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Uma nova variedade de maconha, conhecida como creepy e produzida na Colômbia, está modificando a lógica do narcotráfico no Brasil. Mais cara, mais potente e considerada mais perigosa para a saúde, a droga tem entrado no país principalmente por embarcações que cruzam rios no Amazonas, antes dominados pelo fluxo de cocaína.

Levantamento da Polícia Federal mostra que, entre janeiro e julho de 2024, foram apreendidas 8,2 toneladas de maconha no Amazonas, boa parte da versão colombiana, contra 680 quilos de cocaína no mesmo período. Os números confirmam uma inversão recente, a maconha creepy já aparece mais nas operações da PF do que a cocaína.

“Temos visto um aumento expressivo do tráfico da marijuana creepy. Até dois anos atrás, eram quantidades residuais, mas hoje as apreensões já superam as de cocaína”, afirmou ao Valor Econômico o delegado Osvaldo Scalezi Júnior, chefe da Divisão de Repressão a Drogas da PF.

De acordo com estudos do Centro de Estudos sobre Drogas e Desenvolvimento Social Comunitário (Cdesc) e do Sistema Integrado de Monitoramento de Cultivos Ilícitos da Colômbia (Simci), a maconha comum tem teor de THC — substância responsável pelo efeito psicoativo — que varia de 0,5% a 5%. Já a creepy chega a 24%, quase cinco vezes mais potente que o limite máximo da versão tradicional.

Segundo Zila Van Der Meer Sanchez, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp, os efeitos colaterais são mais nocivos. “Quanto maior a concentração de THC, maiores os riscos de desenvolver transtornos psicóticos, dependência e prejuízos cognitivos. O impacto é ainda mais grave em jovens, já que o uso na adolescência compromete conexões neuronais que não se reconstituem na vida adulta”, relatou ao Valor.

Um relatório do Ministério da Justiça aponta que a província colombiana de Caquetá é o polo produtor da creepy. Diferentemente da cocaína, que usa o Brasil sobretudo como rota até a Europa, essa maconha tem como destino principal o mercado consumidor interno.

Atualmente, a droga é mais comum em municípios do Amazonas, mas a PF alerta para a tendência de expansão em direção ao Nordeste e ao Centro-Sul.

Rotas da cocaína

Enquanto a supermaconha ganha espaço, as rotas tradicionais da cocaína parecem perder relevância. O Brasil ainda é usado como corredor para portos da África e da Europa, mas investigações bem-sucedidas, o uso de scanners e fiscalizações mais rígidas reduziram a centralidade do país no esquema.

De acordo com Scalezi, hoje há maior fluxo de cocaína saindo diretamente da Colômbia pelo Equador e pelo Panamá até chegar à Europa. Outra rota monitorada liga Colômbia à Venezuela e ao mar do Caribe, onde veleiros aguardam carregamentos para a travessia atlântica.

Em maio, a Polícia Federal registrou um feito inédito, a apreensão de um semisubmersível usado para transportar drogas na Amazônia. A embarcação de pesca havia sido adaptada para navegar abaixo da linha d’água, reduzindo a detecção. Outro caso semelhante foi registrado em Portugal, com ligação às rotas amazônicas.

Segundo as autoridades, esses meios sofisticados mostram que facções criminosas têm buscado alternativas para escapar da repressão policial, ao mesmo tempo em que diversificam seus produtos — com a creepy assumindo papel cada vez mais central.

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