Núcleo interno da Terra pode ter desacelerado, indica estudo
16 março 2026 às 18h33

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Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Pequim voltou a ganhar força nas redes sociais ao sustentar que o núcleo interno da Terra pode ter desacelerado de forma significativa na última década, e até passado a girar, em termos relativos, em sentido oposto ao observado anteriormente. A hipótese, que já havia repercutido nos últimos anos, recoloca em discussão uma das questões mais complexas da geofísica: o comportamento das camadas mais profundas do planeta.
A pesquisa foi construída a partir da análise de ondas sísmicas produzidas por terremotos desde a década de 1960. Os cientistas Yi Yang e Xiaodong Song compararam registros que atravessaram o núcleo interno por trajetórias semelhantes ao longo de décadas para tentar estimar a velocidade de rotação dessa estrutura sólida, localizada a cerca de 5,1 mil quilômetros abaixo da crosta terrestre.
A Terra é composta por crosta, manto, núcleo externo e núcleo interno. Este último é uma esfera sólida, formada principalmente por ferro e níquel, cercada pelo núcleo externo líquido. Essa configuração permite que o núcleo interno não acompanhe exatamente o mesmo ritmo de rotação do restante do planeta, o que abre espaço para oscilações e mudanças de comportamento ao longo do tempo.
Segundo os autores, os dados mais recentes mostraram um padrão incomum. Se nas décadas de 1980 e 1990 as variações eram mais claras, entre 2010 e 2020 os registros sísmicos passaram a indicar pouca mudança. Na interpretação dos pesquisadores, isso sugere que o núcleo interno quase cessou seu movimento relativo por volta de 2009 e pode ter entrado em uma fase de retrocesso dentro de um ciclo natural mais amplo.
A tese apresentada no estudo é a de que essa oscilação faria parte de um ciclo de aproximadamente 70 anos, impulsionado por um delicado equilíbrio entre forças eletromagnéticas, ligadas ao núcleo externo, e forças gravitacionais associadas ao manto. Nesse modelo, a virada anterior teria ocorrido no início dos anos 1970.
A hipótese, porém, está longe de ser consenso. Outros geofísicos defendem mais cautela e afirmam que o núcleo interno não “para” de fato, mas pode apenas ficar mais sincronizado com a rotação do resto do planeta. Também há divergências sobre a duração desses ciclos: enquanto o estudo chinês fala em sete décadas, outras leituras apontam intervalos menores, de 20 a 30 anos.
O debate existe porque estudar o interior da Terra é, por definição, um exercício indireto. Não há observação direta possível dessas regiões profundas; tudo depende da interpretação de sinais sísmicos captados na superfície. É como tentar reconstruir um órgão interno apenas pelos ecos que ele produz. Por isso, mesmo quando os dados são considerados consistentes, a conclusão final exige prudência.
Os próprios autores reconhecem que ainda são necessárias novas pesquisas para compreender melhor a periodicidade, a velocidade e os efeitos desse movimento. A principal ressalva é que nada indica um cenário catastrófico. O que está em jogo não é a ameaça de uma transformação brusca na superfície, mas o avanço do conhecimento sobre como o interior do planeta funciona e de que maneira ele influencia fenômenos como o campo magnético e pequenas variações na duração dos dias.
No fim, o estudo não fecha a questão, mas reforça que a imagem que a ciência tem do centro da Terra continua em construção. E, quanto mais se descobre, mais claro fica que o planeta ainda guarda mecanismos profundos que estão longe de ser totalmente compreendidos.
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