Pipoca, biscoito, shake, barre e até mesmo sobremesas com selo “high protein“. A presença de alimentos enriquecidos com proteína cresce nas prateleiras e nas redes sociais, impulsionando um mercado bilionário no Brasil. Mas o consumo elevado desse nutriente é mesmo necessário para a maioria das pessoas? Segundo especialistas, nem sempre — e o excesso pode trazer mais riscos do que benefícios.

O mercado brasileiro de suplementos proteicos segue em expansão. De acordo com levantamento da consultoria Mordor Intelligence, o setor de whey protein cresceu a uma taxa média anual de 8% entre 2020 e 2025, concentrando mais de 58% do mercado sul-americano. O crescimento acompanha a popularização do discurso de que dietas ricas em proteína seriam sinônimo de saúde, emagrecimento e ganho de massa muscular.

No entanto, dados científicos indicam que a maior parte da população já atinge a ingestão diária recomendada apenas com a alimentação habitual. A Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta o consumo médio de 0,8 grama de proteína por quilo de peso corporal ao dia para adultos saudáveis. Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) apontam que a dieta do brasileiro, em geral, já supre essa necessidade, sem demanda rotineira por suplementação.

Benefícios e riscos

Segundo o nutrólogo Mário Cesar Borges, a proteína é essencial para o organismo, mas o discurso atual exagera seus efeitos. “Ela participa da manutenção da massa muscular, da produção de hormônios, enzimas e anticorpos, além de contribuir para a saciedade. Em alguns contextos específicos, como envelhecimento ou prática regular de musculação, pode ser benéfico aumentar um pouco a ingestão”, explica.

O problema, destaca o médico, é a ideia de que quanto mais proteína, melhor. “Transformar proteína em sinônimo de saúde é um erro. Ela não corrige sedentarismo, noites mal dormidas ou alimentação baseada em ultraprocessados. Quando consumida em excesso, pode gerar aumento calórico e até ganho de gordura”, afirma.

A necessidade proteica varia conforme idade, nível de atividade física e objetivos individuais. Pessoas que praticam exercícios de força podem se beneficiar de ingestões entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia, enquanto idosos tendem a precisar de mais proteína para preservar massa muscular. Já gestantes, lactantes e pessoas em processo de emagrecimento exigem ajustes específicos. Em contrapartida, pacientes com doenças renais ou hepáticas devem ter acompanhamento rigoroso, pois o excesso pode ser prejudicial.

Excessos

Outro ponto de atenção está no impacto nutricional do foco excessivo em proteína. Dietas restritivas tendem a reduzir o consumo de fibras, frutas, legumes e grãos integrais, comprometendo a saúde intestinal e cardiovascular. Além disso, muitos produtos rotulados como “proteicos” também apresentam altos teores de açúcar, gordura e aditivos. “O selo ‘high protein’ não é sinônimo de qualidade nutricional”, alerta o nutrólogo.

Para o especialista, suplementos como whey protein devem ser usados apenas como complemento, quando há dificuldade de atingir a ingestão diária recomendada com alimentos. “A base deve ser comida de verdade. Proteína faz parte do equilíbrio, mas não sustenta a saúde sozinha”, conclui.

Leia também:

Mais de 700 mil goianos não têm acesso ao gás de cozinha, aponta levantamento

Pesquisa em nanotecnologia da UFG pode dar origem a medicamento inédito contra overdose