Goiânia luxuosa: o alto padrão na moda que entra sem fazer barulho
24 janeiro 2026 às 21h00

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Em Goiânia, há roupas que não passam pela vitrine. Não pedem luz direta, não disputam atenção com o fluxo do shopping, não se oferecem ao acaso. Elas chegam em silêncio, e partem do mesmo jeito. Custam R$ 15 mil, R$ 20 mil reais. Às vezes mais. E raramente pedem explicação. O luxo vestível da cidade não grita. Ele reconhece quem entra. Nesse mercado, a moda deixou de ser compra e virou gesto.
Um acordo tácito entre quem vende, quem escolhe e quem veste. A peça não está ali para convencer ninguém; ela espera ser reconhecida. Quando isso acontece, o preço perde protagonismo. Torna-se detalhe técnico, não assunto.
Há um tempo, esse consumo era atribuído à viagem internacional, à mala trazida de fora, ao “comprei em Paris”. Hoje, Goiânia já sustenta esse circuito internamente. A cidade aprendeu a vestir o próprio crescimento, e o fez sem espalhafato.
Quem frequenta esse mercado não entra para “olhar”. Entra para continuar uma conversa iniciada muito antes, com a loja, com um personal stylist, com a própria imagem. O preço, quando aparece, é detalhe técnico. O valor já foi entendido.

Como funciona o mercado
Nesse universo, vestir não é apenas cobrir o corpo. É alinhar narrativa. A roupa comunica posição, intenção e, sobretudo, pertencimento. Não se trata de ser visto, mas de ser reconhecido por quem importa.
Por trás do silêncio elegante, há uma engrenagem bem definida. O mercado de roupas de alto e altíssimo padrão em Goiânia funciona por curadoria, relacionamento e acesso, não por volume. As lojas operam com estoques reduzidos, peças limitadas e atendimento individualizado. Em muitos casos, roupas de valores elevados não chegam a ser expostas. São reservadas, apresentadas sob demanda ou direcionadas a clientes específicos. O atendimento costuma ocorrer até mediado por personal stylists ou consultoras de imagem.
Um exemplo disso é a loja comandada por Ivana Menezes, que atua há mais de 30 anos no vestuário e se tornou referência no segmento de moda festa de alto padrão. “Hoje, um dos nossos diferenciais no mercado é a moda festa. A gente já trabalha há 32 anos com vestuário. Começamos com moda casual e, depois de uns dez anos, implementei a festa”, explica Ivana.

Segundo ela, o movimento acompanhou uma demanda crescente por roupas mais elaboradas, voltadas a eventos sociais de grande visibilidade. A loja passou a concentrar vestidos para casamentos, formaturas e ocasiões especiais, trabalhando com criadores nacionais e estrangeiros.
“Hoje eu trabalho com os melhores designers do Brasil e também importo algumas peças. Tenho designers de fora que eu acompanho”, afirma. O foco, segundo a empresária, é a exclusividade. “São peças únicas, que vão realmente valorizar qualquer festa.”
Ivana observa que o comportamento da cliente mudou. Mais do que vestir uma grife reconhecida, há uma busca clara por singularidade. “A pessoa quer estar elegante, mas também exclusiva. Mulher é muito disso. Se chega numa festa e tem alguém parecido, já gera incômodo. Mesmo que seja uma marca de grande luxo”, diz.

Nesse mercado, o preço existe, mas não é o único fator determinante. Ivana evita associar luxo apenas ao valor monetário. “Luxo nem sempre quer dizer o mais caro ou o mais barato. É escolher a peça certa para o tipo de corpo, a cor certa”, afirma.
Ainda assim, os valores ajudam a dimensionar o segmento. “A gente trabalha com vestidos que vão de R$ 3 mil a R$ 20 mil. Existe uma gama grande de opções dentro disso.” Segundo ela, o atendimento também passa por ajustar expectativa e orçamento.
“Aqui é sobre encaixar o orçamento. Se a cliente fala que quer vestir algo de R$ 2 mil, a gente também resolve”, explica. A lógica, diz Ivana, é fazer com que a cliente se sinta confortável, financeira e simbolicamente. “O mais importante é a mulher se sentir única, exclusiva, linda da cabeça aos pés.”

