Gregório de Matos – O Boca do Inferno
25 janeiro 2026 às 19h00

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Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima
“Eu sou aquele,
que os passados anos
cantei na minha lira
maldizente torpezas do Brasil,
vícios, e enganos”.
Gregário de Matos
“Não existe pecado do lado de baixo do Equador.
Vamos fazer um pecado, safado,
debaixo do meu cobertor.
[…]
Quando é Lição de esculacho,
olhaí, sai debaixo, que sou professor.”
Chico Buarque e Ruy Guerra
A SÁTIRA DE GREGÓRIO DE MATOS O BOCA DO INFERNO
Cultor qualificado de uma arte de grande complexidade, Gregório de Matos realizou poemas marcantes, seja na linha cultista, seja na conceptista, chegando ao ponto de adaptar em português, com grande êxito, poemas do maior mestre da lírica barroca – o espanhol Luiz de Góngora e do grande modelo barroco da sátira – Quevedo, também espanhol. Sua poesia não é, contudo, destituída de originalidade, pois além das convenções barrocas de lirismo e religiosidade, que cultivou, foi capaz de utilizar artisticamente a linguagem coloquial brasileira (o seu “português mestiço”) e de produzir um retrato satírico, vivo e saboroso do Brasil no século XVII. O poeta baiano foi a primeira grande voz da poesia brasileira, sendo considerado seu fundador.
A vida do “poeta maldito”
Gregório de Matos e Guerra nasceu na Bahia, em 1636, filho de família abastada, estudou com os Jesuítas em Salvador. Aos quatorze anos, foi estudar em Portugal, onde se formou em Direito na Universidade de Coimbra. Casou-se, tornou-se juiz e morou na metrópole até 1681. Viúvo, retornou ao Brasil.
Investido no cargo de Tesoureiro Geral da Sé, em 1883, foi destituído pouco tempo depois por pressão do Arcebispo de Salvador, contrário aos seus hábitos mundanos.
Em Salvador, sobreviveu precariamente, advogando e sem recurso. Tornou-se um reles boêmio, quase louco, sujo, malvestido, a percorrer os engenhos do Recôncavo, viola ao lado, tocando lundus.
Sofreu várias perseguições, até ser degredado para Angola, em 1694. Voltou ao Brasil no ano seguinte e foi obrigado a se estabelecer no Recife, onde morreu a vinte e seis de novembro de 1695. Em vida, sua obra permaneceu inédita, o que deixa dúvidas sobre a autenticidade de muitos textos a ele atribuídos. Sua suposta Obra completa só veio à luz entre 1923 e 1933 pela Academia Brasileira de Letras, sob a responsabilidade de Afrânio Peixoto, em seis volumes. Em 1969, James Amado organizou a primeira edição sem cortes ou reticências: Obras completas, sete volumes. As obras de Gregório consultadas para referências e citações desse estudo foram os volumes I e II, MATOS, Gregório de. Gregório de Matos: Obra poética. Crônica do viver baiano Seiscentista. Obra completa Códice James Amado – 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1999, indicadas por (GM v1) e (GM v2) e . Gregório de Matos Sátiras. Organização de Angela Maria Dias. Rio de Janeiro. Agir, 1990 (GM Sátira)
O estilo “boca do inferno”
Gregório de Matos foi denominado de “poeta maldito” e recebeu o cognome de “Boca do Inferno” devido à virulência de suas sátiras. Podemos, hoje, imaginar o poeta na Bahia improvisando versos, cantando à viola, caçoando de toda a gente, inclusive das autoridades. Essa fama de malcriado e irreverente marcou seu nome, a ponto de sua poesia satírica ser mais conhecida do que a lírica. Foi o maior satírico da Literatura brasileira, em versos.
O “poeta maldito” possui uma poética inventiva e original e, por isso, é considerado introdutor da linguagem coloquial, popular, mestiça, das ruas, na poesia brasileira.
O poema “Aos principais da Bahia chamados os Caramurus” (GM Sátira p. 99) é dedicado aos Caramurus, que eram os mestiços do Recôncavo. Por isso, Gregório de Matos o escreve com uma linguagem também mestiça: português, tupi, africano. Eis a poesia tipicamente brasileira ou tropicalista do poeta baiano:
Há cousa como ver um paiaiá
Mui prezado de ser Caramuru,
Descendente de sangue de Tatu,
Cujo torpe idioma é cobé pá.
A linha feminina é carimá
Moqueca, pititinga, caruru
Mingau de puba, e vinho de caju
Pisado num pilão de Piranguá.
A masculina é um Aricobé
Cuja filha Cobé um branco Paí
Dormiu no promontório de Passe
O branco era um marau, que veio aqui,
Ela era uma Índia de Maré
Cobpe pá, Aricobé, Cobe Paí.
(GM Sátira p. 99)
Havia no Recôncavo uma “fidalguia improvisada”, petulante, constituída pelos descendentes de Diogo Álvares Correia, o Caramuru. Esta “nobreza caramuru” negava suas raízes, suas origens indígenas ou africanas. Estes versos captam de forma brilhante o cotidiano da vida colonial e a linguagem coloquial da época.
O vocabulário tupi está evidente: Paiaiá significa Pajé, piago ou feiticeiro dos indígenas; Cobé pá é dialeto da tribo cobé, que habitava os arredores da Cidade da Bahia (Salvador); Carimá é bolo feito de mandioca; pititinga é peixe miúdo; caruru é planta alimentar, comida com peixe e camarões; marau é mariola, malandro, patife; Maré é nome de uma ilha do Recôncavo; Paí, pássaro cinzento cujo canto imita o nome.
