O professor e compositor José Miguel Wisnik apresentou, na noite de sexta-feira, 27, palestra no Auditório do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em Goiânia. A exposição reuniu música e análise crítica sobre a força da música popular brasileira (MPB) na relação com a literatura e a poesia.

Formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), Wisnik defendeu que música e literatura se alimentam mutuamente e transformam o próprio fazer artístico. Intitulada “Carlos Drummond e Guimarães Rosa — Minas e Gerais”, a palestra percorreu obras que evidenciam essa relação no contexto da arte moderna.

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Da esquerda à direita: Nasr Chaul, Luiz Cláudio Veiga, José Wisnik e Lisandro Nogueira | Foto: João Reynol / Jornal Opção

Ao tratar da aproximação entre o erudito e o popular, Wisnik afirmou que os primeiros músicos da MPB carregavam um “complexo de Pestana”, referência ao conto “Um Homem Célebre”, de Machado de Assis. Na obra, o personagem obtém sucesso com polcas populares, mas aspira ao reconhecimento na música erudita.

Segundo o compositor, esse tensionamento contribuiu para a formação de movimentos como o maxixe e o choro, associados ao pianista Ernesto Nazareth no início do século XX. Ao mesmo tempo, compositores posteriores procuravam desconstruir esta eletização da arte.

Uma coisa curiosa e muito significativa da música popular brasileira envolve essa vocação para a mistura em Machado.

Wisnik também apontou que a intersecção entre música e literatura se intensificou com o tempo. “Está claro que, por um lado, há um déficit de consolidação das instituições letradas e, por outro, uma espécie de sobra dessa presença popular. As duas coisas acabam se entrecruzando”, disse em entrevista ao Jornal Opção.

Nesse processo, destacou o surgimento da bossa nova, a partir da aproximação entre compositores como Vinícius de Moraes e Tom Jobim, que integraram poesia e canção popular. Sobre Moraes, Wisnik destaca o cantor como o primeiro poeta literário a transitar livremente para a música popular, consolidando ambas as expressões em um mesmo campo artístico.

Para Wisnik, a canção brasileira funciona como uma “terceira margem” entre palavra e música. Como exemplo, citou “A Terceira Margem do Rio”, de Milton Nascimento e Caetano Veloso, lançada em 1990, que dialoga com o conto homônimo de Guimarães Rosa ao transformar silêncio e ambiguidade em elementos musicais.

Essas canções são uma espécie de terceira margem entre a música e a poesia. Algo novo se projeta ali entre a palavra e a música.

Outro exemplo mencionado foi “Anjos Tronchos”, de Caetano Veloso, lançada em 2021, que mobiliza referências a Carlos Drummond de Andrade, como em Poema de Sete Faces, para criticar o domínio das big techs.

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