mais efetiva.

Por isso, mantemos uma atuação presencial constante, visitando as unidades de saúde, dialogando diretamente com os profissionais e reforçando a importância da comunicação. Precisamos dessas informações para agir de forma concreta — seja por meio de fiscalização, seja acionando outros órgãos competentes quando necessário.

Nosso objetivo é criar um ambiente de confiança, para que o profissional se sinta seguro em relatar situações de violência, assédio ou irregularidades. Só com esses dados em mãos conseguimos atuar de maneira mais firme e articulada, buscando soluções e proteção para a categoria.

Ton Paulo – Recentemente, chegou a ser um embate entre a Prefeitura de Goiânia e médicos credenciados à rede.Houve aquela reclamação sobre o salário que foi oferecido no edital, bem abaixo do que se esperava. Como é a relação da categoria da enfermagem com o poder público? O que está sendo oferecido nos editais, nos concursos já anunciados, está dentro do esperado? Está satisfatório? 

Hoje, enfrentamos um déficit evidente de profissionais na Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia. Diante desse cenário, a principal reivindicação da categoria é a convocação dos aprovados no último concurso público realizado.

O concurso ocorreu, porém até o momento não houve convocação dos profissionais aprovados. Não temos o número exato de quantos aguardam chamamento, mas sabemos que há candidatos aptos e à espera de nomeação.

Enquanto isso, a rede pública municipal segue com déficit de profissionais, o que gera sobrecarga nas equipes que já estão atuando e impacta diretamente na qualidade da assistência prestada à população. A convocação desses aprovados é vista como uma medida essencial para reduzir o subdimensionamento das equipes e melhorar as condições de trabalho na rede pública.

Ton Paulo – Mas tem algum diálogo em andamento com o poder público para que isso seja resolvido por parte do COREN? 

Então, na verdade, as questões trabalhistas não são demandas do Conselho. Mas, como a gente está aí para fortalecer a enfermagem, aquilo que é de direito nosso, como profissional, para garantir uma assistência, nós temos estado, juntamente com os sindicatos, para buscar esse diálogo com a Secretaria Municipal de Saúde.

Teve a questão da paralisação, mobilização dos credenciados da medicina. Posteriormente, seria feita uma assembleia do sindicato para conversar e dialogar com os profissionais para fazer esses encaminhamentos à Secretaria de Saúde.

Ton Paulo – Falando em médicos, também existe essa polêmica antiga, que diz que às vezes há um certo embate entre o médico e o enfermeiro na atuação cotidiana. Realmente existe essa rivalidade entre essas duas categorias? Como é que funciona no dia a dia? 

Eu vou te falar por mim. Por mim, como enfermeira, eu não vejo.

Eu olho para a nossa profissão e para toda a equipe multiprofissional, nós somos um conjunto. A atuação do médico é de extrema importância, ele tem o seu papel. Ele precisa do enfermeiro, do técnico auxiliar.

Então, é tudo uma engrenagem. São profissões distintas. Cada um com a sua responsabilidade e cada um cumpre com o seu papel.

Mas é toda uma equipe multiprofissional. A enfermagem não vai atuar na assistência sozinha. Precisa de ter o papel do médico, assim como tem que ter o nutricionista, o fonaudiólogo, enfim.

Ton Paulo – E o Coren mantém diálogo com o Cremego? Existe esse contato?

Sim, há diálogo institucional sempre que necessário. Em determinadas situações, quando surgem demandas que envolvem tanto a enfermagem quanto a medicina, buscamos o contato para tratar das questões de forma responsável e conjunta. O foco é sempre o paciente e a boa assistência.

João Paulo – Gostaria de abordar outro ponto, ainda relacionado ao poder público e que costuma gerar bastante debate: a atuação das Organizações Sociais (OS) na saúde. Sabemos que, em algumas situações, profissionais de enfermagem contratados por meio de OS acabam recebendo salários inferiores, algo que a senhora já mencionou ao longo da entrevista. Na sua avaliação, esse modelo de gestão pode ser prejudicial para a categoria nesse aspecto? De que forma ele impacta as condições de trabalho e a valorização dos profissionais de enfermagem?

Sobre a atuação das OS na saúde, eu costumo dizer aquilo que escuto dos próprios profissionais e o que temos vivenciado na prática. Em alguns momentos, sim, esse modelo tem trazido prejuízos, principalmente no que diz respeito à escala de trabalho, ao dimensionamento das equipes e à sobrecarga.

Os relatos apontam jornadas excessivas, acúmulo de funções e, consequentemente, adoecimento mental. É o mesmo padrão que já mencionamos anteriormente: equipes reduzidas e aumento da pressão sobre quem está na linha de frente.