O poeta explora a marcação tônica dos vocábulos indígenas (carimá, caruru, caju, Piraguá, Aricobé, Paí, Passé, aqui, Maré) para reforçar o grito primitivo da raça.
Os vocábulos indígenas refletem, ainda, a condição do bilinguismo no Brasil, que se manifesta desde o início da colonização, até os nossos dias.
O Baiano Gregório de Matos, abandonando a linguagem clássica, procura explorar a fala popular, a brasileira, “como somos, como falamos”. Lima Barreto, em O triste fim de Policarpo Quaresma também defendeu a fala do Brasil, se possível, até mesmo o puro Tupi, sem lusitanismo, sem arcaísmo.
Além da novidade linguística, este poema apresenta o fato de um soneto, clássico e barroco, ser composto por uma língua mestiça, o que causa grande contraste à linha europeizante.
Usando uma “língua brasileira”, além do tupinismo e africanismo, a poesia de Gregório de Matos está repleta de gírias baianas e termos chulos de toda a sorte. Corajosamente, dá início a uma linha de protesto e consciência nacional. Com sabedoria apresenta o diagnóstico dos males do Brasil, acusa os portugueses que exploravam barbaramente a Colônia, mas não poupa os brasileiros. Todos são impiedosamente satirizados pelo poeta: “Eia, estamos na Bahia, / onde agrada a adulação, / onde a verdade é baldão, / e a virtude hipocrisia”. (GM Sátira p. 36).
Gregório de Matos explorou com requinte a temática e estética barroca. Nos poemas líricos de fundo existencial, utiliza os lugares comuns universais do barroco (a brevidade da vida, a fragilidade da beleza) e chega a atingir, em alguns sonetos, um nível superior à alta média de qualidade da poesia de seu tempo. O mesmo se pode dizer de seus poemas de fundo religioso, nos quais o tema constante e o arrependimento tratado, às vezes, com uma certa “malandragem” típica do poeta – que não hesita em tentar enganar a Deus para salvar-se do inferno.
O mundo sugerido é impreciso, inexato. No Barroco, tal imprecisão é consequência da dúvida que vivifica o estilo seiscentista. Desta forma, a literatura barroca cultivou com frequência a sugestão de um mundo que não é perfeito. Daí a preferência pela estética do feio, do grotesco, do horrível, do macabro.
Gregório de Matos foi um mestre em caricaturar personalidades. Seus retratos são fotografias desfiguradas, descrições hiperbólicas e grotescas que apenas refletem a fealdade e o ridículo. “Os defeitos físicos, as situações indecorosas e sórdidas, os vícios repulsivos constituem temas frequentes da poesia barroca de caráter realista e satírico” (SILVA, V. M. A. (1998) p. 489). O nosso poeta, imbuído do espírito da arte barroca, descreveu governadores, padres e outros inimigos com desenhos deselegantes que suscitam o riso e o escárnio. O padre Damaso da Silva teve sua imagem assim reproduzida:
A cara é um fardo de arroz,
que por larga, e por comprida
é ração de um elefante
vindo da Índia.
[…]
A boca desempenada
é a ponte de Coimbra,
onde não entra, nem saem,
mais que mentiras
[…]
Não é a língua da vaca,
por maldizente, e maldita,
mas pelo muito, que corta
de Tiriricas.
(GM Sátira p. 59/60)
É interessante observar ao longo deste poema que o retrato do padre vai sendo pintado parte por parte: a cara, a boca, a língua, o corpanzil, as mãos, os ossos do pé configuram o “feitio” do padre. Em seguida, as últimas estrofes mostram o mundo interior do padre, a sua personalidade, o seu lado vil de homem ignorante, seguidor da lei do Mafona, que nos faz lembrar o padre de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida.
No retrato que fez da Bahia, o poeta captou o mais feio, as cenas mais truculentas e lúgubres possíveis, como se pode ver no poema “A terra, a gente”:
Toda a cidade derrota
esta fome universal,
uns dão a culpa total
a Câmara, outros à frota
[…]
Eles tanto em seu abrigo,
e o povo todo faminto,
ele chora, e eu não minto,
se chorando vo-lo digo:
tem-se cortado o umbigo,
este nosso General.
(GM Sátira p. 91/93)
Esta caricatura da sua cidade aparece ainda em vários poemas entre os quais, “Define a sua cidade”:
Se de dous f f composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia
a grande dano está posta
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter
se o furtar e o foder bem
não são os f f que tem
esta cidade a meu ver.
(GM Sátira p. 98/99)
Os aspectos ridículos, escabrosos e feios presentes na literatura de Gregório de Matos demonstram o barroquismo dos seus textos. Sobre este aspecto desagradável à vista, característica barroca por excelência, Vítor Manuel posicionou-se da seguinte maneira: “As cenas cruéis e sangrentas abundam igualmente na literatura barroca, traduzindo uma sensibilidade exasperada até o paroxismo que se compraz no horrorífico e no lúgubre, na solidão e na noite” (SILVA, V. M. A. (1998) p. 489)
O amor na estética barroca, de acordo com o crítico Vítor Manuel:
É considerado prevalentemente como gozo dos sentidos – gozo que o dinheiro compra, cínica e impudentemente – e não como um sentimento depurado e exaltador do espírito humano. A poesia gregoriana encontrou no estilo barroco uma perfeita forma de revelar os prazeres mundanos que marcaram a vida deste artista e da sociedade de sua época. (SILVA, V. M. A., 1998, p. 491).
