*Em colaboração Giovanna Campos e João Paulo Alexandre

Fundado em novembro de 1937, o Lyceu de Goiânia nasceu junto com a própria capital e rapidamente se tornou uma de suas instituições mais simbólicas. Desde os primeiros anos, o colégio assumiu um papel que ia além da formação escolar: tornou-se espaço de produção intelectual, de circulação de ideias e de formação de lideranças que marcariam a política, a cultura e a administração pública goiana ao longo do século XX.

Nos anos iniciais, o Lyceu adotou um modelo de ensino que conciliava formação científica e técnica, em consonância com a organização do ensino secundário brasileiro da época. Essa estrutura foi profundamente impactada pela reforma educacional de 1942, implementada durante o governo de Getúlio Vargas e conduzida pelo então ministro da Educação Gustavo Capanema. A reforma consolidou a divisão entre os cursos Clássico e Científico, redefinindo os rumos da educação secundária no país.

O curso Clássico concentrava-se na formação humanística, com disciplinas como filosofia e o ensino rigoroso de línguas, incluindo latim, grego, francês e espanhol. Já o Científico priorizava as áreas de ciências naturais e exatas, preparando estudantes para carreiras técnicas, médicas e científicas. No Lyceu de Goiânia, essa divisão não apenas organizou o currículo, mas também estruturou trajetórias acadêmicas e profissionais de gerações inteiras.

Uma tradição que antecede Goiânia

O modelo de Lyceu não foi concebido no Brasil. Inspirado em sistemas educacionais europeus, asiáticos e norte-americanos, ele foi implantado no país ainda no século XIX, após a publicação do Ato Adicional de 1834. À semelhança do padrão europeu, os liceus brasileiros tinham caráter seletivo e elitizado, com foco na preparação das elites para o ingresso no ensino superior.

Colégio Lyceu de Goyaz durante os anos | Foto: Reprodução

Em Goiás, essa tradição remonta ao período imperial. O Lyceu de Goyaz foi o 17º liceu criado no Brasil, instituído pela Lei nº 9, de 17 de junho de 1846, e instalado em 23 de fevereiro de 1847, na então capital, a Cidade de Goiás. Sem sede própria, funcionava em uma casa anexa à Casa da Fazenda da província. O acesso era restrito e condicionado a exames rigorosos, com o objetivo de formar jovens intelectuais em uma sociedade ainda marcada por estruturas rurais e coronelistas.

Com a transferência da capital para Goiânia, essa herança foi incorporada ao novo Lyceu. A instituição manteve a lógica de seleção rigorosa, a centralidade das línguas e a valorização do conhecimento clássico e científico, tornando-se rapidamente uma referência no ensino público goiano.

O rigor acadêmico marcou profundamente a trajetória de seus estudantes. O ex-governador Mauro Borges relembrou, em entrevista histórica ao Jornal Opção, as dificuldades enfrentadas ao ingressar no colégio ainda nos anos 1930. “Tinha professor particular. Quando cheguei na Cidade de Goiás, em 1931, com onze anos, é que fui para o Lyceu. Mas estava muito ruim. E o Lyceu tinha bons professores, eram rigorosos. Tive que tomar aulas particulares para me ajustar ao colégio”, afirmou. Durante cinco anos de estudos, Borges teve contato com disciplinas como francês, grego e latim, além de conviver com intelectuais que influenciariam sua formação política e administrativa.

Rigor acadêmico, excelência e capital intelectual

A percepção de excelência atravessa diferentes gerações de ex-alunos. O ex-governador Irapuan Costa Júnior ingressou no Lyceu de Goiânia em 1948 e descreve o exame de admissão como um dos mais rigorosos de sua trajetória escolar. “O exame de admissão era duríssimo, pois havia uma enorme demanda por vagas, muito acima da oferta. O ensino no Lyceu era de um nível excelente, melhor que qualquer um que eu conheça hoje”, recordou.

Segundo ele, o corpo docente era composto por alguns dos principais médicos, juristas e engenheiros de Goiânia. O ensino de línguas estrangeiras era contínuo e exigente. “Deixávamos o Lyceu quase fluentes em francês, inglês e espanhol. Genesy de Castro, Egídio Turchi, Genesco Bretas, Baltazar dos Reis e vários outros ficaram em minha mente como mostras da excelência do ensino médio, em nível que não mais existe no Brasil”, afirmou.

Além da formação acadêmica, o Lyceu consolidou-se como um espaço de sociabilidade intelectual e política. O Grêmio Literário Félix de Bulhões tornou-se um dos principais polos de organização estudantil do estado, reunindo jovens que mais tarde ocupariam posições centrais na política goiana e nacional.

