O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) realizou neste fim de semana um mutirão nacional de perícias médicas para quase 13 mil atendimentos em todo o país. Em Goiânia, a ação integrou um esforço para reduzir filas e antecipar análises de segurados que aguardam há meses por avaliação médica.

Em entrevista ao Jornal Opção, o perito médico federal Márcio Maués, coordenador regional da perícia médica nas regiões Norte e Centro-Oeste, afirmou que a mobilização busca ampliar o acesso ao atendimento e acelerar a concessão de benefícios.

Segundo Maués, os mutirões são organizados para atender pessoas que ainda não conseguiram agendar perícia ou aguardam há muito tempo na fila. Mesmo atuando na gestão, ele afirma que os coordenadores também participam diretamente dos atendimentos.

“É uma função de gestão, mas nós também vamos ao chão da fábrica, como eu costumo dizer. Participamos desses mutirões que são ações de antecipação do atendimento de pessoas que estão aguardando há muito tempo uma perícia médica”, explicou.

De acordo com o perito, Goiás costuma integrar com frequência as ações estratégicas realizadas pelo INSS nas regiões Norte e Centro-Oeste. O mutirão deste fim de semana também inclui um atendimento especial voltado às mulheres, em alusão ao Dia Internacional da Mulher.

Benefícios mais solicitados

Entre os principais pedidos analisados nas perícias estão o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o auxílio por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença. Maués afirma que a demanda varia ao longo do tempo, mas esses dois benefícios concentram grande parte dos requerimentos.

Segundo ele, quando o número de peritos em atuação aumenta, a quantidade de vagas disponíveis cresce — o que acaba estimulando mais pedidos.

“Como temos mais peritos médicos atuando neste momento, acabamos oferecendo mais vagas. De certa maneira, aumenta a oferta e aumenta a demanda”, disse.

O especialista aponta ainda que fatores socioeconômicos influenciam o crescimento dos pedidos, especialmente quando estão associados a problemas de saúde graves ou incapacitantes.

Divergências entre laudos médicos e perícias

Uma das reclamações mais comuns entre segurados é a negativa de benefícios mesmo quando há laudos médicos apresentados por profissionais da rede pública ou privada. Maués explica que a perícia médica possui autonomia técnica para avaliar cada caso e pode, eventualmente, divergir do parecer de outro médico.

Segundo ele, o objetivo da perícia não é questionar o atendimento médico recebido pelo paciente, mas verificar se a condição apresentada realmente se enquadra nos critérios previstos na legislação previdenciária.

“Há muita contradição entre o que está escrito em um documento médico e o que é relatado pela pessoa examinada. Nesses casos, a perícia precisa ser autônoma e pode discordar de um parecer externo”, afirmou.

Ele ressalta que a divergência não é regra, mas pode ocorrer quando o perito identifica inconsistências ou interpreta de forma diferente a duração e a gravidade da incapacidade para o trabalho.

Avaliação técnica e critérios legais

Maués também rebate a percepção de que os peritos dificultam o acesso aos benefícios. Segundo ele, o trabalho da perícia consiste apenas em verificar se o caso se enquadra na legislação previdenciária.

“Nós, peritos, não damos nada. Nós fazemos enquadramento numa legislação que foi construída pelos legisladores. Pode existir o direito ou não”, explicou.

Além da avaliação médica, a concessão de benefícios depende de critérios administrativos, como tempo de contribuição e qualidade de segurado. Em alguns casos, a perícia reconhece a incapacidade para o trabalho, mas o benefício é negado porque o cidadão não atende às exigências previdenciárias.

“Pode haver um problema de saúde incapacitante reconhecido pela perícia, mas a pessoa perdeu a qualidade de segurado ou não tem carência mínima. Nesse caso, o indeferimento não é médico, é administrativo”, afirmou.

Participante relata atendimento ágil

A aposentada Aparecida Maria Pereira, de 60 anos, participou do mutirão de perícias para realizar a avaliação da filha, Ana Vitória Martins, 23 anos que tem síndrome de Down. Segundo ela, o atendimento superou as expectativas.

“Foi o melhor atendimento que eu já tive. Eu estou participando desse mutirão porque minha filha tinha essa perícia para fazer”, afirmou.