Como amante, o poeta escreveu sobre mulheres idealizadas, sedutoras e perigosas; mulheres de carne e osso, prostitutas, mundanas, impregnadas de amor carnal. São as Beticas ou as Catonas, pardas ou mulatinhas de tal talento, / que a mais branca e a mais bela / deseja trocar com ela / a cor pelo entendimento. (p. 128). O amor do poeta arde na própria chama da sensualidade da arte barroca, um fogo incendido em mina, / faísca emboscada em pedra, / um mal, que não tem remédio, / um bem que se não enxerga. (GM Sátira p. 134) Um paradoxo, um completo contraste cheio de ornamentos e belezas, que, ao mesmo tempo, privilegia os aspectos feios e grotescos da existência.
A produção poética do maior poeta brasileiro do século XVII pode ser assim resumida: poesia de circunstância: satírica, em que encontramos a monocultura açucareira, a corrupção governamental, o arrivismo do colono, a opressão da Corte, a carestia da vida; poesia graciosa que trata de festas e fatos da Bahia; poesia economiástica que apresenta bajulações. Poesia amorosa: traz temas como o sensualismo, o carpe diem, e a exaltação sentimental. Poesia reflexiva: possui poética de cunho religioso, em que o homem aparece dividido entre culpa e perdão e o verso filosofante que trata do estar no mundo, da efemeridade das coisas. Poesia fescenina: versa sobre a sexualidade, exibe o grotesco, o escabroso e o chulo.
Notadamente barroco, Gregório de Matos cultivou tanto o estilo cultista, quanto o conceptista, usando jogos de palavras, ao lado de raciocínios sutis, sempre com o uso abusivo de figuras de linguagem e o dinamismo da estrutura dos contrários.
Sua capacidade de versejador assume formas variadas como sonetos (poemas de quatorze versos dispostos em dois quartetos e dois tercetos); décimas (estâncias ou estrofes de dez versos); romances (narrativa medieval, em prosa ou em verso, em que trata de personagens heroicas e dos seus feitos); coplas (pequena composição poética, geralmente em quadras, para ser cantada); glosas (composição poética, ordinariamente formada de quatro décimas, às quais servem de mote (tema) os versos de uma quadra ou décima única, no qual se inclui o mote de um ou dois versos) etc.
Gregório de Matos possui três modelos: Camões, Góngora e Quevedo. Sua poética mantém, portanto, compromissos com a Renascença maneirista e com o Barroco cultista e conceptista. Assim, a lírica amorosa anda de permeio com a lírica religiosa. Sua sátira desbocada e agressiva vem também da Espanha barroca, mas possui raízes medievais portuguesas e qualidades absolutamente próprias. A poesia economática explica-se pela habilidade versificatória e pelas circunstâncias de sua vida. Outra tentativa de classificação poderia ser: poesia erudita, fruto da formação literária do autor, em que predominam a lírica amorosa maneirista e a mística barroca e sonetos e oitavas de versos decassílabos; poesia popular, consequência de sua irreprimível necessidade de expressão, em que a supremacia é exercida pelos poemas satíricos, graciosos e licenciosos (obscenos), em redondilha maior (sete sílabas) e menor (cinco sílabas).
BOCA DO INFERNO
Do seu posto de intelectual, de homem observador e sensível, Gregório de Matos testemunhou e, posteriormente, registrou o drama do Brasil seiscentista. Seus versos documentam o estado lamentável da cidade da Bahia daquela época e revelam cenas infernais, onde a Colônia aparece ardendo no fogo da ganância, dos desmandos dos governadores e dos comerciantes. O poeta desnuda a sociedade corrupta, a vida dos ricos, pobres, brancos, negros e mulatos.
Na Bahia de Todos os Santos, as missas se sucediam intermináveis, o povo comparecia para expiar suas culpas, ao mesmo tempo em que os demônios aliciavam as almas para povoarem o inferno. O sagrado e o profano caminhavam de mãos dadas, a religiosidade celeste fazia contrapartida com o mundo das jogatinas, traições, simonias e prevaricações.
O “Boca do Inferno” fez uma crônica poética desse tempo. O poema denominado “Epílogos” (GM Sátira p. 94/97) exibe razões e conclusões sobre o drama da cidade da Bahia:
Que falta nesta cidade? Verdade
Que mais por sua desonra? Honra
Falta mais que se lhe ponha? Vergonha
O demo a viver se exponha
por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra e Vergonha.
(GM Sátira p. 94/97)
“Epílogos” é um retrato do Brasil Colônia. Esta fotografia é realizada por meio da montagem de nove quadros / partes. Cada quadro é composto por duas estrofes: um terceto e um quarteto, este, denominado epílogo. Na primeira estrofe, o poeta decompõe os vícios e enganos da sociedade; na segunda, apresenta o epílogo, ou seja, faz uma recapitulação, um resumo da situação criticada, finalizando com um remate bem gregoriano, cheio de sarcasmo, galhofa, injúria e, até mesmo, maldade.
O poeta utiliza a redondilha maior, da tradição medieval, para cantar as mazelas da província. Todos os tipos são didaticamente denunciados. Essa didática é alcançada via processo de disseminação e recolho, muito usado na poesia barroca, que consiste em espalhar certas palavras pelo texto e depois reuni-las no último verso.
