Novos vídeos ligam mísseis dos EUA a ataque contra escola no Irã; democratas pressionam Pentágono
11 março 2026 às 17h08

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Novas evidências técnicas e vídeos verificados de forma independente reforçam a acusação de que um míssil norte-americano atingiu uma escola primária em Minab, no sul do Irã, matando mais de 170 pessoas, em sua maioria crianças. O episódio, ocorrido na última semana em meio a bombardeios contra a Guarda Revolucionária Iraniana, gerou uma crise interna em Washington nesta segunda-feira, 9, com congressistas democratas cobrando uma investigação “completa e imparcial” do Pentágono.
Apesar das negativas do presidente Donald Trump, que atribuiu a autoria ao próprio Irã, analistas militares identificaram o projétil como um modelo Tomahawk, armamento que não compõe o arsenal iraniano.
A investigação, conduzida pelo coletivo Bellingcat e referendada pelo jornal New York Times, foi baseada no cruzamento de imagens de satélite com vídeos gravados por civis no local. A análise identificou o rastro e a estrutura de um míssil de cruzeiro de longo alcance, cujas características coincidem com os projéteis lançados por navios da Marinha dos EUA posicionados no Estreito de Ormuz.
Especialistas como Trevor Ball, ex-técnico do Exército dos EUA, e Chris Cobb-Smith, consultor de segurança, confirmaram que o padrão de impacto e os destroços visíveis são compatíveis com uma ogiva de 450 kg de TNT, típica dos Tomahawks. A precisão do armamento, guiado por GPS, levanta a suspeita de erro de coordenadas ou falha grave de inteligência, visto que o colégio Shajarah Tayyebeh foi atingido simultaneamente a uma base naval vizinha.
O governo Trump mantém a linha de defesa de que o Irã teria atingido a própria população por “imprecisão de suas munições”. No entanto, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, enfrenta resistência no Congresso. Senadores democratas afirmaram em nota que, se confirmada a autoria, este será um dos piores casos de baixas civis em décadas de intervenção militar no Oriente Médio.
O general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, admitiu que as forças americanas operavam na zona sul do Irã no momento do desastre, confirmando que o grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln utilizou mísseis Tomahawk para “desgastar a capacidade naval” da região nas primeiras 100 horas da operação.
Investigação preliminar da AlJazeera
Uma investigação da unidade de apurações digitais da Al Jazeera afirma que o bombardeio que destruiu a escola Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul do Irã, apresenta sinais de ter sido um ataque direto e separado das ofensivas contra um complexo militar vizinho. A reportagem sustenta que, ao cruzar imagens de satélite acumuladas ao longo de mais de uma década, vídeos geolocalizados, registros públicos e declarações de fontes oficiais iranianas, é possível observar que o prédio escolar estava fisicamente apartado de instalações militares próximas há pelo menos 10 anos, o que enfraqueceria a versão de “confusão” do alvo e levanta suspeitas sobre a qualidade da inteligência usada na operação.
O ataque, segundo autoridades iranianas citadas pela matéria, ocorreu na manhã de sábado, 28, primeiro dia letivo da semana no país. Dezenas de crianças estavam em sala quando mísseis atingiram o edifício, derrubando a cobertura e soterrando alunas e profissionais da escola. O governo iraniano informou 165 mortos e ao menos 95 feridos, com a maioria das vítimas sendo meninas entre 7 e 12 anos.
Com a divulgação das imagens do local nas redes sociais, autoridades dos Estados Unidos e de Israel passaram a se distanciar do episódio. Porta-vozes do Departamento de Defesa norte-americano e do Exército israelense disseram a veículos internacionais que não tinham conhecimento de que uma escola havia sido atingida. Em paralelo, perfis e sites simpáticos a Israel buscaram colar a área bombardeada a uma suposta estrutura militar, alegando que o local integraria uma base vinculada à Guarda Revolucionária.
Por que Minab entrou no mapa dos alvos
A investigação contextualiza Minab como cidade inserida em uma região de alto valor estratégico. Ela fica na província de Hormozgan, que “olha” para o Estreito de Ormuz e águas do Golfo, corredor vital para navegação e logística energética global. O texto aponta que a Marinha da Guarda Revolucionária (IRGC Navy) concentra operações ali e adotaria uma estratégia de guerra “assimétrica”, combinando lanchas rápidas, drones e plataformas costeiras de mísseis.
Nesse cenário, o complexo militar “Sayyid al-Shuhada”, em Minab, é descrito como um dos pontos sensíveis, com estruturas que incluiriam o quartel-general de uma unidade associada a mísseis, a chamada “Brigada Asif”. A investigação diz que esse bloco militar foi, sim, atingido em ataques naquele dia, mas insiste que isso não explica a destruição da escola.