Do improviso à curadoria
O paradoxo do luxo em Goiânia é simples: quanto mais caro, menos ostensivo. As etiquetas diminuem, os cortes refinam, as cores silenciam. O status não precisa de anúncio; ele se manifesta no caimento, no acabamento invisível, na ausência de pressa.
Há uma ética implícita nesse consumo: repetir menos, comprar melhor, errar menos. E, sim, há eventos. Casamentos, festas, celebrações que pedem figurino à altura. Jantar fora, reuniões, viagens. O extraordinário virou hábito. Mas quem veste esse luxo?
A procura por consultoria de imagem e personal styling deixou de ser um luxo episódico e passou a integrar estratégias de posicionamento profissional e social em Goiânia. É o que avalia a stylist, especialista em moda e neurociência comportamental Lorena Cantanhede.

Segundo ela, quem contrata hoje um personal stylist busca, sobretudo, “construir uma imagem de sucesso”. “Vai desde pessoas com alto poder aquisitivo, que querem se mostrar dentro desse padrão, até aquelas que precisam de assessoria para almejar outros níveis”, afirma ao Jornal Opção.
Para ela, houve uma inflexão importante nos últimos anos: a imagem deixou de ser uma imposição externa e passou a ser percebida como necessidade prática. “As pessoas têm mais consciência da importância da imagem pessoal. Antes era muito imposto; hoje, elas buscam porque entendem que é relevante”, diz.

Essa mudança também alterou a própria lógica da moda. Lorena rejeita a ideia de “ditadura do vestir”, em que o consultor determina o que o cliente deve usar. “Não dá para impor. A roupa precisa ‘casar’ com a pessoa. Se não, vira uma máscara e aquilo é facilmente desmontado”, observa.
Para ela, moda de alto valor não é só tendência: é estratégia. “É uma construção de projeto em que a roupa é ferramenta. Envolve comportamento, comunicação e narrativa coerente.” O preço, claro, entra na equação, mas não como fator isolado.
“Elegância é imagem somada ao comportamento. Há pessoas extremamente elegantes que não gastaram muito”, afirma. Ainda assim, ela reconhece que marcas e materiais comunicam alto valor de forma imediata.
“Não precisa de logo explícito. O caimento, a estrutura, o tecido nobre falam por si e colocam a pessoa num patamar alto.” Em Goiás, o consumo de alto padrão ajuda a explicar a expansão do serviço. Lorena cita a rapidez com que marcas de luxo vendem no Estado.

“Pop-ups de grifes vendem em horas. Goiás está entre as maiores porcentagens de consumo de alto padrão”, diz. No que se refere à consultoria, os valores variam conforme o escopo do trabalho.
“É um serviço mensal e extenso. Pode começar em dois mil reais e chegar a 50 mil, 60 mil, dependendo do cliente e da importância dessa construção de imagem.” Embora a demanda por looks para eventos exista, a tendência predominante é a gestão contínua da imagem.
“Consultoria de imagem trabalha o todo; personal stylist monta eventos. Hoje, em Goiânia, vemos muito mais acesso à consultoria do que a demandas pontuais”, afirma. Ela mesma atua nas duas frentes, mas destaca que o cotidiano é central.
O perfil dos clientes reflete essa lógica: cerca de 80% atuam em áreas diretamente ligadas à visibilidade pública. “Políticos, advogados, corretores de imóveis, cantores. Muitas vezes, trabalho via gravadoras”, enumera. Os outros 20% são profissionais que não lidam diretamente com exposição, mas buscam diferenciação. “Mesmo quem não aparece em vídeo precisa entender que a imagem é cartão de visita.”