Cada terceto apresenta três falsas perguntas que, ironicamente, são respondidas no quarteto abaixo. Este expõe uma breve dissertação nos três primeiros versos, enquanto o último recolhe os termos em questão e conclui a ideia.
O uso dessas retóricas, acrescidas da disseminação e recolho, a ironia do “poeta maldito” verte sátira e denuncia um mundo isento de valores morais como verdade, honra e vergonha. Apresenta uma sociedade dominada pelo negócio, ambição, usura e seus principais agentes: pretos, mestiços, mulatos, meirinhos, guardas e sargentos.
Podemos imaginar o “Boca do Inferno” declamando ou cantando em coro, estes versos, juntamente com seus colegas de boêmia. O poeta (mestre) fazendo as perguntas e os companheiros (discípulos) emitindo as respostas, depois, juntos, cantando a conclusão (epílogo).
Este texto é uma pintura realista e corajosa da sociedade. A galhofa tem seu ponto alto nas partes finais (quinta e sexta) quando são realizadas críticas a El-Rei e clerezia. O primeiro é acusado de oferecer uma “justiça” bastarda, vendida e injusta, o segundo é denunciado por prática de simonia (tráfico de coisas sagradas, espirituais) e por se ocupar com “freiras”, “sermões” e “putas”.
O audaz poeta ataca sem temor os desajustes administrativos, sociais e econômicos. No poema “Aos capitulares do seu tempo” diz francamente:
A nossa Sé da Bahia,
com seu um mapa de festas,
é um presépio de bestas,
se não for estrebaria:
várias bestas cada dia
vemos, que o sino congrega,
Caveira mula galega,
o Deão burrinha parda,
Pereira besta de albarda,
tudo para a Sé se agrega.
(GM Sátira p. 54)
O poeta reveste sua poesia de naturalismo ao transmitir imagens que desmascaram a sociedade e põe às claras a degradação daqueles tipos humanos. A sociedade é classificada como um “presépio de bestas” ou uma “estrebaria”, sendo, portanto, animalizada, bestializada. “A desfiguração do poder espiritual é reduzida ao nível e ao espaço animal. Os padres são caricaturados dentro do bestiário de asno” (FREITAS, M. E. P. (1981) p. 86).
A patologia está consignada nas décimas referidas “Ao cura da Sé que naquele tempo, introduzido ali por dinheiro, e com presunções de namorado satiriza o poeta como criatura do prelado.” (GM Sátira p. 55)
A cura, a quem toca a cura
de curar esta cidade
cheia a tem de enfermidade
tão mortal que não tem cura:
dizem, que a si só se cura
de uma natural sezão
(GM Sátira p. 54/55)
As sete décimas deste poema relatam o caso de uma cidade atormentada por enfermidades físicas e espirituais. Uma cura recebeu a incumbência de salvar a aldeia. Ironicamente, o tal padre trouxe mais doenças e males para aquela Sé.
O texto é marcado pelo ludismo, isto é, pela brincadeira com a linguagem expressa através do trocadilho: O Cura, a quem toca a cura / de curar esta cidade… O poeta brinca ironicamente com a ambiguidade da palavra cura: primeiramente, significa vigário, pároco de uma aldeia, Sé; depois, ação ou efeito de curar. Contrariando os dogmas e a semântica, o dito santo padre era um “santo ladrão”, um engodo que praticava simonia e não curava alma nem corpo. Era um beato maligno, um paradoxo vestido de Cura.
O naturalismo carnavalizante de Gregório de Matos tem sua fonte nas imagens da cultura cômica popular do “baixo material corporal. Portanto, o uso do grotesco em sua sátira visa pôr em ridículo as suas vítimas e trazer à praça o riso pelo destronamento de tudo o que é fixo, imutável, oficial” (FREITAS, M. E. P. (1981) p. 91).
O mundo às avessas
Gregório de Matos transfigura, em seus versos, uma visão pessimista de mundo. A sociedade divulgada é doente, enlouquecida, errada, às avessas. Observe o soneto “Queixa-se o poeta em que o mundo vai errado, e querendo emendá-lo o tem por empresa dificultosa”.
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
[…]
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
(GM Sátira p. 28)
Convivendo com os insanos, o poeta torna-se impotente e conclui que é impossível emendar o mundo: Que é melhor neste mundo o mar de enganos / Ser louco cos demais, que ser sisudo (GM Sátira p. 29).
Diante do exposto, para não ficar à margem dessa sociedade ensandecida, o “poeta maldito” liberou seus demônios e tornou-se um libertino. Sua linguagem poética ecoou louca, obscena, livre de preconceitos, festiva, lúdica, satírica, para mostrar o mundo às avessas, como é, realmente, sem máscaras.
O irreverente artista encontrou, na ironia e na sátira, a exata fórmula de demonstrar os desacertos do mundo. A esse respeito, Maria Eurides P. de Freitas pronunciou-se:
Em Gregório de Matos, o gosto de satirizar e de quebrar o bloco do imutável e normal dos acontecimentos na sociedade, os escândalos da palavra inconveniente, os gracejos, os desmascaramentos, as paródias e os rebaixamentos são aspectos que denunciam ser a sua arte fundada na visão carnavalizada do mundo, que as injúrias – verdades, ditas a respeito do velho poder, assemelham-se aos disfarces e desmascaramentos carnavalescos.
