Entre números e cicatrizes: vítimas do Césio-137 contestam versão oficial quase 40 anos após tragédia
29 março 2026 às 18h40

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*Colaboração de Tiago Vechi
Por décadas, o Acidente radiológico de Goiânia com Césio-137 foi descrito em números: 249 contaminados, quatro mortes diretas, milhares examinados. Mas, para quem viveu a tragédia, os dados oficiais contam apenas parte da história.
“Na associação, nós temos mil e duzentos associados”, afirma Sueli de Moraes, vice-presidente da Associação de Vítimas do Césio-137, em entrevista ao Jornal Opção. “O governo assumiu uns seiscentos e pouco… é mais ou menos o dobro, então.”
A discrepância entre os registros do Estado e a vivência das vítimas revela uma ferida ainda aberta — não apenas física, mas também política e simbólica.
Em setembro de 1987, dois catadores encontraram uma máquina de radioterapia abandonada em uma clínica desativada no centro de Goiânia. Ao desmontá-la, tiveram contato com uma cápsula contendo césio-137, um material altamente radioativo.
O pó brilhante que emanava da substância foi compartilhado entre familiares e vizinhos — muitos acreditavam se tratar de algo valioso ou até mágico.
Dias depois, começaram os sintomas: vômitos, diarreia, queimaduras, queda de cabelo.
Mais de 110 mil pessoas foram examinadas em um estádio improvisado, e pelo menos 249 apresentaram contaminação significativa. Sueli estava entre elas. “Ficamos isolados… três meses. Tomando banho com vinagre, sabão de coco… trocando de roupa o tempo todo. Não podíamos sair, nem ver televisão.”
“Só o reconhecimento”
Quase quatro décadas depois, Sueli resume a principal reivindicação das vítimas em uma frase curta — e contundente: “Falta reconhecimento.”
Segundo ela, apesar de existirem pensões e algum atendimento médico, há uma sensação persistente de abandono.
Eles não deram atenção pra gente… deram mais atenção pro lixo do que pra gente.
A fala se refere ao esforço massivo de descontaminação — que incluiu a demolição de casas, remoção de objetos e descarte de toneladas de resíduos radioativos — contrastando com o que ela descreve como descaso com as pessoas atingidas.
Os números que não fecham
A divergência entre dados oficiais e relatos das vítimas não é apenas estatística — é também política.
Enquanto o governo reconheceu algumas centenas de vítimas diretas, a associação inclui:
- contaminados indiretos
- familiares afetados
- pessoas com doenças posteriores, como câncer
“Eu mesma fiz um levantamento… fui de casa em casa vendo quem tinha câncer. Mas depois apareceu mais gente e eu não consegui atualizar.”
A ausência de dados atualizados e sistemáticos sobre doenças relacionadas à radiação reforça a percepção de invisibilidade.
Saúde, abandono e luta cotidiana
Apesar da existência de um centro de atendimento específico, Sueli aponta limitações:
- falta de medicamentos contínuos
- tratamentos incompletos
- ausência de estrutura adequada
“Tem dentista, mas não tem os aparelhos.”
“Tem gente que precisa de remédio que não tem no SUS… e não tem como comprar.”
A política pública, segundo ela, existe — mas não acompanha as necessidades reais das vítimas ao longo do tempo.
Justiça incompleta
Outro ponto sensível é a responsabilização.
“Só dois foram indenizados. O resto ficou só com pensão.”
Em 1996, responsáveis pela clínica onde a cápsula foi abandonada chegaram a ser condenados, mas as penas foram reduzidas. Para muitas vítimas, isso nunca foi suficiente.
A sensação de impunidade permanece.
Para Sueli, o tempo não apagou o impacto psicológico do acidente — apenas o transformou. “Tem muita gente que entrou em depressão… se isolou.”
Ela própria escolheu outro caminho: “Eu não guardo rancor. Se não, a gente sofre mais.”
Mas reconhece que nem todos conseguiram seguir assim.
Memória reativada
Recentemente, o lançamento de uma série sobre o acidente reacendeu lembranças.
“Tem gente que me ligou chorando… dizendo que não conseguiu dormir.”
Ela vê a produção como importante, mas incompleta:
“Mostra o outro lado… a correria pra salvar a gente. Mas não mostra tanto as vítimas.”
Entre o passado e o presente
O desastre do Césio-137 não terminou em 1987. Ele continua presente:
- nas doenças que surgem anos depois
- nas lacunas de reconhecimento
- nas memórias que insistem em voltar
E, sobretudo, na diferença entre o que está nos relatórios e o que está na vida real.
Nós ficamos do mesmo jeito… sofrendo mais ainda de saber que podia ter sido melhor e não foi.
A voz coletiva das vítimas
À frente dessa luta por memória e reconhecimento está a Associação de Vítimas do Césio-137, que hoje reúne cerca de 1.200 pessoas entre atingidos diretos e indiretos. Sob a presidência de Marcelo Santos e com a atuação constante da vice-presidente Sueli de Moraes, a entidade se mantém como um dos principais espaços de acolhimento, mobilização e reivindicação por direitos. Mais do que números, a associação tenta preservar histórias — e garantir que o desastre não seja reduzido a estatísticas, mas lembrado como uma tragédia humana que ainda exige respostas.

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