Ton Paulo – Em relação à fiscalização e às punições, diferentemente do que acontece em algumas áreas, como o jornalismo, a enfermagem possui um Código de Ética e um sistema de responsabilização profissional?

Recebemos diversas denúncias. Entre as principais infrações estão erros na administração de medicamentos, falhas técnicas, situações de assédio e condutas incompatíveis com o exercício profissional.

Quanto às punições, não é possível estabelecer uma regra automática do tipo: “errou, a punição será tal”. Cada caso é analisado individualmente. Existe todo um trâmite processual, com investigação, produção de provas, direito à defesa e julgamento em sessão específica.

Dependendo da gravidade e das circunstâncias, o profissional pode sofrer penalidades que vão desde advertência e multa até a suspensão e, em casos mais graves, a cassação do direito de exercer a profissão. Mas tudo depende da apuração completa dos fatos.

Nem toda falha resulta automaticamente em punição. É necessário comprovar responsabilidade, contexto e intenção.

Ton Paulo – O COREN-GO acompanha a profissão de cuidadores de idosos?

Sobre os cuidadores de idosos, é importante esclarecer que essa não é uma profissão regulamentada por legislação específica. Portanto, o Conselho não fiscaliza cuidadores. Nossa competência é fiscalizar o exercício profissional de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, devidamente inscritos no Conselho.

João Paulo – Recentemente, teve uma trente viralizada nas redes sociais sobre a tal profissão por amor. E a enfermagem foi muito citada. Enfermagem por amor. Diante de tudo isso que a senhora trouxe, questões que muitos profissionais passam, violência, assédio, estresse, o amor ainda está presente na profissão? 

Eu acredito que o amor ainda está presente na profissão. Prova disso é que hoje somos mais de 3 milhões de profissionais no país. A enfermagem é, sim, uma profissão que nasce do cuidado e da dedicação. O amor continua existindo, mas ele evoluiu. Amar a profissão não significa aceitar desvalorização, baixos salários ou condições inadequadas de trabalho.

Hoje, além do amor, buscamos reconhecimento, valorização no contracheque, melhores condições de trabalho e um salário digno.

Ton Paulo – E são mais mulheres enfermeiras do que homens?

São mais profissionais mulheres do que homens na enfermagem.

Ton Paulo – E mesmo assim, a senhora acha que ainda existe um certo machismo dentro da categoria? A gente vê machismo em várias categorias que sejam mais mulheres do que homens. Na enfermagem tem essa realidade também? 

Na verdade, na parte mais da questão de violência, a gente percebe sim uma profissão que é majoritariamente feminina e a gente tem uma questão do machismo estrutural da sociedade. Até mesmo diante dos plantões que nós temos duplos aí dia, noite.

Então a gente percebe sim esse machismo. Não da classe em si. Mulheres ali, na maior proporção, mas por parte da sociedade mesmo.

João Paulo – Eu queria que a senhora contasse um pouco da sua trajetória. Hoje a senhora está como presidente do Conselho. Escolheu a enfermagem realmente por amor? Como foi sua entrada na profissão?

Hoje estou como presidente, mas me formei em 2014. Escolhi a enfermagem justamente por esse olhar de servir. Acredito que a enfermagem serve às pessoas por meio do cuidado e do amor ao próximo.

Após me formar, segui na docência, atuei em home care, trabalhei com imunização e continuo até hoje na coordenação de cursos de enfermagem. Essa é, basicamente, minha trajetória profissional.

Ton Paulo – A senhora está em qual mandato como presidente?

Estou no meu primeiro mandato, que tem duração de três anos. Este é o último ano. Teremos eleições no final deste ano e, sim, pretendo disputar a reeleição. Será mais para o final do ano.

Ton Paulo – Qual o principal legado que a senhora acredita ter construído até agora?

O maior legado é a presença. Estar próxima dos profissionais, ouvir, dialogar olho no olho. Intervimos quando compete ao Conselho e, quando não compete, encaminhamos às autoridades responsáveis. Essa presença tem fortalecido a categoria.

Ton Paulo – Como foi para a senhora viver a pandemia como enfermeira?

Foi extremamente desafiador. A enfermagem esteve presente o tempo todo, mesmo sem saber exatamente como enfrentar aquela situação. Perdemos colegas, foi um período muito doloroso.

Por outro lado, a pandemia deu visibilidade à enfermagem. Foi nesse contexto que conseguimos avançar na luta pelo piso salarial. A categoria mostrou sua força.

João Paulo – Muitas doenças com índices vacinais baixos. É por conta do negacionismo? Como que a população está afetada? Como voltar a acreditar na vacina?