A neurociência ajuda a explicar por quê. Lorena aponta que o cérebro humano decide em frações de segundo se alguém é confiável. “Nosso cérebro tem mil segundos para identificar perigo. Primeiro, a imagem joga sinais para o córtex; só depois vem a racionalização. A voz e a apresentação vêm depois”, explica.
Por isso, a primeira impressão tende a se fixar. “Você pode gastar muito mais energia para provar competência se a imagem inicial não comunicou credibilidade.” Para a especialista, esse entendimento explica o crescimento do setor também fora do alto padrão.
“A busca por consultores de imagem para o público do dia a dia é grande. Chegar ao trabalho com uma imagem melhor é um diferencial.” E conclui: “Não temos segunda chance para causar uma boa primeira impressão. A imagem faz parte dessa construção, e ela fica na memória.”
Não há um único perfil. Há empresários, herdeiras, mulheres com imagem pública, profissionais que transformaram aparência em linguagem de trabalho. Há quem compre por prazer estético e quem compre por estratégia.
Muitas fazem as duas coisas sem separar uma da outra. O que as aproxima não é apenas renda, mas repertório. Conhecem marcas, sabem o que querem, rejeitam improviso. E esperam que a loja esteja à altura desse olhar.

Ferramenta de comunicação
Em um mercado cada vez mais atento à imagem como ferramenta de comunicação, Lorena observa uma mudança clara no comportamento de seus clientes: menos ostentação e mais coerência entre aparência, discurso e postura.
À reportagem, ela afirma que o luxo contemporâneo deixou de ser algo “gritado” para se tornar uma experiência sentida, e sustentada. “O luxo é silencioso. Ele é muito mais sentido do que falado”, resume.
Segundo Lorena, sua cartela de clientes é majoritariamente formada por pessoas que precisam transmitir competência e credibilidade em ambientes profissionais e institucionais. “Eles já começam a compreender que descrição é força. A imagem precisa ser sóbria, sólida, mas jamais vazia.” Para a stylist, a consultoria de imagem não se limita à escolha de roupas. Trata-se de construir uma narrativa consistente. “Não basta vestir bem. Se a pessoa abre a boca e não sabe se comunicar, se não tem postura ou não sabe circular nos ambientes, toda a imagem se quebra”, afirma.

Mesmo grandes investimentos em vestuário, segundo ela, não compensam incoerências comportamentais. “Pode comprar a loja inteira e ainda assim não sustentar o patamar que quer ocupar.” Essa preocupação se intensifica na consultoria para eventos. Cada ocasião, diz Lorena, carrega regras explícitas e simbólicas. “Para cada evento há um objetivo. Uma madrinha de casamento, por exemplo, precisa respeitar cores, horário, local e, sobretudo, lembrar que não é a noiva.
Ela pode estar elegante, mas sempre um degrau abaixo.” Em agendas políticas, a estratégia é ainda mais minuciosa. “A roupa precisa demonstrar orgulho e felicidade, sem parecer distante da população. Até a cor entra nisso.”
Segundo a especialista, a escolha cromática tem impacto direto na percepção emocional. “Cor é totalmente psicológica. Azul acalma, vermelho excita, amarelo alerta, verde pressiona. Quem entende o simbolismo usa isso como estratégia de comunicação.”

Ao definir o luxo hoje, Lorena faz uma distinção clara entre luxo e alto padrão. “Luxo é exclusividade, é inacessível. Cerca de 3% da população mundial tem acesso real ao luxo”, afirma. Nesse universo, não há necessidade de afirmação pública.
“Quem está no luxo não precisa provar nada.” Já o alto padrão, segundo ela, é mais visível e enérgico, marcado pela necessidade de demonstrar pertencimento por meio de marcas, carros e ambientes. “A Dior abre uma cafeteria. Você pode tomar o café, mas não acessar a alta-costura. O mercado se amplia, mas o limite é claro.”
Nesse contexto, Goiânia surge, na avaliação de Lorena, como um polo em consolidação no consumo premium. “Goiânia já é um mercado consolidado e vai crescer ainda mais”, diz. Ela cita o interesse de marcas internacionais e dados de consumo que colocam a capital goiana em destaque.
“Quando converso com grifes como Salvatore Ferragamo, eles se surpreendem ao saber que cerca de 40% dos consumidores brasileiros estão em Goiânia.” A chegada da Tiffany & Co. à região é vista como outro indicativo desse movimento.