O riso que sua obra provoca pela sensação carnavalesca do mundo, destrói o sério e todas as pretensões a uma significação superior e realiza o afrouxamento da consciência da imaginação e do pensamento. (FREITAS, M. E. P., 1981, p. 73)
Acrescento ainda que Gregório de Matos vê o mundo como um grande palco, onde é representada uma comédia que, definitivamente, não é divina, mas diabólica. Nesse espetáculo, os atores representam a própria história. Entre os astros mais ressaltados estão os governos corruptos, os administradores ladrões, o clero hipócrita, o frade canastrão, os fidalgos mulatos, os letrados burros e pícaros.
Assim, o poeta transmite uma visão carnavalesca da sociedade, onde o não-oficial é liberado e as relações hierárquicas, regras e tabus são dissolvidos para dar lugar a um mundo às avessas, livre, despudorado, zombeteiro, festivo, galhofeiro, risível, palhaço, brincalhão, colorido, real, sem hipocrisia e representa a alma da coletividade, a vida do povo. É a representação da vida de uma forma que foge à lógica aparente, mas é a verdadeira.
O poeta diz verdades que são proibidas, mas que no texto satírico são liberadas e popularizadas no riso festivo e universal. O que deveria ser sério e sagrado aparece como galhofa e heresia. As cortinas do palco são abertas para dar lugar aos paradoxos: padre maligno, administrador desonesto, letrado burro e governador desordeiro. Tais absurdos são elementos normais e revestidos de banalidades. O ludismo gregoriano atenua o que poderia ser dramático, e acrescenta colorido e alegria aos contrastes que marcam a vida humana. Verifique o jogo de oposição apresentado nos versos:
Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.
[…]
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver pode ser Papa.
(GM Sátira p. 38/39)
Estes versos trazem contrastes que revelam detalhes da vida desde os tempos mais remotos, pois é público e notório que quanto mais rico, mais ganancioso, quem mais limpo se faz tem mais sujeira. As contradições apresentadas são tão comuns e verdadeiras quanto absurdas e, além de tudo, hodiernas, universais.
CARICATURA DO PODER
A obra de Gregório de Matos foi marcada pelas imitações grosseiras, cujo objetivo era ridicularizar os poderosos.
Dois governadores ficaram na história da poesia satírica brasileira. O primeiro foi Antônio de Sousa Meneses, vigésimo quinto governador e capitão-general do Brasil, o temível “Braço de Prata”, alcunha que teve por base o fato de o governador usar uma peça desse metal em lugar do braço perdido numa batalha naval contra os invasores holandeses.
Por suas sátiras aos donos do poder e por seu envolvimento com inimigos do governo, Gregório de Matos e Guerra foi perseguido pela fúria brutal do “Braço de Prata”.
Vários poemas caricaturam Antônio de Sousa Meneses. Os versos da “Descrição, entrada, e procedimento do Braço de Prata Antônio de Sousa Meneses Governador deste Estado”. (GM Sátira p. 67/72) exemplificam as deformações ridículas oferecidas a Dom Antônio. Entre as descrições extravagantes estão: “O bigode fanado feito ao ferro / …olhos cagões, que cagam sempre à porta / …De muito cego, e a não de malquerer / A ninguém podes ver; / …Chato o nariz de cocras, sempre posto; / Te cobre todo o rosto, / …És fábula do lar, riso da praça, / Té que a bala, que o braço te levara, / Venha segunda vez levar-te a cara”. Desta forma, o poeta satírico denota a sua oposição ao ditador, fazendo-lhe caricatura, desentronizando-o do alto de seu poder.
O segundo governador, vítima do sarcasmo do “Boca do Inferno”, foi Antônio Luís da Câmara Coutinho, governador geral do Brasil, de 1690 a 1694. Eis o “Retrato que faz extravagante o poeta, ao mesmo governador Antônio da Câmara na sua despedida”. (GM Sátira p. 73/78)
Vá de retrato
por consoantes
que eu sou Timantes
de um nariz de tucano
pés de pato
pelo cabelo
começo a obra.
(GM Sátira p. 73)
O poeta descreveu o “Senhor Tucano” como um hércules quasímodo, uma personagem monstruosa que possuía “pés de pato”, “giba de camelo”, “olhos baios”, “sobrancelha à semelhança de vassoura esparramada”, “nariz de embono”, “garganta de voz fanchona” (voz de mulher), “corcunda”, “um caracol que traz a casa às costas”, “pernas, dois rolos de tabaco já podre e fedorento”.
No romance denominado “Apologia cavilosa em defesa do mesmo governador Antônio Luís” (GM Sátira p. 79/82), o governador geral do Brasil foi denominado de “sodomita”, “fanchono”, “vilão ruim” etc. Em outros poemas, mesmo não constando desta seleção, foi classificado de “bronco”, “corcova de canastrão”, “hiena que falava com putana”, “maligno desde o tronco”, “que tinha os criados sempre aferrolhados para o pecado mortal”, “jumento” e “homossexual”.
Estes retratos grotescos dos governadores da Bahia lembram à caricatura do Presidente Floriano Peixoto feita por Lima Barreto em Triste fim de Policarpo Quaresma. A imagem do presidente ditador, autoritário, injusto aparece sem retoques, feita com o exagero necessário para suscitar a sátira ao poder instituído no Brasil naquela época. Por meio dos questionamentos de Policarpo Quaresma, Lima Barreto evidencia o abuso de poder de Floriano Peixoto e faz o retrato caricato não só do presidente como o da situação reinante naquele momento histórico.
Esse conjunto caricatural virulento levou o “Boca do Inferno” à prisão e ao degredo em Angola. A perseguição e posterior degredo a que foi condenado inspiraram poemas como o soneto “Desempulha-se o poeta da canalha perseguidora contra os homens sábios, cantando benevolência aos nobres”. (GM Sátira p. 111) em que ele questiona:
Que me quer o Brasil, que me persegue?
