A obra de Cesária Évora ultrapassa a música e se afirma como expressão histórica, linguística e cultural de Cabo Verde. Cantado majoritariamente em crioulo cabo-verdiano, a artista transformou a morna — gênero marcado pela saudade, pelo exílio e pela travessia — em linguagem universal. Sua trajetória, iniciada em bares modestos de Mindelo e consagrada nos principais palcos da Europa, consolidou a cantora como uma das maiores embaixadoras culturais do arquipélago africano.

Cesária nasceu em agosto de 1941, na cidade de Mindelo, ilha de São Vicente, um dos principais centros culturais de Cabo Verde. Porto aberto ao mundo, Mindelo foi também o espaço onde a música se tornou meio de sobrevivência e expressão cotidiana. Filha de uma músico amador, Cesária começou a cantar ainda jovem, em bares, festas e programas de rádio local.

Região onde nasceu a cantora | Foto: Google Earth

A carreira profissional, no entanto, demorou a se consolidar. Durante décadas, Cesária cantou sem reconhecimento e com retorno financeiro limitado. Em entrevista concedida nos anos 90, recordou esse período com franqueza. Cantava para as pessoas, ganhava pouco, mas o suficiente para viver. A música não aparecia como promessa de ascensão, mas como prática cotidiana, quase inevitável.

Sucesso na França

Foi apenas no início dos anos 1990 que sua trajetória sofreu uma inflexão decisiva. Em 1991, já radicada na França, lançou Mar Azul, seu segundo LP. O álbum apresentou sua voz ao público europeu e revelou uma artista que transitava por influências latinas, folk e country, mas sem abandonar o eixo central da morna, gênero musical e de dança tradicional de Cabo Verde, caracterizado por melodias lentas, letras melancólicas e forte carga emocional.

Cesária Évora é uma das vozes mais marcantes da música mundial | Foto: Reprodução

A morna de Cesária é cantada majoritariamente em crioulo cabo-verdiano, com arranjos que incluem cavaquinho, violino, piano, guitarra, acordeão e clarinete. É uma música marcada pela saudade — a “sodade” — sentimento recorrente em um país historicamente marcado pela emigração e pela separação familiar.

O reconhecimento definitivo veio em 1992, com o lançamento do álbum ‘Miss Perfumado’. O disco se tornou um sucesso imediato na França e em outros países da Europa. A faixa de abertura, Sodade, tornou-se o maior símbolo da carreira da cantora. A canção fala da dor da partida e da distância, evocando a experiência de milhares de cabo-verdianos forçados a deixar o arquipélago em busca de trabalho e sobrevivência.

Tradição, cultura e sensibilidade

Cantando principalmente no crioulo do norte, conhecido como barlavento, Cesária também utilizou o português e, ocasionalmente, o espanhol. Ainda assim, foi no criou que cosntruiu sua força estética e política. Ao levar essa língua para os grandes palcos internacionais, contribuiu para romper com a marginalização histórica do crioulo, frequentemente tratado como dialeto inferior no contexto colonial e pós-colonial.

Mar Azul, álbum de Cesária Évora lançado em 1991 | Foto: Reprodução

Esse papel é analisado pela pesquisadora Benvinda Domingos Cambanco, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Em estudo acadêmico, a autora aponta que Cesária Évora teve papel fundamental no reconhecimento internacional da identidade nacional cabo-verdiana. Segundo a pesquisa, a cantora atuou como embaixadora cultural, apresentando ao mundo as tradições, a língua e a sensibilidade do seu país sem recorrer a estereótipos ou exotizações.

O reconhecimento institucional acompanhou o sucesso artístico. A França, país onde Cesária alcançou projeção internacional, concedeu-lhe o título de Cavaleira da Legião de Honra, uma de suas mais altas condecorações. O gesto simboliza não apenas o êxito individual da artista, mas o impacto cultural de uma obra que transformou experiências locais em patrimônio simbólico global.

Cesária Évora é conhecida também como a rainha dos pés descalços | Foto: Reprodução

Outro elemento central de sua identidade artística foi a postura cênica. Cantando descalça, com movimentos contidos e sem recursos performáticos exuberantes, Cesária construiu uma presença marcada pela sobriedade. A ausência de ornamentos não empobrecia o espetáculo; ao contrário, concentrava a atenção na voz, na letra e no silêncio entre as notas.

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