A Comunidade Indígena Karajá, da Aldeia Buridina, em Aruanã, a cerca de 315 quilômetros de Goiânia, irá receber um investimento de R$ 870 mil por meio do Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), lançado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).

O recurso, destinado à preservação ambiental e ao fortalecimento da sociobiodiversidade, é uma iniciativa inédita no país voltada especificamente para comunidades tradicionais. A informação foi confirmada com exclusividade ao Jornal Opção pela secretária da pasta, Andréa Vulcanis.

De acordo com a gestora, o programa representa uma mudança de paradigma ao reconhecer economicamente a preservação realizada por povos indígenas e quilombolas. 

Em entrevista, ela destacou que “o programa está pagando para indígenas e quilombolas que já preservam as suas terras e é muito bonito ver isso acontecer”, ressaltando o caráter inovador da política pública.

Ao explicar a origem dos recursos destinados ao programa, a secretária destacou que o financiamento é resultado de um acordo com o Ministério Público. Segundo ela, “por meio dele, estamos recebendo na Secretaria um adicional que nunca existiu, com um valor em torno de 45 milhões por ano”.

Secretária Andréa Vulcanis | Foto: Deivison Moura/ Semad

Além disso, a secretária explicou que o PSA funciona como um “dinheiro-semente”, ou seja, um investimento inicial que deve gerar novos recursos e oportunidades dentro das próprias comunidades. A proposta envolve o incentivo a projetos de sociobiodiversidade, cadeias produtivas sustentáveis e ações que promovam qualidade de vida, sempre com foco na preservação do Cerrado.

Nesse contexto, Andréa Vulcanis detalhou que equipes da Semad estão atuando diretamente nos territórios para garantir o acesso das comunidades ao programa. Segundo ela, há um esforço ativo para orientar associações, auxiliar no cadastramento e superar barreiras tecnológicas enfrentadas pelos indígenas. A iniciativa inclui, inclusive, o apoio técnico para elaboração de documentos, georreferenciamento das áreas e inscrição no sistema.

Segundo Vulcanis, o programa prevê cerca de R$ 18 milhões em investimentos nos primeiros 3 anos. A comunidade Karajá foi a primeira a ter o projeto aprovado.

A aplicação do recurso também terá sugestões e orientações formais da Semad. A cacique Valdirene Leão Gomes Cruz, da Aldeia Buridina – Karajás, afirmou que a comunidade aguarda o parecer técnico para iniciar a execução dos projetos. Segundo ela, “a gente está guardando a Semad para nos orientar em como gastar esse dinheiro e como fazer a prestação de conta.”

Presidente da Associação Buridina e Bdé Buré, Mayalu Ratamaro à direita; Cacica da Aldeia Buridina – Karajás, à esquerda | Foto: Arquivo pessoal

Enquanto isso, os indígenas já se organizaram internamente e definiram prioridades. Como explica a cacique, entre as principais demandas está a reforma de um museu local. “Lá a gente coloca nossos artesanatos para poder estar comercializando pro turista. E ele está precisando muito de reforma porque está molhando tudo, tá bem precário”, disse.

Além disso, a comunidade pretende investir no reflorestamento de áreas degradadas e na instalação de cercas para proteção do território. “Queremos deixar bem reforçado porque aqui tem muito fogo e tem muita invasão também de não indígenas dentro da reserva. Então a gente vai priorizar esses detalhes”. 

Ainda conforme a cacique, o apoio da Semad surgiu após a própria comunidade buscar ajuda junto ao Ministério Público, principalmente em razão de problemas como desmatamento e invasões por não indígenas. A partir desse contato, equipes do órgão estadual realizaram visitas técnicas, incluindo monitoramento por terra e por rio, o que resultou na liberação do recurso.

A realidade enfrentada na Aldeia Buridina, no entanto, vai além das questões ambientais. Com uma população atual de 252 indígenas, a comunidade carrega uma história marcada por resistência. Valdirene conta que é da 9º geração e relembra que os antepassados enfrentaram uma grande redução populacional após epidemias como sarampo e catapora, o que levou à migração de parte do grupo. 

“Naquela época não tinha vacina, não tinha medicação e nessa situação eles voltaram para a aldeia mãe que é em Santa Isabel no Tocantins e também foram para o Mato Grosso. Eles foram embora e ficaram aqui uma família de 22 pessoas. Nós somos os descendentes dessa família”, explica. 

Além da luta pela preservação cultural, os Karajás enfrentam grandes desafios territoriais. “Nossa aldeia era bem grande, mas aos poucos ela foi loteada pela prefeitura. Hoje nós residimos na beira do Rio Araguaia mas em um local bem pequeno”, relata a cacique. 

Segundo ela, há, inclusive, registros de invasão de espaços considerados sagrados, como o cemitério indígena. “Tem áreas nossas que hoje estão em demanda no Ministério Público porque foram vendidas para terceiros que agora tem casas de veraneio aqui”. 

Entretanto, apesar das dificuldades, a comunidade resiste. “O estado de Goiás tem os Inãs, que nos denominamos de Inãs dos Karajás. E mesmo diante da luta, da dificuldade, da adversidade, a gente está aqui se mantendo, mantendo nossa cultura, nosso artesanato, nossa língua materna e permaneceremos firmes”, finaliza a cacica Valdirene Cruz.

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