De acordo com Aparecida, a consulta estava inicialmente marcada para outra data, mas a equipe conseguiu antecipar o atendimento durante o mutirão. “Eu não sabia se ia ser atendida hoje, porque tinha marcado para outro dia, mas eles conseguiram colocar ela hoje para adiantar um pouco. Fiquei muito feliz”, relatou.

Após a avaliação, a família recebeu a confirmação da continuidade do Benefício de Prestação Continuada (BPC) da filha. “Consegui a continuidade do benefício e nem vai precisar fazer mais perícia. Isso me deixou muito feliz. Mas, se precisasse, eu iria do mesmo jeito, aonde fosse”, concluiu.

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Aparecida Maria Pereira, Waller Júnior e Ana Vitória | Foto: Cilas Gontijo/Jornal Opção

Baixa procura

A assessoria do INSS explicou que o chamamento foi feito por meio do aplicativo Meu INSS e que foram ofertadas, em Goiás, 960 vagas — 480 para sábado, 7, e outras 480 para este domingo. No entanto, apenas cerca de 250 pessoas compareceram à unidade no sábado, número considerado muito baixo pelo órgão.

Presidente do INSS acompanha mutirão de atendimentos em Goiânia

O presidente do Instituto Nacional do Seguro Social, Gilberto Waller Júnior, esteve em Goiânia neste domingo, 8, para acompanhar um mutirão de perícias e atendimentos promovido pelo órgão. Durante a visita, ele explicou que a iniciativa faz parte de uma estratégia nacional para reduzir o tempo de espera por benefícios.

Segundo Waller Júnior, o INSS tem intensificado a realização de mutirões em todo o país para enfrentar o acúmulo de solicitações. “O INSS vem trabalhando com mutirões para diminuir a demanda e trazer a fila para um tempo razoável. Neste fim de semana, são cerca de 13 mil atendimentos em todo o Brasil”, afirmou.

Em Goiânia, a ação teve um recorte específico voltado ao público feminino. “Aqui temos um evento especial, direcionado para as mulheres que estão aguardando atendimento, para trazer dignidade e cidadania para esse público”, explicou.

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Gilberto Waller Júnior, presidente do INSS | Foto: Cilas Gontijo/Jornal Opção

De acordo com o presidente do instituto, atualmente cerca de 3 milhões de pessoas aguardam análise de pedidos de benefícios em todo o país. Para enfrentar esse cenário, o órgão implementou um novo modelo de gestão da fila de atendimentos.

“A gente transformou a fila que era regional em uma fila nacional. O INSS tem vários perfis de benefícios e cada região tem uma demanda maior por determinados serviços”, disse.

Ele explicou que, nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, predominam pedidos relacionados a benefícios por incapacidade e ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), enquanto em estados como São Paulo e na região Sul o perfil da demanda é diferente.

“Coincidentemente, onde há mais demanda é onde temos menos servidores. Com a fila nacional, servidores de estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e da região Sul podem trabalhar em processos de todo o Brasil”, afirmou.

Segundo Waller Júnior, a mudança já apresenta resultados. “Em apenas um mês de experiência com a fila nacional, conseguimos atender mais de 500 mil pessoas”, destacou.

Apesar das medidas, o presidente reconhece que o déficit de pessoal continua sendo um dos principais desafios do instituto. “Há dez anos, o INSS tinha cerca de 38 mil servidores. Hoje contamos com aproximadamente 18 mil. Ao mesmo tempo, a demanda só cresce”, explicou.

Ele ressaltou que, apenas no ano passado, o instituto registrou a maior média histórica de novos pedidos de benefícios. “Foram cerca de 1,3 milhão de novos requerimentos. A demanda cresce enquanto o número de servidores diminui, o que nos obriga a trabalhar com horas extras e mutirões aos fins de semana”, afirmou.

Sobre a reposição de pessoal, Waller Júnior disse que há previsão de novos servidores. “Participamos do Concurso Nacional Unificado e devem ingressar cerca de 300 novos servidores agora em abril. Ainda contamos com cadastro de reserva, mas a nossa demanda real é de aproximadamente 9 mil servidores”, concluiu.

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