Estudo aponta causas não tradicionais de infarto em mulheres jovens e reforça alerta médico
06 janeiro 2026 às 19h18

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Um estudo da Mayo Clinic, organização sem fins lucrativos, relacionou ataques cardíacos em adultos com menos de 65 anos, especialmente em mulheres, que nem sempre estão ligados ao entupimento das artérias por placas de gordura.
A pesquisa mostra que causas não tradicionais, como a dissecção espontânea da artéria coronária (DEAC), embolias e gatilhos de estresse, têm papel relevante nesse grupo. Publicado no Journal of the American College of Cardiology, o estudo analisou mais de 15 anos de dados populacionais e identificou que mais da metade dos infartos em mulheres jovens não foi causada por aterosclerose.
Em homens, o cenário é diferente: cerca de 75% dos casos ainda estão ligados ao acúmulo de placas. Em entrevista ao Jornal Opção, o cardiologista Murilo Menezes explica que, embora a aterosclerose siga como a principal causa de infarto, o padrão muda quando se observam pacientes jovens, sobretudo mulheres.
Segundo o médico, a dissecção espontânea de coronária é um dos exemplos mais importantes e, inclusive, a principal causa de infarto em gestantes. “A dissecção não tem a mesma fisiopatologia do infarto clássico por placas de gordura. Ela se relaciona com alterações hormonais, gatilhos de estresse e até exercício físico intenso”, explica.
Além disso, Murilo Menezes destaca outras origens menos conhecidas. “A gente também tem embolias, quadros de hipercoagulabilidade e o que chamamos de infarto tipo 2, causado por condições como anemia e infecções. Hoje vemos muitos pacientes usando reposição hormonal de forma incorreta, o que aumenta o risco de embolia.”
Apesar de não serem raros, esses quadros seguem sendo frequentemente confundidos com o infarto tradicional. Para o cardiologista, isso ocorre principalmente pela semelhança dos sintomas.
“Os sintomas são muito parecidos. Dor no peito, falta de ar. Como a causa mais comum é o infarto por placa de gordura, a gente acaba tratando inicialmente como esse tipo. A confirmação da dissecção só vem quando se faz o cateterismo e se visualiza a lesão.”
Ele acrescenta que essas doenças são relativamente recentes no debate médico. “São condições mais novas, que estão sendo estudadas mais recentemente e só agora ganhando mais destaque.”
Tratamento errado pode agravar o quadro
O diagnóstico correto não é apenas acadêmico: ele define o tratamento. E errar nessa etapa pode trazer riscos concretos. “Como a fisiopatologia é diferente, o tratamento também é diferente”, explica Murilo Menezes.

“No infarto por placa de gordura, muitas vezes é necessário colocar um stent para abrir a artéria. Já na dissecção de coronária, na maioria das vezes a gente deve evitar o stent, porque ele pode aumentar a dissecção e causar mais dano.”
Segundo o cardiologista, até a prevenção muda. “A profilaxia não é a mesma. Nem sempre vamos usar os mesmos medicamentos para ‘afinar o sangue’. Se o diagnóstico estiver errado, o tratamento inadequado pode piorar o paciente.”
“O principal alerta é valorizar os sintomas. Teve dor no peito, falta de ar, tem que procurar atendimento médico. Não achar que, por ser jovem ou não ter doença conhecida, isso não é nada.”
Ele reforça ainda a importância da prevenção. “Manter um estilo de vida saudável, evitar o uso indiscriminado de anabolizantes e terapias hormonais sem acompanhamento médico é fundamental. Isso ajuda a reduzir tanto o risco de embolia quanto a formação de placas ao longo da vida.”
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