A redução do consumo de bebidas alcoólicas entre jovens das gerações Z e millennials não significa, necessariamente, a adoção de hábitos mais saudáveis. Pelo contrário: em muitos casos, o álcool tem sido substituído por outras substâncias, como maconha e drogas sintéticas, em um movimento que envolve distorções de percepção, pressão social e ausência de educação continuada em saúde mental. A avaliação é da psicóloga Marilene Martins, do instituto Habiens, ouvida pelo Jornal Opção.

Segundo a especialista, há entre os jovens um viés de interpretação de que determinadas drogas seriam “menos nocivas” do que o álcool, sobretudo por provocarem efeitos considerados mais rápidos e com menor exposição social. “Existe uma distorção em relação à prática e ao consumo. Muitos jovens evitam o álcool por causa da ressaca, da perda de controle e do risco de vexame social, mas passam a consumir outras substâncias acreditando que isso é mais saudável, o que não é verdade”, afirma.

Psicóloga Marilene Martins | Foto: Divulgação

Marilene explica que esse comportamento está fortemente associado à necessidade de aceitação social e à dinâmica das redes digitais. O receio de exposição, de julgamento e de ridicularização faz com que parte dos jovens busque alternativas que aparentam gerar menos consequências visíveis. “É um comportamento coletivo, de pertencimento. Eles acreditam que outras drogas têm reações menos explícitas do ponto de vista do entorpecimento, mas isso não torna o uso menos perigoso”, alerta.

A psicóloga chama atenção para os impactos diretos dessa substituição na saúde mental. No caso da maconha, por exemplo, estudos apontam que o uso pode acelerar ou agravar transtornos psiquiátricos, como a esquizofrenia. “Não é um transtorno que tem cura, apenas controle. Isso já é uma preocupação nos Estados Unidos e na Europa e precisa entrar definitivamente no radar do Brasil”, afirma.

Para ela, o problema se agrava em um contexto de excesso de informação e baixa curadoria de conteúdo. “Os jovens têm muito acesso à informação, mas nem sempre buscam fontes seguras e de qualidade. Muitas vezes, o que se replica é um discurso coletivo que normaliza o uso e minimiza os riscos”, diz.

Sinais de alerta dentro de casa

Na prática clínica, Marilene observa que as famílias têm papel central tanto na prevenção quanto na identificação precoce de problemas. Mudanças bruscas de comportamento, alterações de humor, isolamento excessivo, retraimento dentro de casa e afastamento do convívio familiar estão entre os principais sinais de alerta.

“Sem vínculo, confiança e diálogo, os pais não conseguem perceber o que está acontecendo. Às vezes, o jovem está trancado no quarto, dentro de casa, mas completamente distante emocionalmente”, observa. Ela ressalta que a ausência de comunicação e modelos familiares incoerentes dificultam o enfrentamento do problema.

Outro ponto sensível é a normalização do consumo de álcool no ambiente familiar. “Mesmo quando os pais não usam outras drogas, o álcool está presente em quase todas as interações sociais. Isso cria um viés importante, porque o jovem não aprende claramente qual é o limite entre o uso moderado e o uso de risco”, avalia.

Para ela, o debate sobre drogas e saúde mental esbarra em uma questão estrutural e cultural. “É um problema secular. A nossa cultura não fala sobre educação em saúde mental. Não há campanhas permanentes de incentivo a uma vida mais saudável; o que existem são ações isoladas”, afirma.

A psicóloga defende que a educação emocional e a educação em saúde mental sejam tratadas como políticas públicas estruturantes, inclusive com inserção obrigatória no currículo escolar. “Educação é saúde. Sem saúde mental, não existe saúde. Precisamos esclarecer que a saúde mental resulta de fatores biológicos, sociais, familiares e comportamentais”, diz.

Ela também destaca o papel da imprensa no processo de conscientização. “Quando a comunicação leva informação de qualidade, ela presta um serviço fundamental à sociedade. Mas isso precisa ser um esforço conjunto, envolvendo famílias, escolas, governo e instituições”, pontua.

Em um mundo cada vez mais acelerado, competitivo e orientado à performance, a especialista alerta para o risco de se negligenciar o bem-estar emocional. “Há uma geração ansiosa, que busca prazeres imediatos, mas não aprende a cuidar da saúde mental. Programas de educação em saúde comportamental seriam um passo enorme, com baixo custo. O que falta, muitas vezes, é prioridade, interesse e disposição política”, completou.

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