Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o professor e historiador João Cezar de Castro Rocha analisa o bolsonarismo em suas diferentes fases, discute o papel das fake news como engrenagem econômica e política, avalia o impacto do olavismo e dos evangélicos e projeta os riscos da inteligência artificial para as eleições de 2026.

Professor e historiador reconhecido por seus estudos em história cultural, literatura e pensamento político, João Cezar de Castro Rocha tornou-se uma das principais referências no debate público brasileiro sobre a extrema-direita. Desde a pandemia, quando classificou o bolsonarismo como uma “máquina de destruição” associada ao negacionismo da Covid-19, até análises mais recentes que o descrevem como uma “máquina de produzir dinheiro” ancorada em fake news, o pesquisador tem chamado atenção para os mecanismos simbólicos, afetivos e econômicos que sustentaram o fenômeno.

A seguir, a entrevista concedida com exclusividade ao Jornal Opção:

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O bolsonarismo pode ser entendido como uma máquina de destruição que depois se transformou em uma máquina de produzir dinheiro?

Sim, desde que se compreenda isso como uma metamorfose histórica. Entre 2016 e a vitória eleitoral de 2018, o bolsonarismo foi o exemplo mais bem-sucedido de guerra cultural na política brasileira. Em grande medida, ele introduziu no Brasil a guerra cultural no sentido contemporâneo, articulada ao uso intensivo das redes sociais e ao microdirecionamento digital, técnicas desenvolvidas em experiências como a da Cambridge Analytica.

Em 2018, Bolsonaro se elegeu sem partido (PSL) estruturado, com tempo de televisão irrelevante e praticamente inexistente do ponto de vista institucional. Ainda assim, venceu porque operou de forma extremamente eficaz no universo digital. Aquilo era guerra cultural em estado puro. Com o passar do tempo, sobretudo após a pandemia, o movimento entra em crise e passa a explorar outro eixo: a monetização do engajamento. A fake news deixa de ser apenas instrumento ideológico e passa a integrar um cálculo pragmático e econômico.

João Cezar capa de guerra cultural

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Como o senhor define, de forma objetiva, a chamada guerra cultural?

Guerra cultural é a produção sistemática de narrativas radicalizadoras, geralmente baseadas em fake news ou teorias conspiratórias, que criam inimigos imaginários em série. Esses inimigos — o “kit gay”, a “ideologia de gênero”, o globalismo — cumprem uma função política central. A finalidade é gerar pânico moral. E a resposta mais comum ao pânico é o ódio. A extrema-direita não viceja sem essa retórica.

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Por que disputas que parecem caricatas conseguem mobilizar tanta gente?

Porque a produção do efeito caricato pode ser extremamente sofisticada. Para quem observa de fora, parece tosco ou exagerado, mas muitas vezes isso é calculado. O efeito gera identificação, pertencimento e engajamento. Em alguns momentos passa do ponto, mas ainda assim funciona como mecanismo de mobilização permanente. A guerra cultural opera no campo dos afetos, não da coerência intelectual.

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Do ponto de vista eleitoral, Jair Bolsonaro foi um fenômeno sem precedentes?

Do ponto de vista do fenômeno político individual, sim. Jair Bolsonaro foi, em 2018, o maior fenômeno individual da Nova República. Nunca houve alguém que, de forma tão concentrada, tenha vencido uma eleição presidencial com tamanha vantagem e, ao mesmo tempo, puxando uma onda tão ampla de governadores, senadores e parlamentares. Isso não diminui o presidente Lula da Silva, que considero o maior político da história do Brasil em termos de impacto histórico. São planos analíticos distintos.

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A pandemia marca uma virada no bolsonarismo?

Sem dúvida. A pandemia leva o bolsonarismo à sua primeira grande crise. A popularidade cai de maneira significativa e o movimento passa a operar em outro registro. É nesse momento que se intensifica a lógica de seita. O bolsonarismo deixa de ser apenas guerra cultural e passa a funcionar como uma religião política. Setores evangélicos tornam-se fundamentais para sustentar o mito, porque o ungido não pode perder.

João Cezar de Castro Rocha capa de Bolsonarismo e terrorismo

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Por que o senhor caracteriza o pós-eleição de 2022 como terrorismo doméstico?

Porque houve uma escalada clara de violência política organizada. Após a derrota eleitoral, vimos bloqueios de rodovias, acampamentos em frente a quartéis, tentativas de invasão de prédios públicos, ataques em Brasília e, por fim, o 8 de janeiro. Isso não é protesto. É violência política com objetivo de gerar medo, instabilidade e ruptura institucional. Isso corresponde ao conceito de terrorismo doméstico.

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O bolsonarismo consegue sobreviver sem Bolsonaro?

Eu acreditava que enfrentaríamos um bolsonarismo sem Bolsonaro, talvez até mais forte. Mas revisei essa posição. O bolsonarismo entrou numa rota de extinção precoce porque movimentos desse tipo dependem de símbolos. E esses símbolos estão em colapso: o patriotismo verde-amarelo, a virilidade do capitão e o carisma messiânico se esgarçaram.

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Por que o lulismo tende a sobreviver sem Lula da Silva e o bolsonarismo não?

Porque o lulismo é uma ideia-força, um projeto político de inclusão social e econômica das classes trabalhadoras. Isso pode sobreviver ao líder, como ocorreu com o peronismo e o varguismo. O bolsonarismo, ao contrário, depende muito mais do carisma pessoal e da identidade afetiva centrada no líder. Sem o símbolo, perde sustentação.

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Qual foi o papel do (falecido) filósofo Olavo de Carvalho nesse processo?

O papel central de Olavo de Carvalho foi fornecer linguagem. Nenhum movimento político de grande alcance existe sem uma linguagem própria. Ele criou formas de falar, atacar, desqualificar e organizar uma visão de mundo. Não se trata apenas de ideias, mas de técnicas discursivas que moldaram o comportamento político.

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Que técnicas discursivas são essas?

A principal é a retórica do ódio, que segue três etapas: ridicularização, tipificação e desumanização. Primeiro, ridiculariza-se o adversário; depois, ele é reduzido a um tipo; por fim, deixa de ser visto como humano. Quando alguém se torna “nada”, qualquer violência contra esse “nada” parece justificável. Esse mecanismo está na base das experiências extremas de violência política.

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O problema central da desinformação é a mentira?

Não apenas. O erro pode ser corrigido. A ilusão, não. A ilusão é um erro recoberto pelo desejo. Quando milhões de pessoas compartilham a mesma ilusão, ela se transforma em realidade política objetiva. Nesse estágio, a checagem factual é insuficiente.

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Há diferença entre mentira e fake news?

Sim. Mentira sempre existiu na política. Fake news é a mentira com capacidade inédita de contágio tecnológico. É a desinformação que se espalha em escala industrial, em altíssima velocidade, produzindo efeitos políticos imediatos.

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O que muda com a inteligência artificial nas eleições de 2026?

Muda tudo. A inteligência artificial permitirá a produção de vídeos hiper-realistas, com falas falsas, capazes de circular em grupos fechados e produzir impactos emocionais devastadores. 2026 tende a ser a eleição mais difícil e mais decisiva da nossa história recente. Sem resposta institucional firme, os riscos para a democracia são enormes.