Um dos pontos delicados do material é a relação institucional da escola com uma rede educacional vinculada à Marinha da Guarda Revolucionária. Segundo a Al Jazeera, a “Shajareh Tayyebeh” integra um conjunto de escolas administrativamente associado ao IRGC Navy e classificado como instituição sem fins lucrativos, com a proposta de atender principalmente filhos e filhas de militares.
A investigação menciona mensagens de matrícula em canais de comunicação com pais, nas quais o processo daria prioridade a crianças de membros da força, abrindo inscrições para não integrantes em datas diferentes. Ainda assim, o texto enfatiza um aspecto central do direito humanitário: mesmo quando frequentada por filhos de militares, ou administrada por uma rede ligada a forças armadas, a escola permanece um bem civil, a menos que haja uso direto em operações militares. E crianças e professores seguem sob proteção reforçada em conflitos, com proibição de serem alvos intencionais.
“Padrão” do ataque
A reportagem descreve uma linha do tempo para sustentar que houve um impacto direto na escola. Imagens de satélite do próprio dia indicariam que o prédio estava intacto até por volta de 10h23 (horário local). Fontes locais e oficiais iranianas teriam relatado que, por volta de 10h45, um míssil guiado atingiu a escola.
Para checar a dinâmica, a unidade digital analisou dois vídeos publicados logo após o bombardeio e os geolocalizou por marcos visíveis e comparação com imagens de satélite. O primeiro, gravado a sudoeste, mostraria fumaça surgindo de dentro do setor militar, reforçando que o complexo “Sayyid al-Shuhada” estava na lista de alvos. O segundo, gravado a sudeste, seria o mais relevante: nele, aparecem duas colunas de fumaça negra ao mesmo tempo, uma no interior da base e outra no terreno independente da escola. Para a Al Jazeera, a separação visível e a distância entre as colunas contradizem a hipótese de que a escola tenha sido destruída por estilhaços vindos do bloco militar.
Para rebater a alegação de que o prédio escolar seria parte ativa de um quartel, a investigação afirma ter feito um rastreamento histórico em imagens arquivadas (2013-2026). Em 2013, segundo a apuração, o local teria características de instalação militar integrada: muro perimetral contínuo, torres de vigilância e um único portão principal para todo o complexo.
Isso mudaria em 2016. Imagens de setembro daquele ano seriam o marco da transformação: teriam sido construídos muros internos que isolaram completamente o setor da escola; duas torres de vigilância teriam sido removidas; e, sobretudo, teriam sido abertos novos portões voltados diretamente para a rua, permitindo entrada e saída de alunos e funcionários sem atravessar checkpoints militares. A investigação fala em uma distância de cerca de 200 a 300 metros entre os acessos civis e a área militar.
Em 2018, ainda segundo a análise, a “cara” de escola ficaria mais evidente: carros civis alinhados na entrada, pátio adaptado com área esportiva infantil e paredes pintadas com desenhos coloridos, típicos de ambiente escolar.
A clínica inaugurada em 2025
O material traz ainda um elemento usado como “prova indireta” de que o layout recente deveria ser conhecido por quem operou o ataque: a inauguração, em janeiro de 2025, de uma clínica especializada (“Martyr Absalan”) em outro canto do mesmo complexo original. A apuração diz que, como ocorreu com a escola, a clínica teria ganhado separação espacial, portão próprio e estacionamento para atender civis.
Na manhã do ataque, a investigação afirma que mísseis teriam atingido a base e a escola, mas “pularam” a clínica, localizada entre os dois setores. Para a Al Jazeera, isso sugere que o executor tinha mapas e coordenadas capazes de diferenciar instalações e, portanto, fica a contradição: se foi possível evitar a clínica recém-separada, como não identificar uma escola separada há mais de 10 anos?
A partir daí, a reportagem resume dois cenários, ambos graves: ou houve falha severa de inteligência por uso de bases desatualizadas, com desprezo pelo risco a civis, ou o ataque ocorreu de modo deliberado, tratando a escola como parte do sistema militar por associação, tese que, se confirmada, configuraria violação séria.
A investigação também relata uma campanha em redes sociais tentando atribuir a destruição a um míssil de defesa aérea iraniana que teria falhado e caído na própria escola. A Al Jazeera diz que uma das imagens mais compartilhadas para sustentar essa versão não era de Minab: por comparação de terreno e marcos, incluindo montanhas com neve ao fundo, o registro corresponderia a outra região do Irã, a centenas de quilômetros de distância. A apuração argumenta que diferenças climáticas e geográficas entre as duas áreas enfraquecem ainda mais a narrativa.
Por fim, a reportagem cita entidades que reforçam que a proximidade de bases militares não “transforma” automaticamente uma escola em alvo legítimo. O argumento é que forças atacantes têm obrigação de verificar com rigor a natureza do alvo e de distinguir civis de combatentes. Na leitura dessas organizações, falhas nesse dever, ou ataques que ignorem essa distinção, constituem violações do direito internacional humanitário.
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