*Colaboração de Tiago Vechi

Por décadas, o Acidente radiológico de Goiânia com Césio-137 foi descrito em números: 249 contaminados, quatro mortes diretas, milhares examinados. Mas, para quem viveu a tragédia, os dados oficiais contam apenas parte da história.

“Na associação, nós temos mil e duzentos associados”, afirma Sueli de Moraes, vice-presidente da Associação de Vítimas do Césio-137, em entrevista ao Jornal Opção. “O governo assumiu uns seiscentos e pouco… é mais ou menos o dobro, então.”

A discrepância entre os registros do Estado e a vivência das vítimas revela uma ferida ainda aberta — não apenas física, mas também política e simbólica.

Em setembro de 1987, dois catadores encontraram uma máquina de radioterapia abandonada em uma clínica desativada no centro de Goiânia. Ao desmontá-la, tiveram contato com uma cápsula contendo césio-137, um material altamente radioativo.

O pó brilhante que emanava da substância foi compartilhado entre familiares e vizinhos — muitos acreditavam se tratar de algo valioso ou até mágico.

Dias depois, começaram os sintomas: vômitos, diarreia, queimaduras, queda de cabelo.

Mais de 110 mil pessoas foram examinadas em um estádio improvisado, e pelo menos 249 apresentaram contaminação significativa. Sueli estava entre elas. “Ficamos isolados… três meses. Tomando banho com vinagre, sabão de coco… trocando de roupa o tempo todo. Não podíamos sair, nem ver televisão.”

“Só o reconhecimento”

Quase quatro décadas depois, Sueli resume a principal reivindicação das vítimas em uma frase curta — e contundente: “Falta reconhecimento.”

Segundo ela, apesar de existirem pensões e algum atendimento médico, há uma sensação persistente de abandono.

Eles não deram atenção pra gente… deram mais atenção pro lixo do que pra gente.

A fala se refere ao esforço massivo de descontaminação — que incluiu a demolição de casas, remoção de objetos e descarte de toneladas de resíduos radioativos — contrastando com o que ela descreve como descaso com as pessoas atingidas.

Os números que não fecham

A divergência entre dados oficiais e relatos das vítimas não é apenas estatística — é também política.

Enquanto o governo reconheceu algumas centenas de vítimas diretas, a associação inclui:

  • contaminados indiretos
  • familiares afetados
  • pessoas com doenças posteriores, como câncer

“Eu mesma fiz um levantamento… fui de casa em casa vendo quem tinha câncer. Mas depois apareceu mais gente e eu não consegui atualizar.”

A ausência de dados atualizados e sistemáticos sobre doenças relacionadas à radiação reforça a percepção de invisibilidade.

Saúde, abandono e luta cotidiana

Apesar da existência de um centro de atendimento específico, Sueli aponta limitações:

  • falta de medicamentos contínuos
  • tratamentos incompletos
  • ausência de estrutura adequada

“Tem dentista, mas não tem os aparelhos.”
“Tem gente que precisa de remédio que não tem no SUS… e não tem como comprar.”

A política pública, segundo ela, existe — mas não acompanha as necessidades reais das vítimas ao longo do tempo.

Justiça incompleta

Outro ponto sensível é a responsabilização.

“Só dois foram indenizados. O resto ficou só com pensão.”

Em 1996, responsáveis pela clínica onde a cápsula foi abandonada chegaram a ser condenados, mas as penas foram reduzidas. Para muitas vítimas, isso nunca foi suficiente.

A sensação de impunidade permanece.

Para Sueli, o tempo não apagou o impacto psicológico do acidente — apenas o transformou. “Tem muita gente que entrou em depressão… se isolou.”

Ela própria escolheu outro caminho: “Eu não guardo rancor. Se não, a gente sofre mais.”

Mas reconhece que nem todos conseguiram seguir assim.

Memória reativada

Recentemente, o lançamento de uma série sobre o acidente reacendeu lembranças.

“Tem gente que me ligou chorando… dizendo que não conseguiu dormir.”

Ela vê a produção como importante, mas incompleta:

“Mostra o outro lado… a correria pra salvar a gente. Mas não mostra tanto as vítimas.”

Entre o passado e o presente

O desastre do Césio-137 não terminou em 1987. Ele continua presente:

  • nas doenças que surgem anos depois
  • nas lacunas de reconhecimento
  • nas memórias que insistem em voltar

E, sobretudo, na diferença entre o que está nos relatórios e o que está na vida real.

Nós ficamos do mesmo jeito… sofrendo mais ainda de saber que podia ter sido melhor e não foi.

A voz coletiva das vítimas

À frente dessa luta por memória e reconhecimento está a Associação de Vítimas do Césio-137, que hoje reúne cerca de 1.200 pessoas entre atingidos diretos e indiretos. Sob a presidência de Marcelo Santos e com a atuação constante da vice-presidente Sueli de Moraes, a entidade se mantém como um dos principais espaços de acolhimento, mobilização e reivindicação por direitos. Mais do que números, a associação tenta preservar histórias — e garantir que o desastre não seja reduzido a estatísticas, mas lembrado como uma tragédia humana que ainda exige respostas.

Presidente Marcelo Santos e com a atuação constante da vice-presidente Sueli de Moraes | Foto: Arquivo

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