O Instituto Federal de Goiás (IFG) acaba de conquistar sua nona carta-patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) com o registro de uma tecnologia que transforma resíduos orgânicos, como cascas de frutas, sobras de refeições e outros restos alimentares, em biocombustível sólido de alto poder energético. 

O registro, intitulado “Biocombustível sólido de biomassa oriunda de biodigestão aeróbia e respectivo processo de produção” (número BR 102021026827-1), garante ao IFG direitos exclusivos de exploração da tecnologia pelos próximos 20 anos.

A solução inovadora nasceu no Laboratório de Energia e Meio Ambiente do Câmpus Inhumas, criado em 2015, e resulta de pesquisas conduzidas pelo Grupo de Estudos em Energias Renováveis e Ambiente (Geera), reunindo especialistas de múltiplas áreas do conhecimento.

A patente tem como inventores os pesquisadores Fernando Pereira de Sá, Elisangela Cardoso de Lima Borges, Luciana Lopes Kuramoto Moreira, Lara Lysse Vieira de Souza e Marcos Aurélio Leandro Alves da Silva, todos vinculados ao IFG. A equipe multidisciplinar, composta por doutores das áreas de Química, Biologia e outras especialidades, uniu esforços na economia circular, na bioenergia e no desenvolvimento de tecnologias com impacto socioambiental positivo.

O processo desenvolvido pelos cientistas utiliza biodigestão aeróbia controlada, na qual os resíduos alimentares passam por trituração e são combinados com materiais ricos em carbono, como serragem. A mistura segue para um ambiente fechado com inserção contínua de ar pressurizado, permitindo que microrganismos aeróbios decomponham a matéria orgânica ao longo de aproximadamente 14 dias.

Ao final desse período, obtém-se um biocomposto estabilizado com propriedades físicas semelhantes às do húmus e características ideais para aproveitamento energético.

Biocombustível apresenta poder calorífico comparável a biomassas consolidadas na indústria

Ensaios laboratoriais realizados pela equipe revelaram que o material apresenta poder calorífico superior entre 15,46 e 17,47 MJ/kg, valores comparáveis aos de biomassas energéticas já utilizadas pela indústria, como casca de coco e casca de arroz.

Além da eficiência energética, o biocombustível possui baixo teor de enxofre, inferior a 0,2%, característica que reduz significativamente a formação de poluentes atmosféricos durante a combustão.

A tecnologia contempla ainda a etapa de peletização da biomassa. O biocomposto obtido é misturado a um blend de gorduras de origem animal (bovina e suína), que atuam como aglutinantes naturais. Esse processo permite a formação de pellets resistentes ao transporte e ao armazenamento, adequados para geração de energia térmica em sistemas industriais, fornos, caldeiras e com potencial para conversão em energia elétrica.

Alto potencial de transferência tecnológica e benefícios ambientais

Em entrevista ao Jornal Opção, a pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação do IFG, Lorena Pereira de Souza Rosa, explicou por que a instituição decidiu dar visibilidade específica a essa patente. Segundo ela, a tecnologia apresenta um potencial de transferência para o setor produtivo extremamente elevado, principalmente diante da urgência de soluções para a gestão de resíduos.

Segundo ela, a patente consegue conduzir exatamente essa perspectiva, pois promove a valorização energética dos resíduos e a integração da gestão de materiais orgânicos com a geração de energia. “Transformando esses restos de alimentos com valor energético competitivo, isso cria vantagens tanto ambientais, quanto econômicas e tecnológicas”, complementou.

Lorena listou os benefícios do processo: redução do volume de lixo orgânico destinado a aterros, diminuição da emissão de metano (gás produzido nos lixões) e aproveitamento energético de resíduos abundantes. “A gente não sabe onde colocar o lixo orgânico e a gente vai aproveitar nesse sentido”, ressaltou.

A trajetória que resultou nessa conquista começou em 2015, com a criação do Laboratório de Energia e Meio Ambiente no Câmpus Inhumas. Desde então, há quase 11 anos, os pesquisadores desenvolvem estudos voltados à valorização energética dos resíduos e às tecnologias sustentáveis.

A equipe reúne professores de diferentes áreas, todos doutores e pesquisadores consolidados, que se uniram com o propósito comum de atuar na economia circular e na bioenergia.  “Tudo voltado à valorização energética dos resíduos e à tecnologia sustentável”, resumiu a pró-reitora, acrescentando que todas as atividades do laboratório seguem essa direção.

A patente recentemente concedida, explicou Lorena, resulta de um processo contínuo de investigação que envolve iniciações científicas e pesquisas aplicadas. “A gente desenvolve, depois incorpora outros produtos na pesquisa e vai desenvolvendo até chegar nesse produto que a gente registra pelo INPI”, detalhou.

