Energia solar reduz custos e ganha força em Goiás, mas rede elétrica vira desafio
30 março 2026 às 14h25

COMPARTILHAR
O município de Barro Alto, no norte de Goiás, acaba de ganhar um reforço na geração de energia limpa com a nova usina da Newave Energia. O projeto consolida uma tendência que já é realidade no estado: o sol como fonte de receita. No entanto, esse crescimento acelerado coloca a estrutura da rede elétrica à prova e traz à tona gargalos que o setor ainda patina para resolver.
Ao Jornal Opção, o engenheiro eletricista e mestrando em engenharia e sustentabilidade, Thiago Martins, avaliou que o cenário era ainda mais favorável até pouco tempo atrás. “A gente recebia projetos de diferentes perfis, desde residenciais até do agro e da indústria, e fazia o dimensionamento com base no consumo de cada cliente”, explica.

O especialista também explica como funciona na prática a economia por meio dessa geração de energia, especialmente para consumidores residenciais. “Uma casa que paga cerca de R$ 600 por mês pode reduzir a conta para algo entre R$ 120 e R$ 150. É uma redução muito expressiva”, afirma.
Já no caso de empresas e indústrias, o cenário é mais complexo por conta de tarifas adicionais, como a demanda contratada que está relacionada à estrutura da rede elétrica disponível. Ainda assim, o retorno segue sendo considerado atrativo. “Antes da Lei 14.300, a gente via reduções próximas de 95%. Hoje, dependendo do projeto, isso pode ficar entre 70% e 80%. Mesmo nos casos menos favoráveis, gira em torno de 60%, o que já é muito interessante”, explica.
Apesar de algumas empresas também levarem em conta questões ambientais, como sustentabilidade, o fator econômico ainda é o principal motor das decisões de investimento no setor.
Os limites da infraestrutura elétrica
Apesar do avanço da energia solar em Goiás, o crescimento do setor já levanta discussões sobre os limites da infraestrutura, especialmente na rede elétrica. Um dos pontos em debate é a chamada “inversão de fluxo”, quando a energia gerada retorna para a rede.
Segundo o engenheiro eletricista Alexandre Bernardes, proprietário da Abinsaut Engenharia, esse argumento tem sido usado para restringir novos projetos, mas nem sempre reflete a realidade.“Na prática, essa energia costuma ser consumida ali mesmo, por vizinhos ou pontos próximos. Ela não volta necessariamente para o sistema principal”, explica.

De acordo com o engenheiro, a inversão tende a ocorrer apenas em casos específicos, como em usinas de grande porte instaladas em regiões com baixa demanda. “Aí sim pode haver excedente sem consumo imediato”, afirma.
Outro ponto de preocupação no setor é a atuação da concessionária na aprovação dos projetos. Segundo Alexandre, houve aumento nas negativas, inclusive para sistemas pequenos. “A Equatorial chegou com os dois pés na porta. Tem muito projeto sendo barrado, e em alguns casos a gente precisa entrar com defesa”, afirma.
Ele cita casos recentes em que até instalações básicas foram recusadas. “Já vimos projetos com quatro placas sendo barrados, o que não gera impacto nenhum na rede”, diz.
Pela legislação vigente, sistemas de até 7,5 kW deveriam ter aprovação facilitada. “Mesmo assim, isso tem sido desconsiderado”, aponta. Para o engenheiro, a falta de critério claro nas decisões gera insegurança e se torna um entrave para o avanço do setor.
Entre o interesse crescente de consumidores, o potencial natural do estado e os entraves operacionais, a energia solar em Goiás segue em expansão, consolidando seu espaço na matriz energética. Ao mesmo tempo, o futuro do setor deve depender cada vez mais de equilíbrio, entre crescimento, segurança da rede e previsibilidade nas regras.
Leia mais: Usina solar de R$ 1,3 bilhão entra em operação em Goiás

