Efeito Caiado: filiação ao PSD mexe no jogo político em Goiás e no país
28 janeiro 2026 às 17h58

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Não faltou quem ficasse surpreso com a filiação anunciada na terça-feira, 27, do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao Partido Social Democrático, o PSD. O goiano já havia confirmado que deixaria o União Brasil, mas tinha conversas mais adiantadas com outras legendas, como o Solidariedade, de Paulinho da Força, e o Podemos, de Renata Abreu e Glaustin da Fokus.
Ao final, contudo, imperou o acordo com o pessedista Gilberto Kassab, em um encontro que estava previsto para a quarta-feira em São Paulo, mas acabou adiantado pela urgência da questão.
Ao lado dos governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e do Paraná, Ratinho Júnior, Caiado disse que chegava ao PSD na intenção de “contribuir com a discussão nacional”, em um “gesto de desprendimento”. “Aqui não tem interesse pessoal de cada um.”
“Aquele que for escolhido levará a bandeira de um projeto de esperança e de resgate daquilo que o povo tanto espera”, disse o governador de Goiás, que não chegar a citar diretamente seu projeto prioritário: a disputa pelo Palácio do Planalto.
Caiado chega ao PSD em busca de espaço para sua pré-candidatura a presidente da República — algo que se mostrava cada vez mais improvável no União Brasil. O goiano, no entanto, encontra logo de cara outros dois políticos de peso no partido de Kassab que também são cotados para a corrida presidencial, que são os próprios Eduardo Leite e Ratinho Júnior, que aparecem dando as boas-vindas para Caiado.
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Apesar de ser citado por uma ou outra liderança, Eduardo Leite, porém, não sinaliza interesse em estar na disputa pelo cargo de presidente e nem ao menos tem sido testado nas principais pesquisas de intenção de voto divulgadas até hoje. Já Ratinho Júnior demonstra mais indecisão do que, de fato, disposição. Nos bastidores, a informação que mais circula é de que sua intenção está no Senado. Seu próprio pai, Ratinho, postula que deve ser candidato a senador.
Mesmo assim, os dois ainda são tidos como pré-candidatos. O questionamento que se faz é: por que, então, Caiado decidiu ir para uma sigla que já tem nomes fortes da direita cotados para a corrida presidencial?
A questão é que, ao decidir pela migração, o governador de Goiás cumpriu seu objetivo: garantir um partido onde efetivamente possa trabalhar para ser candidato, o que é esperado em toda e qualquer sigla, e que de fato terá um nome próprio para a disputa — o que não é o caso do União Brasil.
Com a mudança, Caiado fecha a composição de um grupo de governadores bem avaliados que se coloca como a alternativa equilibrada dentro da direita ao radicalismo bolsonarista, hoje representado na pré-corrida por Flávio Bolsonaro. E esse mesmo grupo está inserido no partido que elegeu quase 900 prefeitos e mais de 40 deputados federais nas últimas eleições, além de contar com uma das maiores bancadas no Senado, o que garantirá à legenda um dos maiores fundos partidários e tempo TV no pleito de 2026.
Conforme apurado pelo Jornal Opção, uma comissão interna (com a participação do ex-senador Jorge Bornhausen) foi formada no PSD para acompanhar a viabilidade de cada um dos pré-candidatos, o que vai resultar na escolha, até 14 de abril, daquele que vai representar a sigla na eleição. A diferença é que agora, de fato, Caiado recebeu garantia que pode ser esse nome, a depender dos números que demonstre mais à frente.
Enquanto isso em Goiás…
Ao mesmo tempo em que move seu projeto para um partido onde, de forma realista, tem condições de consolidá-lo, Ronaldo Caiado mexe no jogo político em Goiás, fortalecendo a base governista na disputa local.
Conforme apurado pela reportagem, a tendência é que o PSD em Goiás, hoje controlado pelo senador Vanderlan Cardoso, passe para as mãos de Caiado, que vai participar ativamente da formação de chapa para o Legislativo. A mudança, inclusive, deve conter a debandada de filiados observada nos últimos meses e crescente insatisfação dos mandatários com, por exemplo, a indefinição na formação de chapa do partido.
Nos bastidores, o discurso que já se forma é o de que “Vanderlan não tem apego à presidência e a partido”, o que sinaliza que o parlamentar já estaria preparado e levando em conta a possibilidade de mudanças na estrutura do PSD no estado. Chega-se a comentar que Vanderlan será candidato à reeleição na base governista — mesmo que como candidato avulso. Não irá para o PSDB, ao contrário do que espera Marconi Perillo, pré-candidato a senador pelo tucanato. Acabou a possibilidade de aliança entre PSD e PSDB.
Com a mudança na direção ocorrendo ou não, a questão é que nomes de peso que já tinham a saída do PSD praticamente acertada, agora estariam recalculando a rota e avaliando permanecer. É o caso, por exemplo, do ex-prefeito Gustavo Mendanha e do deputado federal Ismael Alexandrino. Os dois, inclusive, festejaram a chegada do governador à legenda. Vilmar Rocha agora deve ser candidato a deputado federal, ainda que tenha interesse muito mais pelo Senado.
Agora com Caiado em suas trincheiras, o desenho que se faz é que o PSD se torne um “QG governista”, movimentando de forma a fortalecer o projeto de Daniel Vilela para o governo de Goiás e de Caiado para o Palácio do Planalto. A base terá, na linha de frente, vários partidos poderosos: UB, MDB, PSD, PL, pP, Podemos, PRD, SD e Republicanos. Não sobra nenhum partido de expressão para Marconi Perillo.
O desenho da chapa majoritária é este: Daniel Vilela, para governador; um nome do PSD na vice (pode ser Adriano da Rocha Lima, Luiz Carlos do Carmo ou José Mário Schreiner) e Gracinha Caiado e Gustavo Gayer para senador. Vanderlan Cardoso entraria como candidato avulso. O que ele quer.

