A escola de samba Acadêmicos de Niterói recebeu R$ 9,6 milhões em recursos públicos para o desfile deste ano, cujo enredo homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os repasses partiram de diferentes esferas de governo: Prefeitura de Niterói, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Governo Federal — por meio da Embratur — e Prefeitura do Rio de Janeiro, via Riotur.

O envolvimento de integrantes do governo federal extrapolou o campo do financiamento. A primeira-dama Janja da Silva esteve na quadra da escola em duas ocasiões, em 7 de outubro de 2025 e 7 de fevereiro de 2026. Como ocorre em agendas oficiais, os deslocamentos são custeados com recursos públicos, incluindo equipe de segurança e assessores.

Na visita mais recente, Janja esteve acompanhada da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, que destinou parte de sua agenda para participar do ensaio final da agremiação. Em vídeos divulgados nas redes sociais da ministra, ela e a primeira-dama aparecem ao lado do presidente da escola, Wallace Palhares, fazendo o gesto associado à campanha de Lula. As publicações foram feitas nos perfis institucionais utilizados para divulgar ações do ministério.

Além das visitas à quadra, o presidente da Acadêmicos de Niterói foi recebido ao menos duas vezes no Palácio do Planalto, nos dias 2 e 16 de outubro de 2025. Registros oficiais apontam encontros com a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, no 4º andar do Palácio. A pasta é responsável pela articulação política do governo junto ao Congresso Nacional.

Na reunião de 16 de outubro também participaram o secretário-executivo da pasta, André Ceciliano, o deputado federal Lindbergh Faria (PT-RJ) e o vereador petista Anderson Pipico, de Niterói.

O enredo, intitulado “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, obteve 264,6 pontos — a menor pontuação entre as escolas do Grupo Especial do Carnaval carioca — e resultou no rebaixamento da Acadêmicos de Niterói.

Origem dos recursos

A Embratur destinou R$ 1 milhão à escola — valor idêntico ao repassado às demais 11 integrantes do Grupo Especial. A autarquia federal é presidida desde janeiro de 2023 por Marcelo Freixo (PT), cuja trajetória política foi construída em Niterói.

Do Governo do Estado do Rio de Janeiro vieram R$ 2,5 milhões, dentro de um contrato de R$ 40 milhões firmado com a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) para patrocínio do Grupo Especial. Pela entidade, o contrato é assinado por João Felipe Drumond, diretor-tesoureiro e neto de Luizinho Drummond.

A Prefeitura de Niterói foi responsável pelo maior repasse individual: R$ 4 milhões. O prefeito Rodrigo Neves (PDT) informou que o mesmo valor foi destinado à outra escola da cidade no Grupo Especial, a Unidos do Viradouro, que conquistou o título neste ano.

Já a Riotur, empresa municipal de turismo do Rio de Janeiro, contribuiu com R$ 2,15 milhões.

O caso reacende o debate sobre a utilização de recursos públicos em eventos culturais com forte conotação política, especialmente quando há participação direta de autoridades federais e articulações no Palácio do Planalto.