Que me querem pasguates, que me invejam?
[…]
Com seu ódio a canalha, que consegue?
Com sua inveja os néscios que motejam?
(GM Sátira p. 111)
Na sua despedida, sem perder oportunidade para soltar seu veneno em direção aos poderosos e aos nobres, diz o poeta no longo poema “Embarcado já o poeta para o seu degredo, e postos os olhos na sua ingrata pátria, lhe canta desde o mar as despedidas”. (GM Sátira p. 111/115)
Adeus praias, adeus cidade
[…]
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo da nobreza
tábula, em que se não se dá.
(GM Sátira p. 112)
Além dos governadores, outro retrato cruel registrado pelo poeta teve como modelo o vigário de Passé Lourenço Ribeiro. “Clérigo e pregador, mulato natural da Bahia, constitui o mote desta sátira por ter, anteriormente, mofado, em público, dos versos de Gregório” (GM Sátira p. 62).
O poema cheio de rancor conceitua o sacerdote de “Canaz”, “Cão revestido de padre”, “cachorro pregador”, “podengo asneiro”, “mondongo”, “sangue de carrapato”, “mentecapto”, além de expressões chulas como “que me importa um branco cueiro” / “se o cu é tão denegrido”.
Em Gregório de Matos “os rebaixamentos assumem sempre aspectos grosseiros, seja na rude palavra, no epíteto violento, na ironia ferina. É por elas que o poeta arremessa flechas para a direita e para a esquerda”. (FREITAS, M. E. P.(1981), p. 105). O texto gregoriano é revestido de um realismo afetivamente carregado, rancoroso e sarcástico. O poeta é um especialista em caricaturar o indivíduo em uma situação. Por meio desses aspectos, denuncia os poderosos, inclusive a clerezia santificada, denúncia que está também apresentada de forma caricaturesca no romance de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias. Os textos do poeta barroco e do romancista romântico, embora em épocas distintas, século XVII e XIX, atacam o clero, expondo o ridículo do falso sacerdote, “que podia por si só fornecer a Bocage assunto para um poema inteiro… pregador que buscava sempre por assunto a honestidade e a pureza em todo o sentido; porém interiormente era sensual como um sectário de Mafona.” (ALMEIDA, M. A. De, (1998) p.27). Gregório vê esses mestres-de-cerimônias como “Zotes de Requiem”, “Mariolas de missal”, “Lacaios de missa cantante”, “ganhões de altar”, “Orate frates”. Os dois artistas desmascaram a falsa santidade clerical em cenas ridículas e de situações comprometedoras.
Desta forma, usando de rebaixamentos grotescos, termos de baixo calão e imagens carnavalizantes, o poeta baiano desmascara os governadores, a Igreja, os corruptos, os donos do poder e da verdade do Brasil.
A LINGUAGEM LIBERTINA
Gregório de Matos revestiu sua sátira de uma língua livre de preconceitos, festiva, libertina, obscena.
Sua poesia fescenina, que não evita os termos mais chulos e as cenas mais escabrosas, toma-o como que um herdeiro do espírito das cantigas de escárnio e maldizer.
A palavra “fescenino” provém do latim: adjetivo relativo a um certo tipo de verso licencioso da antiga Roma do qual teria originado a sátira. A este tipo de verso costuma-se chamar “escatológico” (adjetivo relativo a excremento) ou sotádico (Sótades, poeta grego, obsceno, do séc. III a.C.). É difícil encontrar poesia fescenina tão contundente quanto a de Gregório de Matos. Convém revelar que a poesia sotádica agrada muito aos intelectuais e é comum na obra dos maiores poetas da História.
A glosa em que o poeta “Define a sua cidade” (GM Sátira p. 98/99) pode exemplificar a libertinagem do famoso baiano. O texto traz o seguinte mote: “De dous f f se compõe / esta cidade a meu ver / um furtar, outro foder”. A partir do pensamento expresso nesses versos, Gregório de Matos ridiculariza sua cidade e não se intimida em dizer abertamente palavras proibidas.
Sua “musa picante”, ou seja, seu veio satírico fez maravi, maravi, maravilhas (GM Sátira p 59) de libertinagens ao descrever o clérigo Padre Damasco da Silva (GM Sátira p. 58/62). Entre os termos e frases desregradas estão as que dissecam o corpo do vigário: “a cara é um fardo de arroz, a boca é a ponte de Coimbra, língua de vaca pelo que corta de tiriricas”; ou ainda a sátira endereçada ao vigário de Passé Lourenço Ribeiro que apresenta expressões grosseiras como o cu é tão denegrido (GM Sátira p. 64).
Devemos lembrar, ainda, as memoráveis qualificações dirigidas ao governador Tucano “sodomita”, “fanchono”, “jumento de mãos guadunhas”, “puta dos calções” e outras palavras e frases de alta obscenidade.
Nenhum outro poeta brasileiro possui tão atrevida força de expressão e tamanha coragem de dizer palavras tabus, coisas proibidas que moram na alma popular. Este poeta “maldito” deixou para a literatura brasileira um legado de versos picantes, porém corajosos, verdadeiros e imortais.
A MULHER E O AMOR
A mulher, seja Ângela, Angélica, Anastácia, Maria, Maricota, Jacutinga; branca, negra, rica ou pobre, todas elas encantaram o poeta e sua poesia.
