Mães atípicas defendem colônias de férias inclusivas para crianças com autismo
08 janeiro 2026 às 10h37

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O período de férias escolares e as mudanças na rotina podem representar um desafio importante para famílias de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento e doenças raras. A interrupção das atividades diárias — especialmente para aquelas que mantêm uma rotina estruturada de terapias — pode gerar insegurança, desorganização emocional e impactos no desenvolvimento infantil. Por isso, é fundamental que essas crianças tenham acesso a experiências que promovam aprendizado, socialização e bem-estar também durante o recesso.
Mãe atípica, a doutoranda em Comunicação Thâmara Vilela sempre teve o sonho de deixar o filho Eduardo, chamado carinhosamente por ela de “Dudu”, de 7 anos, em uma colônia de férias. Até mesmo porque quando ela era criança participou ativamente desses espaços e na adolescência foi até instrutora em várias colônias. Na prática, a insegurança é grande de deixar o filho autista nível 3 de suporte com deficiência intelectual longe dela, nas férias.
Mesmo com medo, Thâmara sempre buscou por colônias de férias adaptadas e não encontrava. Ano passado achou a “Colônia Azul” do SESC, porém não conseguiu levar o Dudu porque mesmo sendo dezembro, ainda eram dias letivos na escola dele. “A escola é prioridade, pois recebemos o Bolsa Família. Para continuar mantendo o benefício um dos requisitos é estar matriculado e ter frequência escolar”, explica ao Jornal Opção.
A mãe atípica disse ainda que outra problemática é que ela teria que acompanhá-lo durante todo o tempo. O que na visão dela, poderia atrapalhar o momento de interação dele com outras crianças e cuidadoras, já que é uma colônia de férias, especificamente, para autistas. “Então não inscrevi. Mas a vontade ainda continua”.

Thâmara Vilela explica que filhos atípicos são únicos, ou seja, cada autista tem uma demanda específica. O que fica difícil atender a todos em atividades coletivas. “Por outro lado, assim como acontece em outras colônias de férias com crianças neurotípicas, gostaríamos de deixá-los sem interferências, brincando com crianças da mesma idade e voltando animados. Além de descansarmos um pouco da rotina, que por si só já é mais pesada”, complementa.
Atenta a essa realidade, a Clínica Pediátrica Multiprofissional Affect preparou a Colônia de Férias 2026, com uma programação especialmente pensada para atender às necessidades de crianças com transtornos do desenvolvimento. A iniciativa oferece um espaço acolhedor, seguro e estimulante, em que o lazer caminha junto com o cuidado e a inclusão.
A proposta é reunir atividades lúdicas e dirigidas, uso do playground, oficinas de culinária, artes, jogos, brincadeiras estruturadas e práticas esportivas. Todas essas atividades são planejadas para estimular habilidades como psicomotricidade, comunicação, autonomia e interação social.

Segundo a fonoaudióloga Juliana Menezes, responsável técnica da iniciativa, o principal objetivo da colônia é promover experiências positivas, conduzidas e supervisionadas por uma equipe multiprofissional especializada, respeitando o ritmo e as particularidades de cada participante.
Queremos oferecer um ambiente em que a criança se sinta segura, acolhida e motivada. Por meio de brincadeiras interativas e atividades planejadas, buscamos estimular o desenvolvimento global, fortalecer a autonomia e favorecer o convívio social, sempre de forma leve e prazerosa
As atividades podem acontecer no contraturno das terapias ou conforme combinação prévia com a equipe. Para as crianças que permanecerem em período integral, a clínica disponibilizará lanches e almoço, organizados em parceria com a família, respeitando seletividades alimentares, restrições e necessidades específicas de cada criança.
Nessa colônia de férias, a proposta é integrar estímulos terapêuticos em um contexto de lazer, com atividades direcionadas a diferentes áreas do desenvolvimento. Como as habilidades motoras, comunicação, expressão artística e alimentação em um ambiente de troca, previsibilidade, interação social e convivência com outras crianças.
Para a fisioterapeuta Rafaela Campos, que também é responsável técnica pela iniciativa, as atividades motoras são fundamentais para o desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista. As brincadeiras propostas estimulam a coordenação, o equilíbrio, a autonomia e a regulação emocional.
Em uma colônia de férias, essas práticas ganham ainda mais relevância ao serem realizadas de forma lúdica e inclusiva, favorecendo a socialização e o bem-estar. O movimento, além de promover saúde física, fortalece a autoconfiança, reduz a ansiedade e transforma o lazer em uma importante oportunidade de desenvolvimento e aprendizagem

Colônia de Férias Affect 2026
A Colônia de Férias Affect 2026 acontecerá nos períodos de 12 a 16 de janeiro, 19 a 23 de janeiro e 26 a 30 de janeiro. Em períodos distintos: das 8h às 12h (manhã); das 13h30 às 17h (tarde) ou das 8h às 17h (integral).
No ponto de vista da mãe do “Dudu”, a presença de crianças atípicas em qualquer espaço, ainda mais colônias de férias, é fundamental para exercer na prática valores como: respeito mútuo, união, empatia, acolhimento, generosidade, paciência, solidariedade, amizade, bem querer e cultura de paz. Além, claro, de expandir experiências pela interação e integração das crianças entre si.
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