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“Dos mais de 700 estudantes presos no Congresso de Ibiúna, menos de 50 se envolveram na chamada luta armada. Desse número, 23 passaram a compor a lista dos mortos e desaparecidos.” — “Sitiados”, de Jason Tércio. Página 274

O jornalista, escritor e pesquisador Jason Tércio é o rei das surpresas. Lançou o melhor livro sobre o deputado federal Rubens Paiva, assassinado, em 1971, pela ditadura civil-militar (ele prefere usar apenas ditadura militar). Publicou o melhor livro, uma biografia, sobre o ás da crônica Carlinhos de Oliveira. A única biografia incontornável do poeta, prosador, crítico literário e pesquisador Mário de Andrade é de sua lavra.

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Presos, Luís Travassos e José Dirceu chegam ao Dops, em São Paulo | Foto: Reprodução

Agora, em 2025, lança o excelente livro “Sitiados — A Saga do Congresso de Ibiúna em 1968” (Matrix, 295 páginas). Trata-se do Congresso da UNE, realizado num sítio do interior de São Paulo, que acabou descoberto pelo Dops e pela Polícia Militar. As histórias de Vladimir Palmeira, Luís Travassos, José Dirceu, Jean Marc, Catarina Meloni, Caterina Koltai e Heleniza Rezende — entre vários outros — é bem delineada por Jason Tércio.

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Como o Congresso da UNE acabou descoberto e os 712 estudantes — ou até mais — foram presos, fica-se com a impressão de caos total. Porém, como mostra Jason Tércio, os estudantes — alguns deles militantes da AP, da Dissidência, do PC do B e do PCB — mostraram engenhosidade e senso de logística na montagem do encontro.

O Dops e a polícia só descobriram o encontro porque um morador da região, estranhando a quantidade de gente num sítio, fez um relato ao delegado de Ibiúna. Mais um acaso do que resultado de uma operação de espionagem eficiente.

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Julgamento de Luís Travassos, José Dirceu e Vladimir Palmeira na Auditoria Militar | Foto: Reprodução

A história, muito bem construída por Jason Tércio, é detalhada. Há um roteiro para cinema prontinho.

O Dops e militares espalharam que o Congresso da UNE era um embrião guerrilheiro. Jason Tércio mostra que não era nada disso. Sim, existiam militantes de esquerda, alguns deles ligados a correntes radicais, mas naquele momento, em 1968, o Congresso dos estudantes, embora criticasse a ditadura, não propunha nenhum movimento guerrilheiro.

Ao serem presos, os estudantes descobriram que não era a militância legal que poderia derrubar a ditadura. É provável que, por isso, muitos tenham aderido à guerrilha, em seguida.

Jason Tércio: um dos mais importantes pesquisadores brasileiros | Foto: Reprodução

Há pessoas de Goiás (mesmo que não nascidas no Estado) citadas no livro: Athos Magno, Honestino Guimarães (goiano de Itaberaí), Lenine Bueno Monteiro (que estudava na UnB), Márcia Vera, Maria do Socorro Gomes Coelho (militantes do Comando de Caça aos Comunistas, baseadas na Universidade Mackenzie, jogaram ácido sulfúrico numa de suas pernas).

Na bibliografia, Jason Tércio menciona o livro “As 4 Mortes de Maria Augusta Thomaz”, do jornalista goiano Renato Dias.