A decisão do Fundo Monetário Internacional (FMI) de reduzir a projeção de crescimento do Brasil em 2026 reforça um diagnóstico já conhecido no país: o custo elevado do crédito continua sendo o principal freio da atividade econômica. Para o professor e economista Gilberto Braga, a revisão feita pelo organismo internacional é um ajuste técnico, mas revela limites claros do modelo atual de combate à inflação.

O FMI passou a estimar crescimento de 1,6% para o Brasil em 2026, abaixo dos 1,9% projetados anteriormente. A revisão ocorre mesmo com a melhora do cenário global e, segundo o Fundo, reflete os efeitos defasados da política monetária restritiva, em um contexto de Selic mantida em 15% ao ano.

Na avaliação de Gilberto Braga, o movimento não surpreende. “É um ajuste cíclico que o FMI faz regularmente. No caso brasileiro, o crescimento acaba sendo menor porque a inflação está sendo contida com juros muito elevados. Se os juros fossem mais baixos, cresceríamos mais, mas com inflação maior”, explicou ao Jornal Opção.

Economista Gilberto Braga | Foto: Reprodução

Para o economista, não há setores poupados quando a taxa de juros permanece nesse patamar. “Toda a economia é afetada. Os juros afastam o investimento na economia real e estimulam a especulação financeira. O varejo sente com a retração do consumo, a indústria sente com a falta de investimento. Não existe um setor mais prejudicado, todos são”, afirmou.

Segundo ele, o cenário cria um círculo difícil de romper. “Sem investimento, você não amplia a capacidade produtiva. Sem ampliação da produção, não há crescimento consistente. E para investir em formação de capital fixo, ninguém vai colocar dinheiro com juros tão altos. É mais vantajoso deixar o recurso parado no banco.”

Questionado sobre a projeção de 1,6% para 2026, Gilberto Braga avalia que o ritmo é insuficiente para sustentar avanços mais sólidos em emprego e renda. “A gente precisaria de um crescimento maior, mas esse é o crescimento possível dentro da estratégia de manter a inflação dentro da meta”, disse.

O economista também chama atenção para o fato de o Brasil crescer abaixo da média regional. Enquanto o FMI projeta 2,2% para a América Latina em 2026, o Brasil fica abaixo desse patamar, reflexo, segundo ele, de uma política monetária mais dura do que a de outros países.

Apesar da expectativa de um ciclo gradual de queda dos juros ao longo do tempo, Gilberto Braga vê pouco espaço para mudanças significativas em 2026. “É um ano de pressão fiscal e eleitoral. Fazer uma mudança mais forte na política monetária sem comprometer o controle da inflação é muito difícil”, avaliou.

Para ele, a leitura do FMI reforça que o principal entrave ao crescimento brasileiro não está apenas no cenário externo, mas na combinação entre juros elevados, crédito caro e baixo incentivo ao investimento produtivo. “Enquanto isso não mudar, o Brasil vai continuar girando em torno de taxas de crescimento modestas”, completou.

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