Ao contrário do que muitos imaginam, o fim de ano não representa aumento expressivo no movimento de oficinas mecânicas. Em dezembro, o setor automotivo sente os efeitos do consumo mais cauteloso das famílias, do período chuvoso e das viagens, sobretudo de avião, o que reduz a procura por manutenções mais complexas em motos e carros.

Na Arte Motos, em Goiânia, o proprietário Kássim afirma que o movimento cai de forma significativa no último mês do ano. “Se nos meses anteriores a gente trabalha com cerca de 80% da capacidade, em dezembro esse número cai para algo em torno de 45%. O pessoal segura mais o dinheiro por causa das festividades”, explicou ao Jornal Opção.

Com menos clientes dispostos a gastar, os serviços mais procurados são os considerados essenciais e rápidos. “Troca de óleo, freio, lâmpada, coisas que não podem esperar. Revisão completa quase não sai nesse período”, relata. Segundo ele, motociclistas evitam deixar o veículo parado por muito tempo, especialmente quem depende da moto para o trabalho.

O aumento do uso da moto para viagens, segundo Kássim, impacta pouco o volume de atendimentos, já que a maioria das motocicletas em circulação é de baixa cilindrada e voltada ao uso urbano. “Motos de viagem, como big trail e super sport, fazem manutenção mais periódica e preventiva. Já as motos urbanas se desgastam mais rápido e exigem serviços frequentes, porém simples”, diz.

Ele destaca que houve uma mudança no comportamento dos motociclistas nos últimos anos. “Hoje o motociclista está mais consciente. Antes de pegar estrada ou até de vender a moto, ele procura fazer manutenção para entregar o veículo em boas condições. Isso tem sido cada vez mais comum.”

O crescimento do delivery, embora mantenha uma demanda constante, não impulsiona o faturamento. “Quem trabalha com aplicativo procura sempre o serviço mais em conta. A moto se desgasta muito e eles só fazem manutenção quando realmente quebra. Isso limita serviços mais completos”, afirma.

Outro fator que pesa é o período chuvoso. “A chuva tira os lubrificantes da moto e acelera o desgaste. Além disso, aumenta muito a furação de pneus por causa da sujeira e dos objetos trazidos pela enxurrada”, diz Kássim. Ainda assim, ele ressalta que não há um padrão de motos chegando em condições mais críticas no fim do ano, já que tudo depende do perfil de uso e do cuidado do proprietário.

Kassim é proprietário da Arte Motos, no Jardim Novo Mundo | Foto: Arquivo pessoal

A falta de peças também afeta o atendimento, principalmente em motos de alto valor. “Big trail e super sport trabalham quase sempre com peças sob encomenda. São caras e muitas oficinas não conseguem manter estoque. Já motos de baixa cilindrada têm oferta melhor, mas peças de reposição, como carenagem, ainda são mais difíceis”, relata.

Mesmo com os desafios, Kássim afirma que não há necessidade de ampliar horários ou contratar mão de obra temporária. “Trabalhamos com agendamento. Quando chove, o motoqueiro quase não sai. Quando faz sol, o movimento melhora. Dá para equilibrar.”

Após o Réveillon, o cenário ainda segue morno. “Existe uma ressaca de Natal e Ano Novo. O movimento começa a melhorar só em fevereiro. Aí chega perto do Carnaval e cai de novo. É aquela lógica de que o Brasil só começa depois do Carnaval”, resume.

Situação semelhante é vivida no setor automotivo de carros. No Braz Baterias Centro Automotivo, o proprietário Robson afirma que dezembro não é um mês forte para oficinas. “Não é o melhor mês, não. Está acima da expectativa mínima, mas ainda é fraco. Tem meses bem melhores do que o fim de ano”, diz.

Robson é proprietário da Braz Baterias Centro Automotivo | Foto: Arquivo Pessoal

Segundo ele, o perfil das viagens mudou. “Muita gente viaja de avião no Natal. É uma parcela pequena que pega o carro para ir à praia ou para viagens longas. Então aquela ideia de revisão antes de viajar não se confirma tanto no fim do ano.”

A expectativa de melhora fica para janeiro. “Em janeiro o pessoal volta das férias, os carros que ficaram parados precisam de revisão para retomar a rotina, levar filho para a escola, trabalhar. Aí o movimento começa a reagir”, explica Robson.

Os serviços mais procurados seguem a mesma linha das motos: manutenção básica. “Troca de óleo, filtros, revisão geral, lâmpadas. É isso que mais sai em dezembro e janeiro.”

Mesmo com a queda, o impacto no faturamento é considerado administrável. “Cai uns 10% a 20%, não mais que isso, porque ainda tem o décimo terceiro e nosso cliente é muito do dia a dia”, completa.

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