Quanto às tendências atuais entre clientes de alto padrão, a stylist observa uma estética mais limpa e menos alegórica. “Mesmo quem gosta de marca não precisa ser carnavalesco”, afirma.
O chamado quiet luxury aparece como referência, aliado a uma valorização das identidades locais. “Não preciso me vestir como uma paulista ou uma estrangeira. Posso fazer parte do alto padrão respeitando minhas raízes.”
Goiânia sempre foi uma cidade de corpo presente. Aparência, estética, cuidado com a imagem nunca foram temas menores. O que mudou foi a sofisticação do discurso. O luxo deixou de ser demonstração e passou a ser edição.
A cidade, que antes buscava referências fora, agora sustenta o próprio mercado. Não como vitrine turística, mas como praça de consumo madura. As lojas não vivem de curiosos, vivem de clientes recorrentes. E isso diz muito sobre a fase atual da capital.

Público exigente
Nesse sentido, Ivana Menezes afirma que Goiânia consolidou um mercado consumidor exigente e disposto a investir em roupas de altíssimo padrão. Ela observa que, embora o consumo de luxo sempre tenha existido na capital, nos últimos anos tornou-se mais visível e frequente.
“Goiânia é uma capital muito qualificada, que gosta desse tipo de produto. As goianas são realmente exigentes, gostam de alto nível e de excelente qualidade”, afirma Ivana. Segundo ela, a trajetória da loja acompanha essa evolução do público.
“Estou no mercado há 32 anos. Comecei com um mercado mais simples e fomos aprimorando até chegar às marcas que trabalhamos hoje.” A empresária explica que a loja atua com uma curadoria de marcas consolidadas, muitas com mais de 30 ou 40 anos de mercado, e que o desempenho comercial tem sido positivo.

“A aceitação é excelente. Graças a Deus, os negócios só vão melhorando, o que mostra que estamos no caminho certo”, diz. Na prática, o portfólio se divide em três frentes: casual, cocktail dress e festa. Essa segmentação permite atender perfis variados dentro do alto padrão.
“Temos desde uma calça de cerca de mil reais até vestidos em renda renascença totalmente feitos à mão, que podem custar 20 mil, 25 mil ou até 29 mil reais”, detalha. Ivana destaca que o valor final está diretamente ligado ao processo de produção.
“Quando o produto é artesanal, como a renda renascença, o tempo e o trabalho envolvidos são enormes. Um único quadradinho pode levar um mês para ficar pronto; imagine um vestido inteiro”, explica. Apesar disso, ela ressalta que luxo não está necessariamente associado ao preço mais alto.
“O verdadeiro luxo está na boa escolha, em saber combinar as peças e receber uma assessoria completa, do brinco à sandália. Às vezes um vestido de cinco mil reais causa mais impacto do que um de dez mil”, afirma. “É aquilo que veste bem, que cai como uma luva no corpo da cliente.”

