Novos documentos do caso Epstein mostram ligação com elite britânica e Trump citado de maneira recorrente
31 janeiro 2026 às 11h31

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O Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou públicos, nesta sexta-feira, 30, milhões de documentos relacionados ao financista Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais e encontrado morto em uma prisão federal em 2019. Trata-se da maior liberação de arquivos já feita pelo governo americano sobre o caso, após a entrada em vigor de uma lei que determinou a divulgação do material no ano passado.
Ao todo, foram disponibilizadas cerca de três milhões de páginas, além de aproximadamente 180 mil imagens e 2 mil vídeos. A liberação ocorre seis semanas depois do fim do prazo legal estabelecido por um decreto assinado pelo presidente Donald Trump, que determinava a divulgação integral dos registros ligados a Epstein.
Segundo o vice-procurador-geral dos EUA, Todd Blanche, a publicação marca o encerramento de um longo processo interno de triagem e revisão. “A divulgação representa a conclusão de um trabalho amplo para garantir transparência ao público americano e o cumprimento das normas legais”, afirmou.
Os documentos reúnem informações sobre o período em que Epstein esteve preso, incluindo relatórios psicológicos, registros sobre sua morte e detalhes das investigações envolvendo Ghislaine Maxwell, ex-companheira do financista, condenada por auxiliar no tráfico sexual de meninas menores de idade.
Além disso, os arquivos trazem trocas de e-mails entre Epstein e figuras públicas de destaque internacional, revelando a extensão de suas relações com integrantes da elite política e econômica.
Elite britânica
Entre os registros divulgados estão mensagens atribuídas a Epstein e a uma pessoa identificada como “O Duque”, que, segundo investigadores, seria Andrew Mountbatten-Windsor, irmão do rei Charles III e ex-duque de York. As mensagens tratam de encontros privados, convites para jantares em locais oficiais e da possibilidade de apresentação a uma mulher russa de 26 anos. As trocas de e-mails ocorreram em 2010, dois anos após Epstein ter se declarado culpado por aliciar uma menor. Não há, nos documentos, indícios diretos de ilegalidade nesses contatos.
A relação de Epstein com a elite britânica também aparece em registros financeiros. Um conjunto de e-mails aponta que o financista transferiu 10 mil libras esterlinas para o brasileiro Reinaldo Ávila da Silva, marido do político britânico Peter Mandelson, em 2009. As mensagens indicam que o valor foi destinado ao custeio de um curso de osteopatia. Em outro momento, Mandelson solicita hospedagem em uma das propriedades de Epstein. À época, o financista cumpria pena em um regime que lhe permitia trabalhar fora da prisão durante o dia.
Mandelson, que chegou a ser nomeado embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos em 2024, deixou o cargo após a repercussão pública de mensagens de apoio enviadas a Epstein após sua condenação. Ele afirma se arrepender da amizade e diz que acreditou nas versões apresentadas pelo financista.
Trump citado de maneira recorrente
Os arquivos também mencionam, de forma recorrente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O nome dele aparece centenas de vezes nos documentos. Trump admite que teve uma relação social com Epstein, mas afirma que o vínculo terminou anos antes da prisão do financista e nega qualquer envolvimento ou conhecimento sobre os crimes. Parte do material inclui denúncias recebidas pelo FBI sem comprovação, feitas por meio de canais oficiais, muitas delas classificadas pelo próprio Departamento de Justiça como infundadas.
Outro nome citado nos arquivos é o do cofundador da Microsoft, Bill Gates. Um porta-voz do empresário afirmou que as acusações presentes nos documentos são “absurdas e completamente falsas”. Segundo a defesa, os e-mails atribuídos a Epstein que mencionam Gates não comprovam qualquer contato direto e refletem apenas tentativas do financista de difamar antigos conhecidos após o rompimento de relações.
Apesar da dimensão da divulgação, ainda há dúvidas sobre a liberação total do material. Parlamentares democratas afirmam que milhões de documentos permanecem sob sigilo sem justificativa clara. O deputado Roh Khanna, um dos autores da Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, disse que continuará pressionando o Departamento de Justiça para que todo o conteúdo identificado como relevante seja tornado público.
O governo sustenta que os cortes feitos nos documentos visam proteger vítimas e investigações em andamento, conforme previsto em lei. Mesmo assim, a divulgação parcial mantém viva a desconfiança de que informações sensíveis envolvendo pessoas poderosas ainda não vieram à tona.
Para o Departamento de Justiça, no entanto, o caso está encerrado do ponto de vista institucional. Blanche afirmou que os arquivos não revelam nomes de outros homens responsáveis por abusos e que, caso existissem provas concretas, os envolvidos seriam processados. “Infelizmente, não é isso que o público encontrará nesses documentos”, concluiu.
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