Um movimento global para reduzir a dependência de combustíveis fósseis — como petróleo, carvão e gás natural — já está em curso em mais de 50 países. É o que mostra um estudo divulgado nesta terça-feira, 10, por um grupo internacional de organizações climáticas, entre elas a rede brasileira do Observatório do Clima.

De acordo com o levantamento, 46 países já possuem algum tipo de plano de descarbonização do setor energético, enquanto outros 11 estudam estratégias para limitar ou reduzir a oferta de combustíveis fósseis. Entre essas nações que trabalham em mapas do caminho para a transição energética está o Brasil.

O estudo integra a publicação Progressing the Transition Away From Fossil Fuels, elaborada por think tanks internacionais e especialistas em políticas climáticas. O documento aponta que a transição energética global já entrou em uma fase de implementação, impulsionada pelo avanço das energias renováveis e pela pressão para reduzir emissões de gases de efeito estufa.

Debate global impulsionado pela COP30

A discussão sobre a criação de um roteiro internacional para abandonar os combustíveis fósseis ganhou força durante a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém no ano passado.

Apesar de não ter havido consenso entre todos os países participantes, mais de 80 nações apoiaram a ideia de desenvolver um plano global para a transição energética. O Brasil, que presidiu o encontro, anunciou que tomaria a iniciativa de liderar a elaboração do documento.

Segundo o estudo, o desafio agora não é apenas definir metas climáticas, mas garantir coordenação entre os diferentes planos nacionais e iniciativas internacionais, conectando políticas energéticas, estratégias econômicas e compromissos climáticos. TransitionAwayFF

Geopolítica e petróleo reacendem urgência da transição

A urgência do tema também ganhou novos contornos nas últimas semanas com a escalada de tensões no Oriente Médio. Após ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o país anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, principal rota de exportação de petróleo da região.

A interrupção elevou rapidamente os preços do petróleo no mercado internacional e reacendeu preocupações sobre impactos na inflação e no crescimento econômico global — evidenciando a vulnerabilidade das economias dependentes de combustíveis fósseis.

Para especialistas, crises desse tipo reforçam a necessidade de diversificar as matrizes energéticas e reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

Cinco critérios para a transição energética

O estudo aponta que, para serem eficazes, os planos de transição energética devem atender a cinco princípios fundamentais:

  • alinhamento com a ciência climática;
  • abordagem simultânea da produção e do consumo de combustíveis fósseis;
  • inclusão de critérios de justiça social e proteção aos trabalhadores;
  • liderança e coordenação nacional entre diferentes setores do governo;
  • financiamento internacional e sistemas robustos de monitoramento.

Esses princípios são considerados essenciais para garantir que a transição ocorra de forma justa, organizada e economicamente viável.

Países já testam modelos de transição

O relatório também analisa experiências já em andamento ao redor do mundo. Entre os exemplos citados estão:

  • programas de transição energética justa na África do Sul, Indonésia, Vietnã e Senegal;
  • estratégias de eliminação gradual do carvão na Alemanha, Chile, Canadá e Dinamarca;
  • processos emergentes de criação de roteiros nacionais na Colômbia, Turquia e Brasil.

Segundo o coordenador de política internacional do Observatório do Clima, Cláudio Angelo, as experiências existentes mostram que já há conhecimento suficiente para orientar novos planos.

“Os fundamentos para a construção desses roteiros já existem em diferentes experiências pelo mundo. Não é preciso reinventar a roda”, afirmou.

Desafio global: alinhar produção e consumo

Para que a transição energética tenha resultados concretos, especialistas apontam três prioridades:

  1. estabelecer critérios globais comuns para orientar a transição;
  2. incentivar cada país a criar seu próprio plano com metas intermediárias e mecanismos de monitoramento;
  3. alinhar produtores e consumidores de energia para evitar choques de mercado e ativos encalhados.

Sem esse alinhamento, o mundo pode enfrentar instabilidade econômica, riscos energéticos e dificuldades para cumprir metas climáticas.

Próximo passo: conferência internacional

A discussão sobre a transição energética deve ganhar novo impulso no fim de abril, durante a 1ª Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, organizada pela Colômbia e pela Holanda, na cidade de Santa Marta.

O encontro reunirá governos, especialistas e organizações internacionais para discutir caminhos práticos para reduzir o uso de combustíveis fósseis e acelerar a adoção de energias limpas.

Especialistas avaliam que o evento pode ajudar a transformar compromissos políticos em planos concretos de implementação, etapa considerada crucial para que o mundo consiga limitar o aquecimento global.

Veja o estudo completo abaixo.