Macron diz que França votará contra acordo comercial entre UE e Mercosul
08 janeiro 2026 às 18h10

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O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou nesta quinta-feira, 8, que o país votará contra o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Segundo o comunicado divulgado pelo Palácio do Eliseu, a posição francesa será apresentada na reunião de embaixadores do bloco europeu prevista para esta sexta-feira, 9, e já foi comunicada à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
A manifestação de Macron consolida a França como o principal polo de oposição ao tratado dentro da União Europeia. Outros países também demonstram resistência, entre eles Irlanda, Hungria e Polônia. A Itália, que anteriormente sinalizava possível veto, passou a adotar um discurso mais favorável ao avanço das negociações.
Para o Brasil, maior economia do Mercosul, o acordo representa a ampliação do acesso a um mercado estimado em cerca de 451 milhões de consumidores. Os efeitos do tratado vão além do setor agropecuário e alcançam diferentes ramos da indústria nacional. Procurado, o Ministério das Relações Exteriores não se pronunciou sobre a declaração do presidente francês.
Pressão do setor agrícola
A posição contrária de Paris já havia sido explicitada no mês passado, quando Macron condicionou qualquer apoio à inclusão de novas salvaguardas para proteger os agricultores franceses. Em declaração pública, o presidente afirmou que, na avaliação do governo, o texto do acordo não atende às preocupações do setor rural e, por isso, não deveria ser assinado. Ele também disse que a França se oporia a tentativas de acelerar ou impor a aprovação do tratado.
Produtores franceses veem o acordo como uma ameaça, sobretudo pela possibilidade de concorrência com produtos sul-americanos de menor custo e sujeitos a exigências ambientais diferentes das vigentes na União Europeia.
Em meio ao avanço das negociações, o governo francês decretou a suspensão temporária da importação de alguns produtos agrícolas, principalmente oriundos da América do Sul e tratados com defensivos proibidos no bloco europeu. A medida, com validade inicial de um ano, ainda precisa ser avaliada pela Comissão Europeia.
Entre os itens afetados estão frutas como abacate, manga, goiaba e cítricos, além de batatas, caso apresentem resíduos de cinco substâncias vetadas na Europa: mancozeb, tiofanato-metílico, carbendazim, glufosinato e benomil. Mesmo com essa decisão, manifestações organizadas por sindicatos rurais tomaram ruas e pontos turísticos de Paris nesta quinta-feira, em protesto contra o acordo em negociação.
Próximos passos
Negociado desde 1999, o tratado entre União Europeia e Mercosul pode entrar em sua fase final nos próximos dias. O Conselho da UE se reúne nesta sexta-feira, em Bruxelas, para decidir se autoriza a aprovação do texto. A expectativa é que, apesar da oposição de alguns países, a Comissão Europeia consiga reunir apoio suficiente entre os 27 Estados-membros.
Se houver sinal verde, Ursula von der Leyen poderá assinar formalmente o acordo na próxima segunda-feira, 12, durante evento no Paraguai. O pacto criaria a maior área de livre comércio do mundo.
Apoios dentro do bloco
Enquanto a França lidera a resistência, Alemanha e Espanha defendem abertamente a conclusão do acordo. Para os dois governos, o tratado é visto como uma forma de reduzir impactos de tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos europeus e de diminuir a dependência econômica da China, especialmente no acesso a minerais estratégicos e novos mercados.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou que a União Europeia precisa tomar decisões rápidas para manter credibilidade na política comercial internacional. Já o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, também tem reiterado apoio ao avanço do pacto.
Itália sinaliza voto favorável
A Itália passou a ser vista como peça-chave no cálculo da Comissão Europeia. Segundo fontes do bloco ouvidas pela agência Reuters, o país tende a apoiar o acordo na reunião desta sexta-feira, após indicar abertura ao texto desde que sejam atendidas demandas do setor agrícola.
Nos últimos dias, a Comissão Europeia sinalizou a possibilidade de acelerar a liberação de cerca de 45 bilhões de euros em recursos para agricultores, medida avaliada pela primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, como um avanço relevante. O ministro da Agricultura da Itália, Francesco Lollobrigida, também destacou que a UE passou a discutir a ampliação — e não a redução — dos investimentos destinados ao setor agrícola entre 2028 e 2034.
Para autorizar a assinatura do tratado, a Comissão precisa do apoio de ao menos 15 países que representem 65% da população do bloco. Embora o debate seja fortemente marcado pelas preocupações do agronegócio, o acordo envolve também regras para indústria, serviços, investimentos e propriedade intelectual, o que explica o respaldo de diversos setores econômicos europeus.
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