Consumo de luxo mais visível
Questionada sobre o crescimento do mercado de alto padrão, Ivana avalia que o consumo sempre existiu, mas era mais discreto. “Hoje ele está mais evidente e cresce a cada ano. Goiânia passou a ser foco de grandes marcas internacionais que antes só estavam em São Paulo”, observa.
Esse amadurecimento também influencia a forma de compra. Segundo a empresária, parte das peças mais exclusivas já chega à loja com destino certo. “Como faço a curadoria e conheço minhas clientes há muitos anos, algumas peças nem vão para a arara, vão direto para a casa delas. É um trabalho de sintonia e conhecimento do gosto de cada uma.”
Apesar do foco no luxo, a loja funciona de portas abertas. “Estamos abertos das 9h às 19h para quem quiser conhecer”, afirma Ivana. O atendimento personalizado ocorre quando a cliente busca algo sob medida ou exclusivo.
Nesses casos, há agendamento prévio e contato com estilistas parceiros de Belo Horizonte ou São Paulo. “Nós fazemos essa ponte para facilitar a vida da cliente. Se ela não pode viajar, organizamos uma videochamada com a estilista, apresentamos tecidos, discutimos modelos e ajustamos tudo ao que ela deseja”, explica. “A ideia é otimizar o tempo e entregar exatamente o que ela procura.”
Para Ivana Menezes, esse cuidado no atendimento e na curadoria explica a fidelização do público. “A gente cresce junto com a cliente. É um processo de aperfeiçoamento contínuo, tanto do mercado quanto de quem consome moda de alto padrão em Goiânia.”

Consumo de luxo e experiência
A relação entre consumo de luxo e experiência vai muito além do preço das peças. Segundo Ivana Menezes, não há um tíquete médio fixo quando se trata de moda de alto padrão, tudo depende do momento e da necessidade do cliente.
“Às vezes ele [cliente] tem uma formatura da filha e compra três vestidos. Pode gastar em média R$ 100 mil. Já tem cliente que vem apenas para um casamento e gasta R$ 5 mil, R$ 10 mil. Depende muito do vestido e da necessidade do cliente naquele momento”, afirma Ivana.
Embora a compra de roupas de festa seja pontual, a lojista explica que existe um núcleo fiel de consumidores recorrentes, especialmente no segmento casual. “Eu tenho clientes que compram todo mês, há vários anos. Não roupa de festa, mas roupas para trabalho, para o dia a dia. Tem cliente que compra 12 vezes por ano”, relata.
Peças como blazers e conjuntos de alfaiataria fazem parte desse consumo contínuo. Para Ivana, o diferencial do mercado de luxo atual não está apenas no produto, mas na relação construída com o cliente.
“Hoje a gente não vende produto. É conexão, é amizade, é olhar. É enxergar o cliente, querer ajudá-lo a se posicionar de uma forma mais segura. É uma consultoria, não é só uma venda”, diz. Segundo ela, a loja investe em treinamentos mensais para a equipe, justamente para fortalecer essa experiência.
“Isso nem é mais um diferencial, é uma necessidade.” A empresária observa que muitos clientes frequentam o espaço sem necessariamente comprar. “Tem cliente que vem uma, duas, três vezes, toma café, conversa, não compra nada. Ele fala: ‘Não estou afim de comprar, eu quero só ser ouvida’. E isso faz parte da experiência”, explica.

O público atendido pela Ivana Menezes é formado majoritariamente por empresários, pecuaristas, médicos, advogados e formandos, com foco em consumidores acima dos 25 anos. Recentemente, a loja ampliou a atuação para o segmento masculino, atendendo ao mesmo perfil econômico.
“Eles consomem para o trabalho, para reuniões, para festas, para o dia a dia”, resume. Quando o assunto é o que pesa mais na decisão de compra, marca, exclusividade ou imagem social, Ivana pondera que não há uma regra única.
“Cada caso é um caso. Tem gente apaixonada pela marca, que quer usar aquela marca específica. Outros querem imagem social, elegância, uma assinatura. Mas a exclusividade é algo que todas desejam, de alguma forma”, afirma. “A mulher quer chegar na festa e sentir que é única.”
A busca por exclusividade, no entanto, tem se traduzido mais em descrição do que em ostentação. “Hoje o luxo está discreto. Ele comunica de outra forma. A maioria busca menos logo, mais acabamento, mais qualidade, mais sofisticação”, analisa.
Ainda assim, ela reconhece que há espaço para diferentes perfis. “Goiânia tem muitos emergentes, tem gente que gosta de ostentar. A gente trabalha com os dois públicos.” Para Ivana, Goiânia já se consolidou como mercado de moda de luxo no Brasil.
“Consome muito e gosta de luxo”, diz. À frente da Câmara de Moda da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg), ela afirma lutar para que a capital volte a ser referência nacional.
“Quando comecei, há 35 anos, a moda daqui atraía compradores de Belo Horizonte, São Paulo e de vários lugares do Brasil”, recorda. Segundo a empresária, o polo local perdeu força ao longo do tempo, especialmente na indústria voltada a tamanhos maiores.
“A qualidade caiu um pouco. Como presidente da Câmara de Moda, tenho trabalhado em projetos para melhorar e fortalecer esse polo industrial, para a gente voltar a ser referência como era há 30 anos”, conclui.