Henrique Meirelles, já como aluno universitário, em programa de TV pelo PSD | Foto: Reprodução

Entre seus dirigentes esteve Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central. Natural de Anápolis, Meirelles estudou boa parte da infância e juventude no Lyceu, onde liderou manifestações contra o aumento das passagens de ônibus e do material escolar. Ele foi eleito presidente do grêmio e, em 1963, assinou a carteira estudantil de seu sucessor, Pedro Wilson Guimarães.

“Eu fiz todo o ensino médio, clássico e científico, no Lyceu. Foi ali que eu construí as bases da minha carreira e da minha vida profissional”, afirmou Meirelles. “A base de tudo isso foi exatamente o liceu. Eu estudei lá por sete anos. Saí do Lyceu, fiz vestibular, fui para a Universidade de São Paulo, depois Harvard. Mas tudo começou ali”, completou.

Movimento estudantil, ditadura e memória viva

A atuação política do Lyceu ganhou maior visibilidade nos anos 1960, durante o regime militar. Pedro Wilson Guimarãesingressou no colégio em 1961 e assumiu a presidência do Grêmio Félix de Bulhões em maio de 1964, um mês antes do endurecimento da ditadura.

Carteirinha de estudante de Pedro Wilson assinada por Henrique Meirelles | Foto: Raphael Bezerra/Jornal Opção

Naquele período, o colégio funcionava nos três turnos. Pela manhã e à noite, eram ofertados os cursos Científico e Clássico. “O científico era mais voltado para quem pretendia seguir medicina e áreas técnicas. Já o clássico atendia quem ia para direito, letras e sociologia”, explicou. Segundo ele, o Lyceu se transformou em um ponto estratégico de circulação de informações. “O colégio virou um verdadeiro bunker. Corríamos para a Faculdade de Direito, na Rua 20, para trocar informações e entender como seria nossa caminhada de luta”, relembrou.

Pedro Wilson recorda que o colégio chegou a ser invadido durante o período de repressão, mas manteve um ambiente de intensa mobilização estudantil. A rivalidade política e regional com outras instituições, como o Lyceu de Campinas, também contribuiu para a formação de uma cultura de debate, oratória e organização política entre os estudantes.

O professor Miramy Bueno conta sua passagem pelo Lyceu de Goiânia | Foto: Reprodução

A memória dessa trajetória segue preservada por quem construiu a história do colégio dentro das salas de aula. Professor do Lyceu desde os anos 1980, Miramy Bueno define a instituição como um patrimônio simbólico do estado. “O Lyceu é a memória de Goiânia, é a memória de Goiás. A gente tinha um grêmio estudantil muito atuante. Aqui estudou a elite política e artística do estado. Há um ar que respiramos aqui dentro que contagia pela história”, afirmou.

Ao longo de quase nove décadas, o Lyceu de Goiânia atravessou reformas educacionais, regimes autoritários, mudanças curriculares e processos de redemocratização. Mais do que acompanhar a história de Goiás, o colégio ajudou a moldá-la, consolidando-se como um dos mais emblemáticos símbolos da educação pública e da formação intelectual no estado.

Memória, fé e juventude sob a águia do Lyceu

Luis Aquino, em 2010, devidamente
uniformizado como em 1963 | Foto: Reprodução

Mais do que uma instituição de ensino, o Lyceu de Goiânia também foi espaço de formação afetiva e de construção de memórias que ultrapassam gerações. Entre a disciplina dos uniformes, o rigor das salas de aula e o símbolo da águia no peito, estudantes e professores compartilharam um tempo marcado por fé, sonhos e expectativa de futuro. 

Veja no poema a seguir como Luiz de Aquino relembra esse período, resgatando em versos a juventude, o cotidiano escolar e o espírito de uma geração formada sob os símbolos e valores do Lyceu.

Esses meninos sob a Águia

Era um tempo de homens rudes, 
mulheres doces – seres severos… 
Tempo de nós muito jovens. 

Sonhamos crescer, lutar… quem sabe? 
Alcançar liberdade – palavra perigosa, 
vigiada e guardada a chave.

Meninos grandes de uniforme bege e branco; 
jovens mestres de jaleco, pastas, livros
e giz ante o quadro escuro…

Quadro negro, quase sempre verde… 
Lousa, massa e cimento
berço de textos e contas – lições.

Calça cáqui, sapatos pretos, saias medianas; 
Meninas de meias brancas, muito alvas 
– um rigor religioso, aquele! 

No peito, a águia! Vigia solene, 
asas abertas ao voo 
viagem no tempo a vir! 

E o sentimento de fé e sonhos. Marcamos:

– sine die, seja sábado e noite, 
mas em quarenta anos (ao menos).

* * *
(2011)

Luiz de Aquino, moço professor de 1970, feliz outa vez entre vocês!