Naçoitan Leite precisa entender que balas — símbolos fálicos? — não garantem amor
23 novembro 2023 às 10h42

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A tecnologia está cada vez mais avançada… e não para de avançar. As revoluções tecnológicas são rápidas e sucessivas. Quem não se adaptar, aceitando que são incontornáveis, fica para trás, com as consequências previsíveis.
Entretanto, a modernização tecnológica nem sempre inclui a modernização das mentalidades. Há seres humanos usando máquinas refinadas e se comportando como bárbaros — matando, violentando.
A barbárie, no século da inteligência artificial e dos supercomputadores, prevalece muito mais entre homens, que não raro são mais avessos à mudança de comportamento, de mentalidade. As mulheres são, na prática, mais modernas, empáticas e, digamos, civilizadas. É muito raro — raríssimo — mulheres resolvendo suas divergências sacando armas e fazendo ameaças.
Homens, pelo contrário, têm de gritar alto e falar grosso. Os gritos — a imposição pelo falar mais alto — são uma espécie de falo alternativo ou complementar.
Porém, homens vão além do grito. Se não se impõem pela força da fala — o falo verbal — e dos músculos, recorrem às armas, notadamente revólveres e pistolas — quiçá, como o grito, símbolos fálicos e de poder.
As pessoas têm o direito de não querer viver com as outras. Nada há de pior do que compartilhar infelicidades cotidianamente.
Homens, quando deixam suas mulheres e têm outros relacionamentos, costumam “desaparecer” — criando outra vida social para si e a nova companheira.
Entretanto, se a mulher não quer o homem — por falta de amor, afeto ou ter encontrado um homem que satisfaz seus desejos (que não têm a ver só com sexualidade) —, aí o sujeito vira bicho. Sua masculinidade é ameaçada.
Ao duvidar da própria masculinidade, de sua força sexual, digamos, o homem se julga no direito de agredir a mulher e de tentar impedir que tenha um novo relacionamento.
Inconscientemente, quem sabe, avalia que o outro homem é mais potente, afetiva e sexualmente, e por isso se sente humilhado. Torna-se um macho “menor” e o homem tem horror de ser “desprezado”, de ser “abandonado”. Em suma, de ser “menor” e, por assim dizer, menos “duro”.
Naçoitan, o macho que tira Leite de bala
Era uma vez no Centro-Oeste, diria o cineasta italiano Sergio Leone. É o que aconteceu, possivelmente, com o prefeito de Iporá, Naçoitan Leite, uma espécie de caubói de Marlboro que anda de caminhonete.
Naçoitan Leite, numa madrugada recente, no lugar de dormir e pensar nos destinos de sua cidade, decidiu ir à casa da ex-mulher. Ao chegar lá, deu vários tiros. Queria matá-la ou assustá-la? Não se sabe direito, talvez nem ele saiba.
Os “Lampiões do amor” costumam pensar assim: “Se ela não vai ser minha” — quer dizer, propriedade particular —, “então, não vai ser ninguém”.
Como sua ex-mulher estava com outro homem — um direito inequívoco dela —, Naçoitan Leite decidiu que era “preciso” fazer alguma coisa. Afinal, o que os moradores da cidade andam pensando? Nada, certamente. Os indivíduos podem até fofocar, aqui e ali, mas todos seguem suas vidas… As pessoas são mais conservadoras na “fala” do que no “comportamento” diário. Por vezes, aceita-se bem, na prática, aquilo que, moralmente, se condena…
O prefeito, fazendeiro — um político de direita que andou com a turma de centro-esquerda do PSDB —, decidiu tirar Leite de balas. Balas que, pontudas, são símbolos fálicos. As balas são uma espécie de meio-mensagem para mostrar potência, macheza?
Está se dizendo que Naçoitan Leite desconfia de sua potência como homem — e não se está falando unicamente de questões sexuais? Talvez seja isto: o prefeito é rico, mas não coube manter o amor de sua ex-mulher. Mas ele decidiu: ela não pode amar mais ninguém.
Então, mais do que “Lampião do amor”, Naçoitan Leite se tornou o “ditador do amor”.
Quem conhece Naçoitan Leite diz: “Não é uma pessoa do mal, só é estourado”. Pode ser. Mas ele precisa entender que, para ser moderno, não basta ter à mão um smartphone dos mais atualizados e uma caminhonete potente. O homem de fato moderno é mais afetivo, tolerante e resiliente.
Já as mulheres, que chegam à modernidade antes dos homens, são mais solidárias e avessas à violência. Talvez queiram mais amor, compreensão de que têm um lugar no mundo — uma vida singular —, e menos homens que extraem sua potência de pistolas, balas, carros e dinheiro.
O dramaturgo Nelson Rodrigues dizia que dinheiro compra até amor verdadeiro. A frase é boa, mas nem sempre é verdadeira.
A ex-mulher de Naçoitan Leite quer, por certo, um companheiro, um parceiro com o qual possa manter sua identidade, e expandi-la. Não quer um homem das cavernas que avalia que pode reconquistá-la à força.
O prefeito tem de entender que a vida é feita de conquistas e perdas. Um dia, talvez na velhice, entenderá que flores — frágeis — são mais “amigáveis” do que a dureza das balas.