O poeta teve entre suas amantes várias negras e mulatas, suas principais musas. São Angelitas, Beticas, Catona, Helenas, Inácias, Joanas: quase todo o ABC de outros nomes está registrado na lira gregoriana; são heroínas de romances e “símbolos de exuberância da terra e da língua num modo poético brejeiro, verso de injúria e louvores à mulher real, palpável” (FREITAS, M. E. P. (1981) p. 98). Nos versos dos romances, o poeta registra sua preferência:
Crioula da minha vida,
Supupema da minha alma,
bonita como umas flores,
e alegre como umas páscoas,
Não sei que feitiço é este,
que tens nessa linda cara,
a gracinha, com que ris,
a esperteza, com que falas.
(GM Sátira p. 122)
Como era de se esperar de um coração de tantas contradições barrocas, o amor em Gregório de Matos recebe duplo tratamento: contemplação platônica à maneira de Camões e Petrarca e concupiscência terrena voltada às crioulas da Bahia. Prevalece a segunda modalidade.
O soneto em que o poeta “Pondera agora com mais atenção à formosura de D. Ângela” (GM v1p. 403) é um exemplo do platonismo do amor impossível de ser atingido em razão dos perigos inerentes a esse sentimento:
Não vi em minha vida a formosura,
Ouvia falar dela cada dia,
E ouvida me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura.
Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma Mulher, que em Anjo se mentia,
De um Sol, que se trajava em criatura.
Me matem (disse então vendo abrasar-me)
Se esta a cousa não é, que encarecer-me
Sabia o mundo, e tanto exagera-me.
Olhos meus (disse então por defender-me)
Se a beleza hei de ver para matar-me
Antes, olhos, cegueis, do que perder-me
(GM v1p. 403)
A beleza angelical da mulher/amor provoca a perdição do “eu” lírico. O poeta experimenta sensações contraditórias, paradoxais. Ao sentir-se atraído pela beleza angélica, afasta-se com medo de perder-se no pecado desse amor avassalador, do anjo-demônio, bem-mal, Deus-diabo, céu-inferno, vida-morte.
O soneto está voltado mais para o sensorial, para o jogo de imagens que retratam o reflexo de uma beleza estonteante e está inserido no estilo cultista, uma vez que este se manifesta como uma resposta a uma atitude emotiva, sentimental, sensorial, perante o mundo. O uso intenso de figuras de linguagem e de jogos de palavras realça, ainda mais, o gongorismo. As palavras “Mulher”, “Anjo”, “Sol”, e criatura, por exemplo, estão dispostas em forma de um “X”, formando um cruzamento de imagens denominado quiasmo e com inicial maiúscula, para inserir propriedade aos nomes. A amada é ao mesmo tempo uma Mulher-Anjo-Sol, uma pessoa que possui o atributo de ser celeste e iluminada a partir do próprio nome, num jogo intrínseco da própria essência do nome. Também nesse jogo em torno do nome e seus predicativos está ludismo do cultismo barroco. O poeta brinca com as palavras enquanto define e dispõe seus encantos em torno da mulher amada.
Na lírica gregoriana, o amor foi definido como um sentimento que traz, na essência, o paradoxo, amplamente conceituado por Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver / É ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer. (CAMÕES, L. V. (1980) p. 11). “O amo é um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói não sei porquê” (CAMÕES, L. V. (1980), p.12). Na lírica amorosa, o tom parodístico prevalece, uma vez que, imitando o poeta português, Gregório de Matos conceitua o amor, através da antítese e do paradoxo; também para ele o “Amor é fogo” (GM Sátira p. 129). Para o poeta baiano, o amor é “Uma hidropsia da alma / da razão uma cegueira, / uma febre da vontade / uma gostosa doença. / Uma ferida sem cura, / uma chaga, que deleita, / um frenesi dos sentidos, / desacordo das potências” (GM Sátira p. 133); ou ainda, sem paradoxos, simplesmente:
O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas
quem diz outra coisa, é besta.
(GM Sátira p. 137)
Na sátira, o amor é dessacralizado e aparece como “um pecado, safado, debaixo do cobertor”, mas ao falar das origens do amor, relacionando-o com Cupido e com Vênus, ainda no poema “Definição de amor”, o poeta afirma que “Outros, que fora ferreiro / seu Pai, onde Vênus bela / serviu de bigorna, em que / malhava com grã destreza”. (GM Sátira p.129)
Neste poema, Gregório de Matos apresenta uma definição do amor usando uma espécie de poesia denominada “romance”, cuja narrativa em versos traz uma retrospectiva da história do amor, suas proezas, dores e prazeres. O tom da paródia prevalece em todo o poema, já que as marcas do lirismo camoniano permanecem, apesar do tom pessoal e, às vezes, brincalhão, do “poeta maldito”.
O BARROCO
Em meados do século XVII, inúmeras crises convulsionaram o Ocidente, entre elas, a crise religiosa, com a Reforma de Lutero e Calvino, e o rompimento de Henrique VII com o Papa, declarando-se chefe da Igreja Anglicana.
Os católicos reagem, convocam o Concílio de Trento e restauram os tribunais da Inquisição. Inicia-se a Contrarreforma, que tenta restabelecer o prestígio da Igreja e a disciplina religiosa.
A harmonia e o equilíbrio renascentista esfacelam-se. Fruto da ideologia da Contrarreforma, surge o Barroco, movimento que acaba por refletir os conflitos e o sentimento dilemático da época, como veremos a seguir.
