A prisão do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, feita pelo governo dos Estados Unidos, repercutiu diretamente entre venezuelanos que vivem em Goiânia, muitos deles fora do país de origem há anos em razão da crise política e institucional. Entre os imigrantes ouvidos pela reportagem, o sentimento predominante é de expectativa quanto a possíveis mudanças no cenário venezuelano.

O eletricista José Brito Barrios, que mora no Brasil desde 2020, afirma que recebeu a notícia com alívio. “É verdadeiramente a melhor coisa que já aconteceu à minha nação”, disse. Segundo ele, a saída da Venezuela foi consequência de um processo prolongado de instabilidade. “Tentou-se remover esse governo por meios constitucionais e democráticos, mas isso não foi alcançado”, afirmou.

José também relatou que o posicionamento político continua sendo motivo de preocupação para venezuelanos, mesmo fora do país. “O simples fato de me manifestar contra a ditadura, mesmo estando fora, me coloca em perigo se eu retornar”, declarou. Ele ainda criticou o sistema eleitoral venezuelano. “As eleições são uma farsa. Eles permanecem no poder mantendo o país como refém”, disse.

A autônoma Yulex Barrios, também moradora de Goiânia, afirmou que a prisão representa um marco simbólico para a diáspora venezuelana. “Estou muito satisfeita com a prisão de Nicolás Maduro. Trata-se de um momento extremamente importante na história da Venezuela”, declarou. Para ela, a confirmação feita pelos Estados Unidos atende a uma expectativa de parte da população que deixou o país.

Segundo Yulex, a crise provocou um deslocamento em massa. “Mais de 8 milhões de venezuelanos foram obrigados a sair do país, deixando para trás suas vidas, sonhos e projetos”, afirmou. Ela também destacou que, em sua avaliação, a população que permanece na Venezuela enfrenta restrições para se manifestar. “Qualquer pessoa que se manifeste contra o governo corre o risco de ser presa”, disse.

Prisão de Maduro

A prisão de Nicolás Maduro foi confirmada por autoridades dos Estados Unidos, que informaram que o presidente venezuelano foi detido em uma operação conduzida por forças americanas e levado sob custódia para território norte-americano, onde deverá responder a acusações na Justiça Federal.

A Venezuela vive há mais de uma década uma crise política, econômica e institucional, marcada por questionamentos sobre processos eleitorais, sanções internacionais e denúncias de violações de direitos humanos. Esse cenário resultou em um dos maiores fluxos migratórios da América Latina.

No Brasil, dados de órgãos oficiais e entidades de acolhimento indicam que milhares de venezuelanos vivem em Goiás, com maior concentração em Goiânia e municípios da região metropolitana.

Com a confirmação da prisão por autoridades americanas, venezuelanos que vivem em na capital goiana acompanham agora os desdobramentos jurídicos e diplomáticos do caso, atentos aos impactos que a decisão pode ter sobre o futuro político da Venezuela e sobre familiares que permanecem no país.

A auxiliar de radiologia Carolina Gonzalez, que vive em Goiânia há cerca de um ano e meio, afirmou que a prisão de Nicolás Maduro tem um peso histórico para venezuelanos que deixaram o país nos últimos anos. Ela relata que saiu da Venezuela em 2019 e viveu por sete anos na Colômbia antes de chegar ao Brasil, em busca de segurança e estabilidade.

“São muitos anos esperando respostas. A gente esperava que alguém de fora ajudasse o povo venezuelano a ter eleições reais, a poder escolher um presidente de verdade”, declarou.

Carolina define como o controle estatal se consolidou ao longo de décadas. “O governo criou um sistema em que as pessoas passaram a aceitar migalhas, bônus e ajudas condicionadas, e isso foi tirando a liberdade do povo”, afirmou.

Ela destacou que a crise afetou diretamente trabalhadores e profissionais qualificados. “Nós estudamos, nos preparamos, mas não havia futuro. Meu marido trabalhava na área da saúde e o salário não sustentava uma família. A estrutura do país foi destruída”, disse. Para Carolina, a situação contribuiu para o desaparecimento da classe média. “Na Venezuela, a classe média deixou de existir. Ou você estava ligado ao poder ou vivia em extrema dificuldade.”

Carolina também relatou episódios de intimidação e perseguição. “Eu comecei a receber ligações, pessoas sabiam meu nome, o nome do meu marido, onde morávamos. Era uma forma de controle e medo”, afirmou. Segundo ela, esse tipo de pressão levou muitas famílias a deixar o país. “Chegou um momento em que sair da Venezuela não era uma escolha, era uma necessidade para sobreviver.”

Mesmo fora do país, o receio permanece para quem critica o governo, segundo a auxiliar de radiologia. “Muita gente ainda tem família lá e não pode falar, não pode se manifestar, nem nas redes sociais. O medo continua”, disse. Ela afirma que parentes que permaneceram na Venezuela evitam qualquer tipo de posicionamento público. “Eles sabem que qualquer manifestação pode ter consequências.”

Sobre a prisão de Nicolás Maduro, Carolina afirma que o momento é acompanhado com cautela, mas também com esperança. “Não é uma comemoração por vingança, é a esperança de que algo realmente mude”, declarou. “O povo venezuelano quer viver com dignidade, trabalhar, escolher seus governantes e não ter medo. A expectativa é que esse seja o começo de uma mudança real”, concluiu.

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