A conquista de destaque do cinema brasileiro no Globo de Ouro, com o reconhecimento de O Agente Secreto e a atuação de Wagner Moura, reacendeu o debate sobre a posição do Brasil no cenário audiovisual internacional. Para o professor Lisandro Nogueira, docente de Cinema da Universidade Federal de Goiás (UFG), a premiação confirma a qualidade histórica do cinema nacional, mas também evidencia sua instabilidade estrutural.

“O cinema brasileiro sempre foi bom, isso não é novidade”, afirma o professor. Segundo ele, o reconhecimento internacional acompanha o Brasil desde os anos 1960, quando Glauber Rocha já projetava o país em festivais como Cannes. “O problema é que esse reconhecimento acontece em espasmos. Não há perenidade”, avalia Lisandro em entrevista ao Jornal Opção.

Lisandro define o cinema brasileiro como uma “montanha-russa”, que alterna momentos de grande visibilidade internacional com longos períodos de fragilidade interna. Para ele, o Globo de Ouro é simbólico e importante, mas não resolve o problema central. “O prêmio é ótimo, é claro. Amanheci muito contente com a vitória de O Agente Secreto e do Wagner Moura. Mas isso não muda o fato de que o Brasil não tem um projeto consistente para o cinema.”

Globo de Ouro e Oscar: vitrine da indústria

Na avaliação do professor, tanto o Globo de Ouro quanto o Oscar funcionam mais como vitrines da indústria do que como parâmetros estéticos absolutos. “São festas da indústria, muito marcadas por lobby, marketing e grandes produtores”, explica. Ele ressalta que festivais como Veneza, Berlim e Cannes ainda são os que mais privilegiam critérios artísticos.

Mesmo assim, Lisandro reconhece a importância estratégica da premiação. “Esses prêmios ajudam o cinema brasileiro a ganhar argumentos, visibilidade e espaço no mercado internacional”, diz. No entanto, ele alerta que esse reconhecimento depende, em grande parte, de parcerias com grandes grupos estrangeiros. “O Agente Secreto dificilmente estaria nesse patamar sem consórcios com grupos poderosos europeus ou americanos. Isso não é ruim, mas revela nossa dependência.”

Wagner Moura e o risco da padronização

O professor elogia a atuação de Wagner Moura, mas faz uma ressalva crítica. “Ele é um ótimo ator, sem dúvida. Mas existe o risco de a indústria internacional padronizar o trabalho do ator, fazendo com que ele repita fórmulas”, analisa. Para Lisandro, grandes diretores são fundamentais para provocar reinvenções artísticas. “O cinema brasileiro sempre foi criativo justamente porque ousava, porque quebrava padrões.”

Ainda assim, ele reforça que a conquista no Globo de Ouro deve ser celebrada. “Parabéns ao Wagner Moura e ao cinema brasileiro. O reconhecimento é merecido”, afirma.

Reconhecimento internacional não reflete a realidade interna

Apesar do sucesso no exterior, Lisandro Nogueira destaca que o cinema brasileiro enfrenta dificuldades severas dentro do próprio país. “Você ganha prêmios lá fora, mas o cinema brasileiro aqui dentro está muito mal”, resume. Para ele, a distância entre o prestígio internacional e a realidade nacional revela uma fragilidade estrutural que os prêmios, sozinhos, não conseguem resolver.

“O Globo de Ouro é uma grande conquista, mas ele também pode mascarar um problema grave de base”, conclui o professor. “Se não houver políticas consistentes, vamos continuar ganhando prêmios enquanto o cinema brasileiro segue vulnerável.”

Leia também: O Agente Secreto vence Globo de Ouro como melhor filme de língua não-inglesa; Wagner Moura leva como melhor ator