Deslizamento no lixão em Padre Bernardo aconteceu por sobrecarga de peso no maciço, aponta Semad
14 novembro 2025 às 19h00

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O novo deslizamento no lixão administrado pela empresa Ouro Verde, em Padre Bernardo, aconteceu por causa de um sobrepeso em uma área do maciço, segundo o gerente de Emergências Ambientais da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), Sayro Reis. Segundo ele, a informação estará no relatório que está sendo desenvolvido pela pasta após o novo incidente, que ocorreu cinco meses depois de outro desmoronamento. O novo deslizamento refere-se a 3 mil toneladas de resíduos.
“Tem que ser corrigido isso porque não está de acordo com o projeto que foi apresentado”, aponta Sayro. Ele afirma que o novo deslizamento ficou contido na grota e não houve queda no córrego Santa Bárbara, que já está poluído desde o primeiro incidente. “Informamos que ele ainda está poluído. Existe uma portaria de proibição do uso dessa drenagem, mas o que a gente percebe também, pelas análises que estão sendo feitas, pela empresa contratada e devidamente habilitada, é que está caindo essa poluição ao longo da drenagem do Santa Bárbara e do Rio do Sal, mas que, mesmo caindo, ela ainda está distante da resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que estabelece os parâmetros mínimos para consumo dessa água. Então ela ainda continua proibida”, pontua.
O córrego, segundo ele, não é utilizado no abastecimento público, mas é utilizado por agricultores locais para irrigação e abastecimento para animais. Sayro explica ainda que o local não recebe novos resíduos sólidos, mas que o local funcionou mais de 10 anos sem licenciamento ambiental e em acúmulo irregular. O deslizamento acontece pelo manejo desses resíduos que estava em uma célula só, mas que precisou ser reconformado devido ao deslizamento de junho. “Toda a movimentação de sólidos são de resíduos que já existiam lá. A gente está falando de uma quantidade imensa de resíduos sólidos, talvez quase 300 mil toneladas, mais de 10 anos de acúmulo irregular de lixo e esse material tem que ser organizado de uma forma segura para que não aconteça mais deslizamentos ou que não aconteça mais poluições ambientais naquele local”, reforça.
Sayro conta ainda que um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi ajustado com a empresa, que destaca os elementos emergenciais para mitigação de problemas na região. Apesar disso, foi feito um prolongamento de prazo para que isso acontecesse. Segundo ele, a decisão veio pelo fato de o valor deslizado ter sido aumentado por conta da mistura dos sólidos com solo, terra e outros materiais. “Está sendo cumprido essas mitigações emergenciais e a gente espera que, nos próximos dias, os empreendedores nos encaminhem o Plano de Recuperação de Área Degradada (PRAD) para ser cobrado já os elementos de médio e longo prazo, para tentar restabelecer o controle ambiental daquela área degradada.”
Ele afirma que a Semad tem acompanhado os lixões pelo estado, mas que nenhum seria tão preocupante como o de Padre Bernardo. “Existem outros lixões no Estado, mas igual ao de Padre Bernardo não temos nenhum dessa forma porque foi o único acidente, um dos maiores acidentes ambientais que a gente tem em registro”, pontua.
Relembre o caso
O lixão permanece interditado. Apenas funcionários da empresa Ouro Verde e técnicos da Semad podem entrar na área. Desde o primeiro colapso, a Ouro Verde — responsável pela construção do lixão em área de preservação ambiental — já foi multada em R$ 37,5 milhões.
Moradores do entorno do lixão afirmam que vêm enfrentando problemas desde o primeiro desmoronamento. Uma comerciante relatou ao repórter Graciliano Cândido, do Jornal Opção do Entorno, que o incidente “afeta porque, tem tido assim, muita mosca, e da primeira vez que estourou, o mau cheiro do lixão ficou bem forte. Veio até pra cá, uma área comercial e distante do lixão.”
Ela conta que, após o primeiro acidente, houve registros de pessoas com mal-estar, incluindo falta de ar e hospitalizações. “Muita mosca, o pessoal ficando doente, uma colega nossa foi parar no hospital. Com falta de ar e tudo.”
O Maico, outro morador da região, que estava acompanhado da esposa e da filha de colo, relatou problemas na qualidade da água no bairro Ouro Verde: “Às vezes parece que vem amarelada”. Perguntado se a água tem aspecto de suja, o jovem confirma que sim.
Morador da região há mais de cinco anos, afirma que a situação vem se agravando com os recentes incidentes. Ele confirma episódios de diarreia e vômito relacionados ao consumo. “Tem sim casos isolados, mas muitas pessoas acham até normal esses sintomas”, desabafa.
O que diz a Ouro Verde
A empresa informou em nota que está adotando todas as medidas necessárias para garantir a estabilidade da área e que “dessa vez não houve impacto ambiental e que não há risco estrutural para o local e o entorno dele.”
A empresa afirma ainda que, desde o desabamento do último dia 19 de junho, reforçou a contenção das pilhas, ampliou o sistema de drenagem e revisou processos operacionais. Em nota, o município de Padre Bernardo explicou que recebeu o comunicado da Ouro Verde informando o deslizamento. Segundo o texto, o material deslocado estava em processo de cobertura para instalação de drenos de gás e chorume e “não atingiu o córrego, e está retida no dique que foi instalado anteriormente para esse fim.”
A prefeitura afirmou que vai cobrar providências urgentes, especialmente o esvaziamento das lagoas de chorume, consideradas de risco iminente de rompimento por técnicos da prefeitura em vistorias anteriores.