Barroco: Arte da Contrarreforma
O Barroco é a expressão da dualidade cultural gerada pela Contrarreforma: humanismo renascentista (valorização da cultura pagã greco-latina) e a religiosidade tridentina (cultura medieval). A tentativa de conciliar o humanismo renascentista e o espiritualismo medieval resultou numa tensão entre forças opostas: o Antropocentrismo e o Teocentrismo.
A procura da conciliação ou do equilíbrio entre ambas equivale à procura de uma síntese que, em resumo, é o próprio estilo Barroco.
Características principais
O dualismo barroco coloca em contraste elementos como matéria e espírito; bem e mal; Deus e Diabo; céu e terra; pureza e pecado; alegria e tristeza; vida e morte; juventude e velhice; claridade e escuridão etc., refletindo um uso excessivo de antíteses e paradoxos. A consciência da transitoriedade da vida e da degeneração física e moral traduzem uma visão pessimista e um sentido trágico da existência.
Diante da dúvida e da incerteza, a literatura barroca não pretende proporcionar um retrato claro e direto da realidade e, sim, referir-se a ela de tal modo indireto e contorcido que mais se realce a maneira de representar do que propriamente o representado. Isso se nota pelo reiterado uso da metáfora (fuga ao termo próprio e adoção de um outro que mantém semelhança imaginária com aquilo que ele designará) e da perífrase (torneio ao redor do termo próprio e adoção de muitas palavras para evitá-lo). Assim, a literatura barroca é, antes, a arte da sugestão do que da nomeação, precursora, por isso, do Romantismo, Simbolismo, Impressionismo e outras correntes contemporâneas.
Há duas tendências do estilo Barroco em literatura: uma mais voltada para jogos com as imagens e com os sons das palavras, chamada cultismo (ou gongorismo); outra mais intelectual, voltada para jogos de conceitos sutis e uso de trocadilhos, chamada conceptismo (ou Quevedismo).
O Brasil na Época Barroca
Não era boa a situação do Brasil-Colônia ao longo do século XVII: os portugueses não demonstravam amor à terra e exerciam uma exploração predatória; os jesuítas cuidavam da educação e dominavam a mentalidade; a imprensa estava proibida e grandes latifúndios mantinham as rédeas do poder. A atividade agrícola mais importante era o cultivo da cana-de-açúcar e nada se podia fabricar aqui; os portugueses mantinham o monopólio do comércio, e os jesuítas mantinham o monopólio da cultura.
De acordo com Amauri Sanches, “o ambiente de que o Brasil se pôde dotar – cujo centro administrativo era a Bahia não propiciava o florescimento da arte. Sem um processo orgânico de cultura não haveria campo para a atividade literária e sistemática” (SANDEZ, A. M. T. (1982) p. 80).
O que se fez durante a época em que o Barroco predominou como estilo acabou tendo caráter quase eventual: foi produzido um conjunto de textos decorrentes do fato de portugueses e brasileiros, sensíveis para a literatura, terem iniciado ou continuado a obra literária resultante da formação cultural que traziam da metrópole (os brasileiros abastados concluíam os estudos em Portugal).
Desta forma, durante os 150 anos em que o Barroco marcou nossa literatura, a sociedade brasileira era ainda bastante semelhante àquela sociedade atrasada do século XVI, que não favorecia a arte literária: vivíamos ainda sob o regime colonial que dificultava nosso desenvolvimento cultural; não tínhamos unidade devido ao isolamento das capitanias; os meios de comunicação com Portugal eram mais frequentes que entre as próprias cidades do Brasil.
Entretanto, independente dos empecilhos para a formação cultural brasileira, foi nesse período – no Barroco – que surgiu nosso primeiro grande poeta: Gregório de Matos e Guerra, cujo talento venceu os bloqueios ambientais, escrevendo poemas de alto valor literário.
CONCLUSÃO
Gregório de Matos é o mais importante poeta brasileiro do Barroco e um dos exemplos mais expressivos do comportamento da época.
Refletindo o dualismo barroco, ora demonstra a aversão que sente pelo clero, ora revela uma profunda devoção às coisas sagradas, ora produz versos pornográficos, sensuais e eróticos.
Graças à linguagem maliciosa e ferina com que critica pessoas e instituições da época (não dispensando palavras de baixo calão), recebeu o apelido de Boca do Inferno. Em suas sátiras não investe apenas contra os poderosos, mas contra o ser humano que considera inepto, corrupto e mau.
A poesia lírica de Gregório de Matos ora celebra o sensualismo africano, ora o erotismo nativista, ora vincula-se à tradição renascentista. Seus poemas religiosos (não incluídos nesta seleção) revelam a inquietação do homem diante da divindade e da consciência da fragilidade e da pequenez dos mortais.
A lira do poeta baiano canta as “torpezas do Brasil, vícios e enganos” e apresenta a cidade da Bahia do seu tempo como uma metonímia do mundo, conferindo à sua poesia um tom universalizante, o que faz reluzir, ainda mais, o brilho desse brasileiro que, por ter estilo e veia poética, ficou na História da nossa literatura. Quem conhece os versos de Gregório de Matos e Guerra jamais esquece a sabedoria e a irreverência que deles emanam.

Profa. Dra. Maria de Fátima Gonçalves Lima é autora de 50 obras, ensaísta, crítica literária, escritora de obras da literatura infanto-juvenil, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras – Literatura e Crítica Literária – Mestrado e Doutorado da PUC Goiás e Titular da Cadeira nº 5 da Academia Goiana de Letras (AGL)