Stylist entre artistas e outros profissionais
A contratação de personal stylist deixou de ser um serviço restrito ao universo artístico e passou a integrar a estratégia de imagem de profissionais liberais e empresários em Goiânia. É o que aponta a stylist Izabelle Capuzzo, em entrevista ao Jornal Opção, ao relatar uma mudança significativa no perfil de seus clientes e na forma como o vestuário de alto padrão passou a ser encarado nos últimos anos.
Segundo Izabelle, seu trabalho na capital goiana é fortemente direcionado a artistas, especialmente do sertanejo e do pop, mas a clientela tem se ampliado. “Aqui em Goiânia, o meu trabalho é focado em artistas, mais especificamente do sertanejo, do pop, mas também em empresários, tanto homens quanto mulheres”, afirma.
Ela destaca ainda o crescimento da procura por parte de médicos. “Está havendo uma procura exponencial por médicos, que são profissionais muito ligados à imagem.” Para a stylist, essa transformação está diretamente relacionada ao impacto das redes sociais na rotina profissional.
“Com essa história das redes sociais e essa necessidade de você se expor, mostrar um pouco da sua personalidade, profissionais e empresários que estavam sempre no backstage precisaram se posicionar e falar do seu negócio”, explica.
Esse movimento, segundo ela, impulsionou a busca por consultoria de estilo como ferramenta de posicionamento público. Nesse contexto, peças de luxo passaram a cumprir um papel que vai além da estética.
“Hoje, muitas pessoas usam peças de alto valor como uma estratégia de marketing pessoal”, diz Izabelle. Ela ressalta, no entanto, que o status não está apenas no preço. “Não é só isso que gera o status para a imagem pessoal de alguém”, pondera.
Ainda assim, o custo elevado não costuma ser um entrave para esse público. “Eles focam tanto no benefício que a peça vai trazer, veem a peça como investimento, que vai ter retorno no profissional deles”, afirma. No caso dos médicos, por exemplo, Izabelle aponta reflexos diretos.
“Vai ter retorno de aumento do valor da consulta, dos procedimentos, da quantidade de pacientes.” Para empresários e artistas, a lógica é semelhante. “Eles colocam isso como investimento de marketing, de imagem. Não tem sofrimento para pagar, porque eles veem retorno.”

