O encontro de um jornalista goiano com o misterioso povo Himba da Namíbia
24 março 2026 às 17h06

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No norte da Namíbia, país da África que apesar de grande em território tem apenas 3 milhões de habitantes, longe da civilização e camuflados no meio da savana africana, se esconde o antigo e misterioso povo Ovahimba, ou Himba, como são mais conhecidos.
Os registros históricos apontam que os Himba se instalaram na Namíbia há centenas de anos. E mesmo depois de incontáveis séculos, ainda preservam antigos costumes tribais que resistem ao avanço da modernidade.
Para se ter acesso a eles, não é nada fácil. Há várias tribos Himba conhecidas na Namíbia. Uma delas, e a considerada mais “acessível”, está localizada na região de Kunene, a pouco mais de 20 quilômetros de Kamanjab, uma cidadezinha namibiana de menos de 6 mil habitantes.
Na região também fica o Parque Nacional Etosha, gigante em extensão – a metragem quadrada chega a mais de 20 mil quilômetros – e abrigo de animais selvagens como elefantes, leões e leopardos.
Essa tribo, rodeada pelos animais selvagens e pela savana da África, foi justamente a escolhida por mim, um nascido e criado goiano e editor do Jornal Opção, para conhecer. E eu não imaginava, à ocasião da decisão, do quão extraordinária e marcante seria a experiência.
O avião que decolou de Joanesburgo, na África do Sul, pousou no Aeroporto Internacional Hosea Kutako, em Windhoek, capital da Namíbia, por volta de 13h30 de uma quinta-feira de março. No salão de desembarque do pequeníssimo e modesto aeroporto, o motorista da acomodação, o gentil Benjamin Coetzee, já me aguardava com uma placa com meu nome.
Foram quase 5 horas de viagem do aeroporto até o remoto Toko Lodge, tempo suficiente para vencer os mais de 400 quilômetros de chão.

Com exceção das cidades – muito distantes uma da outra – a Namíbia pode ser descrita como um imenso campo aberto e plano de savana, respingado por imponentes montanhas. Como dito por Benjamin, “muito espaço para pouca gente”.
Chegamos ao lodge no início da noite. Uma acomodação confortável, mas completamente isolada, sem Wi-Fi, fraco (quase inexistente) sinal de celular, água gelada no chuveiro, mas localizado a menos de 1 quilômetro da tribo Himba.
O lodge fica tão próximo daquele antigo povo que, enquanto eu desfazia minhas malas, conseguia ouvir crianças Himba gritando e brincando.
Na sexta à noite, durante o jantar no lodge (no qual Benjamin e eu éramos os únicos hóspedes, devido ao período de baixa temporada turística) ficou combinado que eu visitaria a tribo na manhã do dia seguinte, um sábado. “Perfeito, vou até lá agora avisa-los pra se prepararem”, me disse Eric, o gerente/zelador/segurança do Toko Lodge.
Eram mais de 22h. Ele me disse isso e sumiu na escuridão, em direção aos pontos de luz das fogueiras Himba.
Vestimentas
Pouco depois, entendi os tais preparativos. Quando tomam ciência que receberão a visita de turistas, os Himba se arrumam com suas vestes de festa, seus adereços e organizam suas cabanas, além de juntarem os souvernirs que tentarão vender durante a visita.
Na manhã de sábado, chego acompanhado de Eric. Somos recebidos antes da entrada da tribo por crianças que nos rodeiam rindo, curiosas. Elas apontam para mim, riem, correm e voltam, ainda mais curiosas.

Tão logo nos aproximamos de uma cabana, feita de barro e madeira e coberta de palha, uma mulher Himba aparece na entrada e, em seu dialeto próprio, começa a conversar com Eric. Não há como esquecer sua imagem.
Ela usa o cabelo em tranças que são cobertas por uma massa à base de barro. No pescoço, imensos colares que parecem feitos de cascas de árvore, metal, madeira e pele de animais. Os seios estão expostos, nus, mas ela não parece se importar. Nos braços e pulsos, dezenas de pulseiras de metal e couro. Assim como nas pernas e tornozelos.
Aliás, essa é uma parte do corpo dos Himba cuja proteção é essencial. Para se protegerem do bote de cobras, venenosas e muito comuns na região, eles envolvem do tornozelo até um pouco abaixo do joelho com um adereço que parece feito de pequenas pedrinhas e metal.
No caso das mulheres, também há a presença de tiras de couro que representam a quantidade de filhos. A mulher que conversava com Eric tinha uma tira no adereço da perna: logo, um filho.
A parte de baixo das mulheres é coberta por um tipo de saia, com uma espécie de “capa” de pele de cabra na parte da traseira devorada com adereços de metal. As que não têm filhos. Já as mães, usam junto à pele de cabra um tipo de tecido atado ao dorso e usado para carregar uma criança.
Logo, outras mulheres e crianças começam a se aproximar e se juntam ao meu redor e de Eric.
Um ponto que me chamaria a atenção momentos depois é que, no momento da minha chegada, todas as mulheres à vista cumpriam alguma atividade: duas ou três trituravam grãos embaixo de um teto de palha, algumas outras tocavam cabras, outras passavam carregando água e baldes.
Já os homens, esses vestidos com camisetas e bermudas, se reuniam em grupos de 3 ou 4 nas extremidades da tribo, conversando e observando a movimentação de longe.
A higiene Himba
Sou convidado para entrar em uma das cabanas de barro. Lá dentro, uma mulher Himba toma banho. Não o banho tradicional como estamos acostumados. A mulher conta que, esse tipo de banho, ela nunca tomou. A limpeza se resume a ervas aromáticas amassadas com um tipo de pedra colorida amassada.
Uma parte é defumada, espalhando a fumaça pelo corpo e cabana, e a outra é espalhada no corpo como um “creme”. A substância serve para, além de limpar, também proteger do sol.