Inpi reconhece ineditismo da tecnologia após busca de anterioridade

O processo de registro no Inpi inclui uma etapa fundamental: a busca de anterioridade. Esse procedimento verifica se existe alguma tecnologia semelhante já registrada, assegurando o ineditismo da proposta. Lorena explicou que quando o instituto recebe a resposta positiva do Inpi, com o registro patenteado, fica garantida a exclusividade da exploração da tecnologia. 

A pró-reitora comemorou o resultado positivo: “Quando a gente recebe essa resposta positiva do INPI, a gente já garante a exclusividade.” 

Sobre o tempo de tramitação, a pró-reitora reconheceu que os processos de concessão de patentes no Brasil costumam demorar, em média, cinco a seis anos. No entanto, ela destacou a relação próxima que o IFG mantém com o órgão.

O instituto federal, por sua própria característica institucional, com foco em produtos, e cursos técnicos, cultiva essa proximidade com o sistema de propriedade intelectual.

Lorena atribui a essa capacitação contínua a celeridade nos processos, evitando que os pedidos retornem várias vezes para ajustes. “O INPI é um órgão que está bem próximo da gente”, afirmou, frisando que isso é possível junto à maturidade do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) IFG no gerenciamento da política de inovação, da proximidade intelectual e da transferência de tecnologia.

Vitrine tecnológica do IFG já divulga patente para atrair interessados do setor produtivo

Com a concessão da patente e a exclusividade garantida por duas décadas, o IFG inicia agora a fase de transferência da tecnologia para o setor produtivo. Lorena explicou que o objetivo principal é exatamente esse: fazer com que a pesquisa desenvolvida dentro da instituição retorne para a comunidade.

“O potencial inovador das nossas pesquisas é para ter o retorno para a sociedade como um todo. É o investimento e a nossa contrapartida para a sociedade”, argumentou.

Para viabilizar essa aproximação com o mercado, o IFG conta com o Integra IFG – Portal da Inovação, uma vitrine tecnológica onde a instituição divulga suas criações. A nova patente já está disponível na plataforma, permitindo que empresas e empreendedores interessados identifiquem a tecnologia e estabeleçam contato.

A pró-reitora exemplificou que o instituto já vivencia experiências positivas nesse modelo. Recentemente, uma equipe de Tangará da Serra procurou o IFG demonstrando interesse em um software desenvolvido para catequese. “O pessoal procurou a gente para fazer uma possível transferência de tecnologia ou uma aquisição”, revelou.

Além da vitrine virtual, o IFG mantém vínculo com a Unidade EMBRAPII em eficiência energética. Lorena fez questão de destacar essa parceria, que permite ao instituto ter cadastro de diversas empresas que atuam na área de energia. “A gente já tem o cadastro de várias empresas que atuam nessa área de energia, e aí a gente tem essa facilidade também de divulgar os nossos patentes para essas empresas”, explicou.

IFG consolida estrutura de inovação com Polo Criar

Os números comprovam a trajetória crescente do IFG na geração de conhecimento aplicado. Entre 2013 e 2026, a instituição registrou 20 comunicados de invenção, posteriormente convertidos em 20 depósitos de pedidos de patente junto ao Inpi.

Desses, nove já resultaram em cartas-patente concedidas, incluindo a mais recente.

O portfólio inclui ainda registros de software e outras produções de propriedade intelectual.

Para fortalecer ainda mais esse ecossistema de inovação, o IFG inaugurou em outubro de 2024 o Polo de Inovação do IFG – Criar. “A gente tem um escritório de processo e captação de recursos para desenvolvimento de pesquisa. E aí a gente fornece esse serviço do Polo para todos os pesquisadores que queiram desenvolver essas pesquisas”, detalhou Lorena.

A criação do Criar viabiliza o desenvolvimento de produtos e o contato com a comunidade externa. “O Polo vira referência, porque a inovação, ela tem todo um arcabouço jurídico. Então a gente tem a lei da inovação que respalda e aí o Polo de Inovação faz essa formação”, explicou a pró-reitora.

“A gente vai consolidando e articulando”, resume pró-reitora sobre modelo transversal

Lorena comemorou o modelo articulado que a instituição conseguiu implementar. O ensino médio, a graduação e a pós-graduação atuam de maneira transversal, permitindo que a pesquisa deixe de ser apenas básica e se transforme em pesquisa aplicada.

“A pesquisa deixa de ser uma pesquisa básica e passa a ser uma pesquisa aplicada com todo esse olhar da instituição”, resumiu.

Esse olhar institucional, segundo ela, reflete o compromisso do IFG com a inovação e o desenvolvimento sustentável. Nos últimos quatro anos, a estrutura foi consolidada com o aumento da equipe do NIT e a ampliação dos programas de pós-graduação, criando condições para que a produção de patentes continue crescendo.

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