Infância sem telas: famílias, médicos e educadores relatam mudanças profundas após reduzir exposição digital para crianças
07 fevereiro 2026 às 21h00

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A presença de celulares, televisores conectados e tablets na rotina de crianças pequenas deixou de ser exceção e passou a fazer parte do cotidiano doméstico, escolar e até de ambientes de saúde. O debate, que por muito tempo ficou restrito a recomendações genéricas sobre “tempo de tela”, ficou mais objetivo a partir de documentos técnicos, pesquisas e observações clínicas que associam o uso precoce, excessivo e sem mediação a alterações no sono, no comportamento, na atenção, na linguagem e na autorregulação emocional, um conjunto de habilidades que se forma justamente na primeira infância, quando o cérebro está em rápida construção.
É nesse cruzamento entre orientações médicas e experiências reais que se encaixam nas histórias de famílias goianas ouvidas pelo Jornal Opção. Há quem tenha decidido não introduzir telas nos primeiros anos e reorganizou a casa para sustentar o limite. Há também quem tenha enfrentado o caminho inverso: introduziu telas cedo, percebeu escalada de uso e, diante de mudanças no humor e no rendimento escolar, buscou ajuda e instituiu regras. Existe, também, o esforço cotidiano de pais que tentam reduzir uma exposição que já se tornou hábito, lidando com resistência, negociação e a necessidade de oferecer alternativas.
O estudo “Primeira Infância Sem Telas: Mais Saúde”, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), parte do ponto de que muitas famílias não citam espontaneamente, durante consultas, o quanto a criança usa tela, ou sequer reconhecem televisão e smart TV como parte do problema. Por isso, recomenda que pediatras e outros profissionais perguntem de forma direta sobre dispositivos, plataformas, conteúdos e regras dentro de casa, da mesma forma que investigam alimentação, sono e hábitos. O texto também alerta para o lugar das telas na dinâmica familiar e para a substituição de experiências essenciais de infância como brincar, conviver, explorar o mundo físico e conversar por estímulos rápidos e contínuos.
Nas recomendações, a SBP dá orientações que têm servido de referência para profissionais e famílias. “Telefones celulares, smartphones e telas de televisão não são brinquedos! Evitar o uso precoce, excessivo e prolongado em qualquer idade, e principalmente durante a primeira infância.” O estudo também dá faixas e limites. “O uso de aparelhos digitais não é recomendado para crianças menores de 2 – 3 anos” e “evitar o uso de aparelhos digitais e visualização das telas durante mais de 30-60 minutos/dia para crianças entre 3 – 6 anos. Nunca deixar a criança sozinha e sem supervisão em frente às telas”.
A SBP também orientou mudanças de rotina. “Desconectar quando estiver com seu bebê, ou durante os períodos de amamentação e sempre que possível. Desconectar sempre nas horas das refeições”; e alerta para o uso como calmante: “Não oferecer o telefone celular ou a televisão ou o uso de telas para ‘acalmar’ em casos de ‘birras’ ou ‘choros’ como mecanismo de recompensa ou castigo.” Para o sono, recomenda reduzir estímulos: “Desconectar todas as telas 1-2 horas antes de dormir e fazer um ‘ritual’ de passagem de relaxamento para o sono (música, leitura de livro, conversa, reza de agradecimento, pequena massagem de carinho ou ‘cafuné’)”, diz o documento.
Ao Jornal Opção, o psiquiatra Alex Costa afirmou que efeitos emocionais e comportamentais aparecem com frequência na prática clínica e se conectam a achados de pesquisas com grandes amostras. Ele disse que há associação entre acesso precoce ao celular e padrões de ansiedade, inquietude e agressividade, com repercussões na capacidade de atenção e na tolerância a frustrações.
“Um trabalho que foi publicado na universidade americana, com um número de participantes muito grande, mostrou que quanto mais as crianças têm acesso ao celular, principalmente antes dos 12 anos, mais você vai criando um comportamento de ansiedade, de inquietude e de agressividade nessas crianças. Isso faz uma conotação de que a tela em excesso, principalmente antes dos 12 anos, vai causando uma alteração nessa modulação cerebral, fazendo com que essas crianças diminuam a resiliência, diminua a situação de atenção e o contato com o sim e com o não, a dificuldade com o não que as crianças vão tendo”, explicou.

Para ele, um fator que intensifica o problema é a forma como a tela entra na rotina: como atalho para interromper choro, segurar a criança à mesa ou facilitar tarefas dos adultos. “Muitos pais usam a tela como uma forma de acalmar. A criança fica quieta, mas o cérebro está hiperestimulado. A tela acalma naquele momento, mas depois desorganiza. Quando você tira, vêm as crises, vêm os gritos, vem a agressividade, porque aquela criança não aprendeu a lidar com frustração, não aprendeu a se autorregular”.
Alex descreve ainda um padrão alimentar que, segundo ele, se tornou comum: refeições dependentes de tela. “Então as pessoas estão fazendo isso. Com isso, vai criando uma criança de uma desatenção no que ela está fazendo e vai diminuindo também a linha dela de tolerância.” Ele relata que a criança pode comer mecanicamente sem perceber fome e saciedade, e que isso reforça a dependência do estímulo para tarefas cotidianas.
Outro ponto, segundo o psiquiatra, é a confusão sobre o que é, de fato, “tela”. “Muita gente acha que desligar o celular resolve, mas deixa a televisão ligada o tempo todo. Televisão também é tela. Smart TV também é tela. O cérebro não faz essa distinção.” Para ele, também há risco de atribuir automaticamente um diagnóstico à criança quando a origem pode estar em rotina desregulada de sono e excesso de estímulo.
“Muitas vezes a pessoa chega achando que é TDAH, mas quando você vai investigar é privação de sono e excesso de tela. A criança dorme tarde, dorme mal, acorda cansada, passa o dia em estímulo constante. Aí, claro, ela não consegue se concentrar. Por isso é fundamental avaliar rotina, horário de dormir, tempo de exposição, alimentação e atividade física antes de fechar qualquer diagnóstico”, completou.
A primeira infância é mais sensível
A neuropediatra Tainá Maia descreveu, ao Jornal Opção, que a sensibilidade da primeira infância se explica, em parte, pela rapidez do desenvolvimento cerebral e pela formação de conexões nervosas dependente da experiência cotidiana. “O cérebro na primeira infância é mais vulnerável aos estímulos das telas devido ao rápido desenvolvimento neurobiológico, formação dependente de experiências de sinapses e alta susceptibilidade a estímulos ambientais nos primeiros anos de vida. Nessa fase, experiências sensoriais integradas são essenciais para modelar a arquitetura cerebral.”

A médica aponta que a literatura descreve associações entre uso excessivo e alterações em estruturas e redes ligadas a planejamento, memória, linguagem e recompensa. “Do ponto de vista anatômico, o uso excessivo de telas está associado a alterações na plasticidade cerebral, incluindo redução de substância cinzenta em regiões como córtex pré-frontal e giro temporal superior, diminuição da conectividade entre os hemisférios cerebrais, redução de volume do hipocampo, relacionado à memória e aprendizagem, e mudanças na substância branca em redes ligadas à atenção, linguagem e sistemas de recompensa.”
Tainá afirma que esses achados se traduzem em impactos observáveis no cotidiano e no percurso escolar. “Essas alterações neurobiológicas podem se traduzir em déficits de linguagem, prejuízos em funções executivas como atenção, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva e inibição, e dificuldades de regulação emocional. Além disso, o excesso de telas pode reduzir a capacidade de resolver problemas e a habilidade de lidar com frustrações, afetando diretamente o desenvolvimento social e acadêmico”, diz.
Ao tratar de linguagem, a neuropediatra diz que o problema se agrava quando o consumo é passivo, com pouca conversa e interação. “Existe relação entre exposição prolongada a telas e atrasos na fala e na linguagem, principalmente quando o consumo é passivo. Conteúdos interativos e educativos, com envolvimento dos pais, podem reduzir parte desses efeitos, mas não eliminam os riscos quando o tempo de exposição é alto”, completou.
Autorregulação
A psicóloga hospitalar e clínica Brenda Brandão, do Instituto de Neurologia de Goiânia, amplia o debate para o campo emocional e social. Ela chamou atenção para o contexto de risco no ambiente online e para o efeito do excesso sobre a qualidade das interações humanas na primeira infância. “A internet se tornou um terreno perigoso, principalmente quando os dados de violência digital vêm crescendo nos últimos anos. Esse perigoso fica mais em alerta na primeira infância que vai até aos 6 anos de idade, fase primordial do desenvolvimento emocional e social.”
Brenda descreveu que o consumo sem acompanhamento e sem equilíbrio pode afetar dimensões essenciais do desenvolvimento. “O consumo de telas sem acompanhamento e equilíbrio causa dissonância nas interações humanas essenciais, causando atrasos na fala, déficits de atenção e dificuldades em entender emoções.” Ela também citou mecanismos que se intensificam com a vida digital e podem contribuir para sofrimento psíquico. “Além disso, outros problemas como cyberbullying, comparação social e a busca por uma ‘vida perfeita’ online também contribuem para o adoecimento mental”, explicou ao Jornal Opção.
Na avaliação da psicóloga, o problema se torna mais complexo quando a tela passa a ocupar o lugar do vínculo cotidiano e da vida compartilhada. “Cada vez que o uso de telas tem consumido a rotina, o excesso de atividades estressantes e cobranças, o distanciamento das relações familiares, a criança vai crescendo superconectados, distraídos e vazios”.
Ela também afirmou que o contato precoce com conteúdos inadequados e seus impactos. “O excesso e acesso a conteúdos como erotização precoce trás prejuízos específicos. Esse uso faz com que o cérebro busque estímulos cada vez mais fortes, o que pode ocorrer um hiperestimulação do sistema de recompensa, liberando um quantidade alta de dopamina e gerando cada vez mais a busca por prazeres imediatos. Isso pode levar uma busca repetida por conteúdos sensíveis para a faixa etária InfantoJuvenil e a diminuição da sensibilidade a outros prazeres do cotidiano”, relatou.
Sobre a substituição do brincar livre e da interação por telas, Brenda aponta efeitos que podem surgir rapidamente e se acumular ao longo do tempo. “A falta de interação com os pais, cuidadores e responsáveis afetando o neurodesenvolvimento, a saúde física e as habilidades socioemocionais. A falta de interação direta com cuidadores e o tempo reduzido de exploração ativa do mundo físico geram impactos de curto e longo prazo”, diz.
Ao tratar do uso de telas como estratégia para “acalmar”, ela lista riscos para a construção de autorregulação, isto é, a capacidade de lidar com raiva, tristeza, frustração e ansiedade. “A tela oferece distração imediata, impedindo que a criança aprenda a nomear, compreender e controlar emoções como raiva ou tristeza.” E descreve consequências práticas: “Baixa tolerância à frustração: Crianças acostumadas a telas tendem a se tornar mais impacientes e irritáveis quando contrariadas.” Ela acrescentou que o excesso pode elevar sofrimento emocional. “Aumento da ansiedade: O uso excessivo está associado a maiores níveis de ansiedade e depressão na infância.”
Brenda também apontou o efeito da recompensa rápida. “Vício em estímulos rápidos: A estimulação constante de vídeos e jogos diminui a capacidade de engajamento em atividades que exigem paciência e foco. A tela acalma, mas depois ela desorganiza, pois ativa áreas cerebrais com picos elevados de uma vez, gerando uma desregulação e hiperatividade”, disse.

A psicóloga descreve comportamentos que costuma ver em crianças expostas precocemente ou por longos períodos. “O uso desencadeia quadros de ansiedade, depressão, isolamento social, agressividade, irritabilidade, distúrbios do sono e sedentarismo.” Ela também afirma que a dinâmica digital pode substituir interações presenciais e enfraquecer vínculos. “É possível perceber um comportamento, frequentemente chamado de phubbing (ignorar alguém para olhar o celular), fragmenta a atenção e substitui o ‘olho no olho’ por conexões virtuais, prejudicando a intimidade e o convívio social real. Essa prática é considerada uma forma de abandono emocional, gerando sentimentos de rejeição, inferioridade e solidão, o que prejudica a qualidade de relacionamentos afetivos e sociais”, relatou ao Jornal Opção.
Para Brenda, o uso de telas por pais e cuidadores costuma combinar necessidade prática e falta de orientação sobre riscos e limites. “O uso de telas por pais e cuidadores é motivado por uma combinação complexa de necessidade prática (como uma ferramenta para ganhar tempo) e falta de orientação ou conscientização sobre os riscos e os limites recomendados.”
“Facilidade de acesso, falsa percepção do conteúdo educativo e agenda de tarefas/trabalhado são os pontos que mais acontecem para inserir as telas em crianças.” Ela propõe uma reflexão direta aos adultos. “A dica é: a criança não precisa aprender sobre o mundo pelas telas, elas precisam de vocês pais para aprender a lidar com o mundo que as cercam”, afirmou.
Na parte de limites, Brenda explicou que é necessário o papel do exemplo adulto e recomenda regras coletivas dentro de casa. “A alerta também vão para os pais, a criança e o adolescente se espelha muito no comportamento dos adultos com os quais convivem, por serem a referência e terem um apego emocional esperado para essa faixa etária.” Ela indicou estratégias como “definir horário com e livre de telas”, “estabelecer combinados e regras não só para a criança e adolescentes, mas para todos da casa” e acrescenta que isso inclui os adultos. “Quanto mais tarde sua criança tiver acesso a telas, mais protegida ela estará”.
Quando o assunto é reversão de prejuízos, a psicóloga afirma que há possibilidade de recuperação com reorganização ambiental e substituição de estímulos. “A neuropasticidade cerebral infantil permite recuperação quando há trocas por brincadeiras físicas, interação social, leitura e contato com a natureza.” Ela defende que a mudança tende a ser mais sustentável quando é gradual, com adição de experiências prazerosas e vínculo, em vez de um corte brusco. “A melhor forma não é tirando de uma vez, mas acrescentando atividades de lazer, afeto e momentos prazeirosos, e assim aos poucos a vida ‘real’ terá mais sentido que a vida ‘virtual’. Rotinas detalhadas ajudam nesse processo”, completou.
Histórias na prática
A administradora Rhanna Cantarelli, mãe de Ton, relatou ao Jornal Opção que decidiu não introduzir telas desde o início após observar efeitos em crianças na educação infantil e associar o excesso a irritabilidade e dificuldades de desenvolvimento. “A minha mãe tem uma escola infantil e a gente começou isso muito antes de eu ter filho. Perceber que aquela criança o tempo todo no telefone lidava com o desenvolvimento na escola, a comparação, a irritabilidade dela, tudo isso. Então eu tinha isso em mente: não quero isso para os meus filhos.”

Ela afirma que reconhece a dificuldade de famílias sem rede de apoio, mas que, no caso dela, a decisão foi sustentada por organização e acompanhamento de orientações médicas. “Eu consegui. Porque se torna também um meio, já que tem muitas mães que usam até como um meio de quase sobrevivência, porque não tem rede de apoio. Mas no meu caso houve recomendação médica também. A Dra. Tainá é madrinha do Ton. E sempre acompanhei ela, os estudos, as pesquisas, e isso foi se tornando cada vez mais falado do prejuízo que seria”, disse.
Elcivan Gonçalves França descreve um percurso diferente: o início pela televisão, a expansão para plataformas e a lógica de recomendação contínua. Para ele, o cenário atual é radicalmente distinto do que viveu na infância. “Na minha época, como eu já tenho 61 anos, você tinha um canal ou dois. Mas hoje, em relação à TV especificamente, eles vão às vezes vendo as mesmas coisas que gostam. É como se fosse algo de algoritmo, você vê, se eles vão na Netflix e começam a ver uma coisa, sempre vai ser algo ligado àquela coisa que eles viram.”
Já Adriano Soares, conhecido como Salsicha, afirma que percebe mudança no humor da filha quando a tela entra em cena e que isso afeta o clima dentro de casa. “A gente tenta dar prioridades a brincadeiras dentro de casa, a prioridade mesmo é estar brincando. Minha filha gosta muito de jogar comigo. Ela tem muitos brinquedos, mas pega coisas aleatórias, como, por exemplo, pega o esmalte, coloca um monte de esmalte no chão e começa a brincar separando eles. Mas quando ela vai pra tela parece que muda. Isso não é legal.” Ele diz que tenta evitar ao máximo e que prioriza atividades variadas para não fazer da tela o centro do dia, ainda que reconheça que a atratividade do dispositivo exige constância.

Danúbia Borges, enfermeira e mãe de Otávio, relata que a redução só veio depois de sinais mais evidentes de desregulação. “O Otávio era uma criança que ficava muito tempo na tela. E aí ele era uma criança mais agitada, mais ansiosa. Era uma criança que não parava a hora nenhuma. Ligada no 12. E aí foi quando eu procurei ajuda e entramos na parte da tela. Então fomos tirando.”
Ela diz que estabeleceu uma regra simples, com previsibilidade. “Ele fica sem tela de segunda a sexta. E no sábado eu autorizo ele a usar um pouquinho ali pra assistir um filme, um desenho, porque ele estava muito agressivo, muito ansioso. E aí com essa tirada de tela ele melhorou bastante.”
Danúbia relatou melhora no cotidiano e na escola. “Até na escola melhorou bastante. Ele consegue chegar, fazer as tarefas sozinho. Antes não. Antes ele ia direto pra tela. E aí acaba que não tinha aquela tensão no material. Ele ficava doido pra ir pra tela. Hoje não. Hoje é super, super tranquilo”, completou.
Telas na escola
Desde que a lei 15.100/2025 entrou em vigor, proibindo o uso de celulares em todas as etapas da educação básica, uma nova realidade se instalou na educação. A norma, que afetou mais de 47 milhões de estudantes em todo o Brasil, redesenhou a rotina escolar e trouxe reflexos para salas de aula, corredores e até no recreio. Se antes o aparelho era quase uma extensão do corpo de crianças e adolescentes, agora a vida escolar passou a resgatar algo que parecia perdido: a convivência e a concentração nos estudos.
Na dimensão escolar, a professora Aiane Vieira defende que telas podem ter uso educacional, desde que com propósito pedagógico, regra e mediação. Ela contextualiza que a tecnologia faz parte do mundo contemporâneo e pode ser usada para ampliar repertório e criar atividades interativas, mas ressalta que o recurso precisa estar a serviço do conteúdo e do processo de aprendizagem, e não substituir o ensino. Na avaliação dela, a diferença entre ferramenta e distração é justamente o planejamento: quando o uso é orientado e vinculado a objetivos, pode apoiar o aprendizado; quando entra sem critério, passa a competir com a aula e fragmenta a atenção.

Já Centro de Ensino em Período Integral Pré-Universitário, a mudança antecipou a legislação. A gestão escolar, em um movimento corajoso, implementou a restrição já no início de 2024. A coordenadora pedagógica Luciane de Oliveira Rodrigues narra o processo meticuloso que levou ao consenso. “Primeiro, foi uma reunião interna com os professores. Foram unânimes: o celular atrapalhava muito, especialmente no período da tarde. A falta de atenção era muito maior”, relata.
O próximo passo foi conquistar os pais. De aproximadamente 250 presentes, apenas uma mãe se opôs. O argumento da escola foi pedagógico e socioemocional: o prejuízo na aprendizagem, no relacionamento interpessoal e o alarmante estado da saúde mental dos adolescentes.
A resistência, previsivelmente, partiu dos alunos. Eles formaram comissões, pediram para voltar atrás. A escola manteve a firmeza. O protocolo foi estabelecido: os celulares são retidos na entrada com uma ficha de identificação e devolvidos ao final do dia. A exceção só ocorre para atividades pedagógicas previamente comunicadas.
“Depois daquela primeira fase, foi muito bom. Percebemos que elevaram o nível de conhecimento e a interação entre os próprios estudantes”, comemora Luciane. Os professores relatam salas de aula mais participativas. A indisciplina que persiste, garantem, é de outra natureza, não mais alimentada pela distração digital.
O período de adaptação demandou paciência: cerca de três meses difíceis, todo o primeiro semestre de 2024. Hoje, a prática está internalizada. Tentativas de burlar a regra são eventuais e, curiosamente, denunciadas pelos próprios colegas. “Os próprios alunos denunciam. Eles já sabem”, diz a coordenadora.
A mudança de comportamento é visível até no horário do almoço. “Hoje em dia, os estudantes querem atividades mais lúdicas. Você vê rodas conversando, jogando baralho, dançando, lendo. Aumentou muito”, observa.
A escola, atenta ao turbilhão emocional adolescente, complementou a medida com suporte psicológico. Uma parceria com a PUC traz estagiários de Psicologia para conduzir sessões de terapia coletiva e orientação de futuro, focando no controle das emoções e na construção de projetos de vida.
“O professor em sala identifica uma possível fraqueza do estudante, passa para a gente, e a gente repassa. E eles trabalham essas emoções”, explica Luciane.
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