Existiu, sim, negacionismo durante a pandemia. Mas a enfermagem sempre defendeu a vacinação. Trabalhei na área de imunização e sei da importância da vacina. Ela era o único caminho para superarmos aquele momento.

Hoje seguimos trabalhando na conscientização, combatendo fake news e reforçando que vacina salva vidas.

Ton Paulo – Qual é a principal luta da categoria neste momento?

A aprovação da PEC 19, que trata do reajuste do piso salarial. Temos agendas com deputados e senadores para buscar apoio. No dia 17 teremos mobilização em Brasília. Estaremos juntos pela defesa e contra a violência aos profissionais de enfermagem.

Ton Paulo – O Conselho apoia candidatos?

Não. O Conselho é uma autarquia federal e não pode apoiar candidatos. Mas, como enfermeira, considero muito importante termos representantes da enfermagem no Legislativo.

João Paulo – A senhora formou em 2014. Quais foram os principais avanços da enfermagem desde que a senhora se formou?

Vejo mais avanços do que retrocessos. Hoje temos mais autonomia, resoluções que fortalecem a prescrição de medicamentos, atuação em consultórios, enfermagem obstétrica, entre outras áreas. A profissão evoluiu muito. Hoje temos resolução, temos lei, Ministério da Saúde e Anvisa.

Ton Paulo – Pode haver no futuro um “apagão” de profissionais na enfermagem?

Não vejo dessa forma. Pelo contrário, percebo um aumento na procura pelo curso. A enfermagem oferece diversos nichos de atuação, além da essência que é cuidar. Hoje o mercado de trabalho dá muitas oportunidades.

E, com o envelhecimento da população, a demanda tende a crescer ainda mais. Precisamos de mais profissionais de saúde para cuidar essa população.

João Paulo – Como a inteligência artificial impacta a enfermagem?

Não temos como fugir da IA. Precisamos regulamentar seu uso para que seja uma ferramenta a favor da qualidade do serviço, sempre com responsabilidade ética.

Ton Paulo – Existe tele-enfermagem?

Sim. Temos iniciativas, inclusive apoio em saúde mental para profissionais. Durante a pandemia houve a “Enfermagem Solidária”, com suporte psicológico.

Inclusive essa semana mesmo já foi colocado em vigor profissionais enfermeiros da saúde mental para prestar assistência para os profissionais de enfermagem. Isso veio através do Conselho Federal, por meio da Câmara da Comissão de Saúde Mental. E esse trabalho, assim como foi na pandemia com a enfermagem solidária, prestando aí apoio psicológico para os profissionais de enfermagem

Ton Paulo – Enfermeiro pode prescrever medicamentos?

Sim. Isso está previsto na Lei nº 7.498/1986 e reforçado por resoluções recentes, como a Resolução 801/2026. A prescrição deve seguir protocolos institucionais e a lista autorizada.

Ton Paulo – E procedimentos cirúrgicos? O enfermeiro pode realizar procedimentos como sutura e inserção de DIU?

Sim, desde que tenha capacitação técnica. Pode realizar sutura simples, inserção de DIU, Implanon e até atuar com acupuntura, desde que seja especialista.

Ton Paulo – Existe incentivo ao empreendedorismo?

Sim. Firmamos parceria com a Goiás Fomento para linha de crédito com juros reduzidos para enfermeiros que desejam abrir consultório ou investir em equipamentos.

Gostaria de falar que na próxima semana acontecerá o primeiro Seminário LGBTQIA+ do Sistema Cofen/Conselhos Regionais, promovido pelo Conselho Federal de Enfermagem. O evento será realizado em Brasília, nos dias 10 e 11.

Será um momento importante para discutir a assistência à população LGBTQIA+ sob a perspectiva da enfermagem, promovendo inclusão, respeito e qualificação do cuidado. O objetivo é fortalecer uma atuação cada vez mais humanizada, livre de preconceitos e alinhada às necessidades específicas dessa população.

Todo o sistema participa, reforçando o compromisso da enfermagem com a equidade e a qualidade da assistência.

João Paulo – Quantos profissionais existem em Goiás?

Mais de 95 mil inscritos ativos no estado, entre enfermeiros, técnicos e auxiliares. Estamos presentes em todos os 246 municípios goianos.

João Paulo – Existe interiorização das ações do Conselho? Algo que gostaria de acrescentar?

Sim. Realizamos o “Coren Itinerante”, levando serviços administrativos, diálogo, escuta e capacitação aos municípios do interior.

Destaco as parcerias realizadas, como com a Goiás Fomento e com a Secretaria de Saúde, além da entrega da nova sede do Conselho, com mais de 3 mil metros quadrados. Seguimos trabalhando pelo fortalecimento da enfermagem.