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Rui Martins

Não houve o milagre esperado por tantos evangélicos, apesar de tantas orações, ainda diante dos quartéis — Jair Bolsonaro está preso e não fará mais comícios monstros e nem motociatas. O verde-amarelo trajado por seus seguidores entrou em recesso e só voltará a ser usado nos mundiais de futebol, enquanto as bandeiras voltarão aos seus mastros, depois de usadas indevidamente durante alguns anos.

Flopou a última manifestação convocada por Flávio Bolsonaro com o objetivo de permitir a fuga do pai Bolsonaro, pois Jair já tivera sua prisão domiciliar anulada, depois de tentar abrir a tornozeleira com um maçarico. Terminou quase em comédia a carreira política de quem prometia resistir e só ser preso morto. Foi cômica sua explicação de ter forçado a tornozeleira sob influência de barbitúricos, lembrando as antigas desculpas de bêbedos nas delegacias.

Rei morto, rei posto, equivale a presidente preso é carta fora do baralho. Uma parte da mídia comenta o alvoroço da matilha de lobos para pegar um pedaço da força eleitoral do “imorrível” e não deixá-la só com a família, também dividida entre madrasta e filhos de Bolsonaro.

Bolsonaro, embora inelegível, acreditava num milagre pelo qual ainda poderia se candidatar e voltar a ser presidente, tomando Donald Trump como exemplo. Por isso, não nomeou seu sucessor, nem filho, nem Michelle e nem Tarcísio. Quem lhe teria soprado no ouvido a possibilidade de tal milagre, ao qual se agarrou com tanta fé? Teria sido Silas Malafaia, o fiel divulgador da teologia do domínio, importada dos Estados Unidos, onde até agora parece funcionar com Trump, o escolhido de Deus?

Sem um sucessor escolhido antes de ser preso, o bolsonarismo poderá se esfacelar, talvez permitindo à direita abandonar a mistura político-religiosa construída pela extrema direita, uma das hipóteses de Reinaldo Azevedo que, durante anos, combateu Bolsonaro de sua trincheira no Uol.

O fim do mito Bolsonaro permitiu aos influenciadores de talento, como Álvaro Borba, unir críticas com inteligência. Borba começa seu vídeo no canal Arvro com o rosto de uma mulher chorando desesperada e clamando que sua profecia (na verdade sua praga) contra Lula da Silva tinha caído sobre Bolsonaro. Motivo para Arvro falar da deturpação da mensagem evangélica por Bolsonaro e seus seguidores, se referindo à crente que começa a perder a fé em Deus “está difícil de ser crente”, mas ainda acredita no Jair.

No Uol, o comentarista Josias de Souza abordou o aspecto político, o que representa para o Brasil a prisão do ex-presidente, cujo processo representa o ponto mais próximo que o Brasil já chegou da sua plenitude democrática.

Também excelente a análise da carreira do militar e do político Bolsonaro, no canal Youtube do jornalista Bob Fernandes, contando como o ex-presidente defendia mesmo na tevê a tortura, a guerra civil, a morte de umas 30 mil pessoas começando pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sem que nada lhe acontecesse. Bob Fernandes enumera todos os crimes defendidos por Bolsonaro que, finalmente, serão punidos com a tentativa de golpe de Estado.

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.