Média de gastos
Embora não estabeleça uma média fixa de gastos, a stylist afirma que o consumo é recorrente. “É um investimento que acontece pelo menos duas vezes ao mês”, relata. Em alguns casos, os valores podem ser expressivos.
“Tem bolsa que custa 100 mil. Às vezes vai comprar uma bolsa e mais roupas e gastar mais de 200 mil no mês.” Em outros períodos, o investimento é menor, dependendo do tipo de peça adquirida. Ao contrário do que se poderia imaginar, o consumo não é motivado apenas por eventos pontuais.
“É cotidiano. Eles usam essas roupas no trabalho, no dia a dia, e também para produzir material para o digital”, explica. Segundo Izabelle, não se trata de peças compradas para ficar no guarda-roupa. “A vida deles é uma ocasião especial sempre.”
Também mudou a forma de expressar luxo. A ostentação explícita, marcada por logos aparentes, perdeu espaço. “Essa fase passou”, afirma. “Hoje todo mundo está procurando um luxo mais discreto, uma linguagem silenciosa.”
Para ela, há códigos sutis que identificam uma peça de luxo. “As pessoas desse meio sabem reconhecer por sinais sutis, e mesmo quem é mais leigo percebe pela qualidade, pelo material.” Essa preferência pelo luxo discreto se reflete nas escolhas de seus clientes. “Se eles veem uma marca aparecendo demais, já é um empecilho para comprar a peça”, diz.
Entre os nomes atendidos por Izabelle Capuzzo estão artistas de grande projeção nacional. Atualmente, ela trabalha com Zé Felipe, cuidando de sua imagem. A stylist também foi responsável por processos de transformação visual de Gusttavo Lima e de Andressa Suita, com quem trabalhou por vários anos.
Izabelle explica que a dinâmica desse mercado é baseada mais no relacionamento do que na exposição pública do trabalho. “É uma linha muito tênue entre a amizade e o trabalho”, afirma.
Segundo ela, lidar com estilo pessoal envolve intimidade e confidencialidade. “Eu trabalho na casa das pessoas, no closet das pessoas. Estou num lugar muito íntimo, e isso demanda muito profissionalismo.”

Luxo como autoconhecimento e tempo
O conceito de luxo passa por uma transformação profunda e deixa de estar associado, prioritariamente, a marcas, preços elevados ou exclusividade material. Para Izabelle, o verdadeiro luxo contemporâneo está cada vez mais ligado ao autoconhecimento, à gestão do tempo e à coerência entre identidade e imagem.
“Pra mim, o luxo hoje é a pessoa que sabe quem ela é, sabe o que faz com a vida dela e como ela administra o seu tempo. Ela tem o poder de gerenciar as próprias vontades, a própria vida”, afirma.
Segundo a stylist, esse controle sobre si mesmo se tornou algo raro e, justamente por isso, exclusivo. “São poucas as pessoas que realmente conseguem ter tempo de olhar pra si, saber o que gostam, como querem se apresentar pro mundo.”
Capuzzo observa que o luxo deixou de ser pautado apenas pelo acesso financeiro. “O luxo não está mais ligado ao que o dinheiro compra. Ele está numa coisa muito mais subjetiva hoje em dia”, diz.
Para ela, exclusividade, coerência de imagem e marca ainda contam, mas apenas como consequência de um processo mais profundo. “Acima de qualquer coisa, é a subjetividade. É o autoconhecimento da pessoa.”
A stylist contextualiza essa mudança a partir da popularização do mercado de luxo nas últimas décadas. Antes restrito a quem viajava ao exterior, o consumo dessas marcas se tornou mais acessível com a internet, o crédito e a presença de lojas físicas no Brasil.

“Hoje todo mundo sabe que lançou a bolsa X ou o relógio Y. As pessoas conhecem os preços, mesmo sem fazer parte desse mercado”, afirma. “Por isso, o luxo já não pode mais ser pautado pelo valor.” Nesse cenário, as redes sociais desempenham papel central, com impactos positivos e negativos.
Do ponto de vista profissional, Capuzzo avalia que houve uma expansão clara da procura por serviços de styling e consultoria de imagem. “Teve uma crescente muito grande na busca por stylist. As pessoas passaram a se preocupar mais com a própria imagem, e isso foi impulsionado pelas redes sociais”, diz.
Segundo ela, a profissão se tornou mais conhecida e acessível. “Hoje as pessoas sabem que existe consultoria de estilo, sabem que há profissionais para diferentes perfis e orçamentos.” Por outro lado, Capuzzo alerta para os efeitos nocivos desse ambiente digital.
“As pessoas ficam muito escravas daquela imagem online. Isso gera um consumo desenfreado, uma comparação constante, e isso não é saudável, mentalmente falando”, avalia. Ainda assim, ela pondera que, para a profissão, o saldo é amplamente positivo.
“As redes sociais ajudaram a chegar em mais pessoas. Trouxeram visibilidade para uma profissão que antes era para poucos.” Ao analisar o contexto local, Capuzzo considera que Goiânia já dá sinais claros de consolidação no mercado de moda premium.
“Um bom termômetro é ver grandes marcas chegando com lojas oficiais, não com pop-ups. São lojas que vieram para ficar”, afirma. Ela cita ainda o mercado imobiliário como indicador desse movimento. “A gente pisca e tem um lançamento de alto padrão novo. Olhando ao redor, dá pra considerar, sim, que Goiânia já está inserida nesse mercado premium.”

