“Momento assustador”, diz presidente do CRF-GO sobre onda de canetas emagrecedoras falsificadas
14 janeiro 2026 às 18h02

COMPARTILHAR
O avanço do uso das chamadas canetas emagrecedoras colocou as autoridades sanitárias de Goiás em estado de alerta. Segundo a presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO), Luciana Calil, ao Jornal Opção, o Brasil vive hoje um cenário “assustador” de contrabando, falsificação e venda irregular desses medicamentos.
Operações de fiscalização estão ocorrendo praticamente todas as semanas. “Nós estamos em um momento em que prendemos, às vezes, todas as semanas. Não quer dizer que o farmacêutico esteja envolvido, mas são ações conjuntas do Conselho, da Vigilância Sanitária e, muitas vezes, da polícia”, afirmou.
Em uma das operações recentes, segundo ela, foram apreendidas centenas de unidades de uma só vez. “Apreendemos 400 canetas. Em outro, havia 300 em circulação e mais 500 entrando no país.” De acordo com Luciana, o principal problema é a entrada de produtos sem procedência, muitos deles vindos do Paraguai.
“Em farmácias regularizadas, a gente confere a nota fiscal, o laboratório fabricante, se o produto está lacrado, se tem selo e validade. Já no contrabando, não há como garantir o que tem ali dentro”, alerta.
Ela explica que, embora existam medicamentos vendidos legalmente em farmácias paraguaias, há também a venda informal em bancas de rua. “Não se sabe onde foi fabricado, nem como foi produzido”, diz.
A presidente do CRF-GO relata que a fiscalização já encontrou casos extremos de adulteração. “Nós apreendemos produtos em canetas de aplicação de insulina cujo princípio ativo foi diluído em soro fisiológico e até em glicose”, afirma. “Imagina um paciente diabético utilizando uma medicação dessas.”
Riscos graves à saúde
Originalmente desenvolvidas para o tratamento da diabetes, essas medicações passaram a ser amplamente usadas para emagrecimento. Segundo Luciana, isso amplia ainda mais os riscos quando o produto é falsificado.
“Você tem pessoas que querem emagrecer e que são diabéticas. Um erro na composição pode trazer consequências gravíssimas.” Outro foco de preocupação é a venda pela internet. “Esse é hoje um dos maiores perigos. Você não sabe de onde veio, quem fabricou, nem em que condições”, diz.
Em uma operação emblemática, a fiscalização chegou a identificar um laboratório clandestino em Goiás. “Chegamos a apreender um casal que fabricava uma caneta que é injetável em forma de cápsulas. Eles vendiam pela internet, a esposa era influenciadora e mostrava o emagrecimento nas redes sociais”, relata Luciana.
O produto foi comercializado em todo o Brasil. “Pessoas no Sul passaram muito mal, foram internadas, até que a polícia pediu apoio ao Conselho, identificou o laboratório clandestino e o casal foi preso.”
Segundo a presidente do CRF-GO, o combate às canetas ilegais envolve uma articulação constante com a vigilância sanitária estadual e municipal e com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
“Esses produtos também acabam chegando a Goiás, mesmo quando os laboratórios clandestinos estão em outros estados. Por isso precisamos atuar de forma integrada.”
Somente em 2025, o Conselho participou, segundo ela, da revisão de 233 eventos, promoveu mais de 10 mil capacitações e realizou ações de fiscalização em 81 municípios goianos, muitas delas relacionadas a medicamentos irregulares.
Orientação ao consumidor
Diante do avanço do problema, Luciana reforça que a principal proteção para o consumidor é buscar apenas estabelecimentos regularizados. “Farmácias e drogarias com alvará são fiscalizadas constantemente. Se houver produto sem origem comprovada, fora do prazo ou armazenado de forma inadequada, ele é recolhido e a empresa pode ser autuada ou interditada.”
Para ela, a proliferação das canetas emagrecedoras ilegais evidencia a importância do trabalho silencioso da fiscalização. “O nosso papel é garantir que o medicamento que a população consome seja seguro. As pessoas nem imaginam o quanto isso é abrangente, mas estamos falando, literalmente, de proteger vidas.”
Outro ponto sensível abordado na entrevista foi a automedicação. Luciana lembrou que a exigência de retenção de receita passou a valer a partir de junho de 2025. “Até então, essas canetas eram vendidas sem retenção de receita. Hoje, a maioria das pessoas que faz uso ainda utiliza por conta própria, sem orientação médica adequada”, disse.
Segundo ela, mesmo quando há prescrição, muitos consumidores recorrem a caminhos ilegais. “As pessoas buscam vias não oficiais: receitas falsificadas, compra pela internet, produtos trazidos do Paraguai ou importados de forma irregular”, relatou.
Luciana reforçou que o papel do farmacêutico não é diagnosticar, mas acompanhar o tratamento. “Quem diagnostica e prescreve é o médico. O farmacêutico faz o acompanhamento farmacoterapêutico, observa efeitos colaterais como náuseas ou constipação e, se necessário, encaminha o paciente de volta ao médico”, explicou.
Leia também:

