Igreja Anglicana empossa primeira mulher como líder espiritual
27 março 2026 às 16h58

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Sarah Mullally foi oficialmente instalada nesta quarta-feira, 25, como a primeira mulher a assumir o posto de arcebispa de Canterbury na Igreja da Inglaterra. Com a posse, ela passa a ocupar a principal liderança espiritual de cerca de 85 milhões de anglicanos em todo o mundo.
A cerimônia foi realizada na Catedral de Canterbury, onde Mullally tomou assento na cadeira de Santo Agostinho, diante de cerca de 2 mil convidados. Entre os presentes estavam o príncipe William, Kate Middleton, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e lideranças religiosas.
Em seu primeiro sermão no novo cargo, Mullally fez referência a conflitos internacionais e pediu que a paz prevaleça em regiões marcadas por guerras, como Oriente Médio, Ucrânia, Sudão e Mianmar. “Ao iniciar meu ministério hoje como arcebispa de Canterbury, digo novamente a Deus: ‘Eis-me aqui’”, afirmou.
A nova arcebispa, de 63 anos, também mencionou as falhas da Igreja em casos de proteção institucional no passado. Sem citar diretamente episódios específicos, reconheceu o sofrimento causado por esses erros e defendeu compromisso com “a verdade, a compaixão, a justiça e a ação”.
Seu antecessor, Justin Welby, deixou o cargo após ser alvo de críticas por não comunicar à polícia acusações de abuso físico e sexual envolvendo um voluntário ligado a um acampamento de verão da igreja.
Antes da cerimônia, o bispo Philip Mounstephen classificou a posse como momento histórico. Segundo ele, a chegada de uma mulher a um cargo mais antigo que a própria Coroa britânica representa sinal claro da transformação vivida pela Igreja.
A nomeação de Mullally, anunciada em outubro, provocou reação entre setores conservadores da Comunhão Anglicana, especialmente ligados a igrejas africanas e asiáticas. Apesar disso, o grupo Gafcon recuou de planos anteriores de criar uma liderança paralela e optou por formar um novo conselho.
As tensões entre alas progressistas e conservadoras continuam presentes no anglicanismo, especialmente em debates sobre liderança feminina e questões LGBTQ+. Diferentemente do papa entre os católicos, porém, o arcebispo de Canterbury exerce papel mais simbólico e depende sobretudo de capacidade de articulação e persuasão.
Mullally tem defendido unidade em meio à diversidade. Ao comentar as diferenças internas da Comunhão Anglicana, afirmou que a igreja compartilha uma mesma raiz, ainda que abrigue grande pluralidade.
No início da celebração, ela bateu à porta oeste da catedral usando um manto preso por um fecho inspirado no cinto que usava quando atuava como enfermeira no sistema público de saúde britânico. Em seguida, foi recebida por crianças.
Durante a cerimônia, Mullally também usou um anel que havia sido entregue a um de seus antecessores pelo papa Paulo VI, em 1966, símbolo da aproximação entre anglicanos e católicos séculos após o rompimento promovido por Henrique VIII com Roma.
O culto teve orações e leituras em diferentes idiomas, entre eles o urdu, refletindo o alcance global da Igreja Anglicana. A celebração coincidiu com a Festa da Anunciação, data cristã que recorda o anúncio feito a Maria sobre o nascimento de Jesus, tema central da cerimônia.
Ao recordar sua trajetória, Mullally afirmou que não poderia imaginar, quando ainda era adolescente e decidiu seguir a fé cristã, o caminho que teria pela frente.
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