Público masculino
O mercado de consultoria de imagem masculina vive um momento de expansão em Goiânia, impulsionado por um público de alto poder aquisitivo que passou a enxergar a moda menos como ostentação e mais como estratégia de posicionamento.
É o que afirma o stylist Fábio Miranda, em entrevista ao Jornal Opção. Segundo o profissional, há hoje três perfis principais que contratam personal stylist: artistas, empresários e altos executivos, além de profissionais que estão ingressando no mercado e entenderam a importância da imagem pessoal.
“Os artistas precisam e usam muito esse serviço. A gente tem os empresários e altos executivos, que sabem da importância da imagem para o posicionamento profissional. E também os profissionais que estão entrando no mercado e passaram a entender essa importância”, afirma.
Atendendo exclusivamente homens e com carteira de clientes em todo o país, Fábio destaca que, em Goiás, a demanda está aquecida. “Aqui em Goiânia, realmente, esse mercado está bastante aquecido”, diz.
A mudança mais visível, segundo o stylist, está no comportamento do consumidor de luxo. O homem que antes pouco se preocupava com a própria imagem passou a enxergá-la como um ativo.
No topo da pirâmide, porém, a lógica é clara: discrição e exclusividade. “O pessoal do alto padrão já entendeu que o menos é mais. Eles não querem mais fazer propaganda de marca; buscam exclusividade e peças únicas”, afirma. Para esse público, moda deixa de ser tendência e passa a ser coerência.
“Hoje o mercado de alto padrão entendeu que o modismo não condiz com a imagem de quem quer transmitir algo sofisticado e elegante. É posicionamento e, consequentemente, exclusividade”, diz. Ele completa: “Uma peça feita exclusivamente para o cliente tem mais valor do que comprar uma peça da Gucci ou da Louis Vuitton”.

Preço perde relevância
Nesse universo, o preço deixa de ser decisivo. “Não tem peso. Eles querem o que é bom, bem feito e exclusivo. Pagam o que for para ter essa experiência”, resume. O investimento varia conforme o objetivo do cliente, de um evento específico à reformulação completa da imagem.
“Na maioria das vezes, quem passa por uma consultoria de imagem comigo gasta entre R$ 100 mil, R$ 250 mil e até R$ 500 mil”, revela. A consultoria, diz Fábio, não se limita a ocasiões pontuais.
“Eu prego que a pessoa deve estar bem apresentada em todas as ocasiões, no cotidiano, na vida profissional, na vida social e, claro, em eventos específicos.” Outro traço do segmento premium é a força do relacionamento.
“Funciona muito mais pela relação cliente-profissional do que por vitrine. É um atendimento exclusivo, não aquele modelo de ‘vi na vitrine e entrei para comprar’”, afirma.
Questionado sobre a maturidade do mercado local, Fábio é categórico: “Goiânia pode, sim, ser considerada um mercado consolidado de moda premium. Há um percentual muito grande de público de alto padrão aqui.” Para os próximos anos, o stylist não vê grandes rupturas, mas a consolidação de um caminho já traçado. “Sob medida e exclusividade. O cliente que já se posicionou quer roupas feitas para ele”, conclui.
Há algo de silenciosamente político nesse consumo. Em tempos de exposição excessiva, o luxo que não se explica escolhe o recolhimento. Não precisa provar nada. Não pede curtidas. Não aceita generalização. A roupa cara em Goiânia não quer convencer ninguém de que vale o que custa. Ela existe. E isso basta.

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