Um dos maiores desafios no tratamento do câncer é entender por que, em determinados pacientes, terapias que inicialmente funcionam deixam de surtir efeito com o passar do tempo. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Montreal, no Canadá, e publicado na revista Nature na última quarta-feira, 11, pode ter encontrado uma resposta para esse fenômeno.

A equipe, liderada pelo imunologista André Veillette, identificou o papel central de uma molécula chamada SLAMF6 (também conhecida como Ly108), presente na superfície das células T — um tipo de glóbulo branco essencial na defesa do organismo contra células tumorais.

O “freio invisível” do sistema imunológico

As células T são protagonistas na resposta imunológica contra o câncer. Elas reconhecem e atacam células anormais, incluindo as cancerígenas. No entanto, o estudo revelou que a molécula SLAMF6 funciona como um verdadeiro “freio” interno dessas células.

Diferentemente de outras moléculas inibitórias que precisam interagir diretamente com o tumor para reduzir a resposta imune, a SLAMF6 atua enviando sinais diretamente na superfície das próprias células T. Esses sinais:

  • Diminuem a capacidade de ataque contra o tumor;
  • Reduzem a produção de células T saudáveis e duradouras;
  • Aceleram o processo de exaustão imunológica — estado em que as células perdem eficiência.

Segundo os pesquisadores, esse mecanismo pode ajudar a explicar por que alguns pacientes deixam de responder às imunoterapias ao longo do tratamento.

Limitações das imunoterapias atuais

Os pesquisadores observaram que a perda de SLAMF6 aumenta a ativação das células T e a imunidade antitumoral — Foto: Nature

Hoje, muitos tratamentos utilizam inibidores das moléculas PD-1 e PD-L1, que também funcionam como reguladores da atividade das células T. Esses medicamentos revolucionaram o tratamento de vários tipos de câncer.

No entanto, uma parcela significativa de pacientes:

  • Não responde inicialmente à terapia;
  • Ou perde a resposta após um período de sucesso.

O novo estudo sugere que a SLAMF6 pode estar envolvida nesse processo de resistência terapêutica, atuando como um mecanismo alternativo de supressão imunológica.

A estratégia inovadora

Para contornar esse problema, a equipe desenvolveu anticorpos monoclonais capazes de bloquear a interação da SLAMF6 consigo mesma — passo essencial para que a molécula exerça seu efeito inibitório.

Nos experimentos realizados em camundongos, os resultados foram considerados promissores:

  • Maior ativação de células T;
  • Aumento na produção de células imunológicas robustas e duradouras;
  • Redução do número de células T em estado de exaustão;
  • Respostas antitumorais mais intensas.

De acordo com Veillette, os novos anticorpos demonstraram desempenho superior às ferramentas atualmente disponíveis que têm como alvo essa molécula.

Potencial para uma nova geração de terapias

Os pesquisadores acreditam que o bloqueio da SLAMF6 pode abrir caminho para uma nova geração de imunoterapias contra o câncer. A estratégia pode ser usada:

  • Como alternativa para pacientes que não respondem aos inibidores de PD-1 e PD-L1;
  • Em combinação com outras terapias imunoestimulantes;
  • Ou como tratamento independente em determinados casos.

A descoberta é vista como particularmente relevante para tumores sólidos e cânceres hematológicos, nos quais a resistência às terapias atuais representa um grande obstáculo clínico.

Próximos passos

O próximo estágio da pesquisa será a realização de ensaios clínicos em fase inicial para avaliar a segurança e a eficácia dos anticorpos em seres humanos.

Se os resultados forem confirmados, o bloqueio da SLAMF6 poderá representar uma mudança significativa no tratamento oncológico, oferecendo nova esperança a pacientes que hoje enfrentam a perda de resposta às terapias disponíveis.

A pesquisa não apenas identifica um “freio” imunológico até então subestimado, mas também apresenta uma estratégia concreta para neutralizá-lo — um avanço que pode redefinir os caminhos da imunoterapia nos próximos anos.