O “fogo sagrado”
Já fora da cabana, passamos um ponto no centro da tribo com madeira em cinzas. Eric me conta que ali é aceso o “fogo sagrado”, a religião dos Himba.
Apenas o líder da tribo pode acender o fogo sagrado. No caso daquela, a chefe era uma mulher. A escolha da liderança é feita tendo como base as posses: o, ou a, Himba que tiver mais cabras e vacas, é escolhido líder.
Os Himba também praticam rituais, e é quando entra, também, o sistema próprio de justiça desse povo. Se um Himba for pego fazendo feitiços contra um membro de sua tribo, ele é banido para sempre.
Eric me conta que, em conflitos, os Himba costumam recorrer a galhos de árvore. Se um Himba vai em direção a outro e pega do chão um galho, é sinal de que vai haver uma batalha. E eles não usam o galho para bater um no outro, mas sim para espetar, tal qual uma espada.
Matrimônio
Uma das ocasiões nas quais o fogo sagrado é acesso é o casamento. O matrimônio é celebrado com festa pelos Himba. As mulheres são “entregues” para casar a partir dos 15 anos. Para isso, o homem precisa da permissão dos pais e chefe da tribo.
Um Himba pode ter até quatro esposas. Já uma Himba pode se casar com apenas um homem.

A alimentação e o “mercado” Himba
A subsistência Himba é baseada em suas próprias plantações e criações de animais. A tribo é rodeada, por exemplo, por uma plantação de milho. Cabras e bodes passeiam livremente pela região, normalmente apartada por uma criança Himba. Aliás, é comum que as crianças de 7 a 9 anos fiquem por conta de cuidar dos animais da tribo.
Praticamente todo o trabalho quanto à alimentação fica por conta das mulheres, como moer grãos e fazer a farinha que eles usam com base alimentar.
“Os homens também não fazem isso?”, peço para Eric perguntar. “Às vezes, eles ajudam”, me responde, após ouvir de uma mulher Himba que preparava o “café da manhã” das crianças: um tipo de amido de milho misturado com água, o que resultava em um mingau.

À certa altura, as mulheres da tribo se reúnem em um semicírculo e espalham pelo chão, como em uma feira, centenas de souvenirs artesanais. Elas os oferecem para mim, o “visitante brasileiro”.
São pulseiras de couro e de ossos de animais pintados, elefantes e leões esculpidos na madeira, tecidos tingidos a mão, copos feitos de chifres e outras coisas mais. Há uma expectativa sobre o que o turista vai escolher, e todas oferecem seus produtos ao mesmo tempo.
Escolho um chaveiro feito, aparentemente, do osso de algum animal, talhado e tingido. A mulher Himba me cobra 100 dólares namibianos (o equivalente a 30 reais). As outras recolhem seus itens, resignadas.
Música, dança e festa
Ao fim do mercado, elas fazem outro semicírculo, desta vez, de pé. As palmas começam, assim como gritos e cantoria. “É uma dança de festa. Estão celebrando a cultura Himba”, me conta Eric. É uma tradição mostrar a dança e a cantoria para os turistas, uma forma de agradecer e mostrar que eles são orgulhosos de ser quem são.
A todo momento, uma mulher Himba vai para o centro do semicírculo e ensaia alguns passos. Ela chacoalha os braços e pernas e pisoteia o chão como se estivesse em um formigueiro.
As outras batem palmas, riem e se divertem, enquanto se acotovelam e se puxam como que dizendo “Agora é sua vez”.
Após quase 20 minutos de dança, Eric me avisa: “Elas vão cantar e dançar assim por horas”. E agora, é hora de ir. Me despeço, agradecendo a hospitalidade. As mulher acenam, os homens também.
As crianças nos acompanham até certo ponto, correndo e rindo, completamente alheias ao mundo aqui fora.

