Curso de Jornalismo da UFG celebra 60 anos com palestra de Olga Curado e projeto de resgate histórico
07 abril 2026 às 10h06

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Na data que homenageia a profissão de Jornalismo, a Universidade Federal de Goiás (UFG) dá início às comemorações de seis décadas do primeiro curso da área no Centro-Oeste brasileiro, criado em meio à ditadura militar em 30 de setembro de 1966. Nesta terça-feira, 7, a jornalista e escritora Olga Curado comanda a abertura com o tema “o curso, a carreira e a minha vida como jornalista na luta por um trabalho ético e democrático”.
A solenidade, intitulada “60 anos de formação ética e comprometida com a democracia”, pretende reunir a reitora Sandramara Matias Chaves, secretários de comunicação dos governos estadual e municipal, vereadores, ex-professores, egressos e demais convidados que mantêm estreita ligação com a graduação.
Paralelamente à palestra, a coordenadora do curso, professora doutora Solange Franco, apresentará um projeto de pesquisa que desdobra um extenso programa de realizações para 2026 e 2027.
A comissão organizadora prevê homenagens, gravação de depoimentos para o Memorial do Jornalismo (um acervo audiovisual de relatos dos partícipes dessa história), publicações impressas e em e-book, produção de documentário, podcasts, exposições fotográficas e um fórum de discussões com a comunidade externa. Essa última etapa abordará a importância da graduação nos aspectos de formação acadêmica, profissionalização, perspectivas futuras e os desafios atuais da profissão.
Em entrevista ao Jornal Opção, a coordenadora Solange Franco resgatou as origens do curso. “A história do curso foi uma história de luta”, afirmou. Conforme explicou a professora, desde o nascimento da ideia, várias entidades, principalmente sindicatos de jornalistas e a Associação Goiana de Imprensa (AGI), lutaram pela criação da graduação.
Essa mobilização ocorreu nos idos dos anos 1940 e 1950. Contudo, o curso foi criado justamente em um momento político de exceção, ou seja, no auge da ditadura militar, em 1966. “O curso surgiu com uma vontade muito grande dos jovens e também de pessoas que lutavam pela liberdade de expressão, por um maior espaço democrático, pela profissionalização da imprensa”, detalhou Solange.

A graduação nasceu com esse espírito de resistência, estruturando-se apesar das dificuldades materiais e da falta de infraestrutura. “É esse espírito que nos move”, ressaltou a coordenadora, lembrando que, até hoje, os percalços não foram poucos. Manter um curso na área de humanas em Goiás, naquela época, exigiu enorme esforço.
Quando questionada sobre o momento mais transformador para a consolidação do curso como referência nacional, Solange Franco não hesitou. “Eu acredito que o momento mais impactante, mais importante do curso foi a luta pelo reconhecimento”, respondeu.
Embora a primeira turma tenha entrado em 1968, o reconhecimento formal pelo Ministério da Educação (MEC) ocorreu somente nove anos depois. Nesse intervalo, a exigência oficial incluía uma estrutura mínima de laboratórios e espaços que o curso simplesmente não possuía. “Ele nasceu da boa vontade, do desejo e boa vontade”, resumiu a professora.
Para superar essa barreira, a comunidade acadêmica promoveu campanhas até pitorescas de arrecadação de recursos, conseguindo montar os laboratórios com a participação inclusive do ministro da Educação da época. Além disso, a já existente Rádio Universitária da UFG serviu como laboratório prático para os alunos, uma parceria histórica que se mantém até hoje.
A trajetória do curso também impressiona pelo tempo em que ele permaneceu como única opção em Goiás. “A história do curso vem se formando, e formou por mais de 30 anos, quase todos os profissionais que atuaram e atuam em Goiás”, destacou Solange.
De acordo com a coordenadora, somente depois de três décadas da criação da graduação é que surgiram outras faculdades de comunicação no Estado. Antes disso, apenas alguns poucos profissionais estudavam fora, em Brasília, Rio de Janeiro ou São Paulo. “A grande maioria desses profissionais que ocuparam e desenvolveram os veículos de comunicação saíram do curso de jornalismo da UFG”, enfatizou.
Por isso, a escolha de Olga Curado como palestrante de abertura não foi aleatória. “A intenção foi exatamente essa: a gente chamar uma jornalista que tivesse sido egressa do curso, que formou aqui com a gente, e que tivesse uma carreira que servisse de exemplo para os nossos estudantes”, explicou Solange. Goiana, Maria Olga Curado é graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela UFG e possui especialização pelo World Press Institute, nos Estados Unidos.
Sua trajetória inclui passagens pelo Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e O Globo no impresso. Na televisão, começou na TV Manchete de Brasília e depois migrou para a Globo, onde atuou como repórter, editora regional no Rio de Janeiro, editora de política do Jornal Nacional, coordenadora de jornalismo das emissoras afiliadas, diretora de jornalismo no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, além de chefe do escritório em Londres.
O desafio do acervo e a importância do legado em memória digital
Apesar de todo esse vigor, a coordenadora confessa que “quase todos os órgãos públicos, inclusive na universidade, ainda não dispõem de um acervo histórico dos documentos”.
Devido às dificuldades ao longo do tempo, ninguém guardou sistematicamente a documentação. Por isso, entre as ações já em andamento, destacam-se a elaboração de um acervo físico e de um repositório digital para preservar o patrimônio material e imaterial da instituição. Além disso, a equipe realiza o inventário de egressos, professores, projetos pedagógicos e documentos.
Em tempos de revolução tecnológica e inteligência artificial, a coordenadora aponta qual o principal desafio para as próximas décadas. “Eu acredito que o principal desafio é exatamente esse: adotar uma inovação na grade curricular, acompanhar mudanças tecnológicas, as necessidades, as demandas sociais e as demandas do mercado, mas sem perder uma reflexão sobre essa produção, sobre esse papel do jornalista”, sintetizou.
Para Solange Franco, a UFG não pode se restringir a ensinar apenas o técnico. “A gente precisa trabalhar com o conceito e com a perspectiva de vamos aprender a fazer, analisar como é que se faz e refletir criticamente sobre esse modo de produção”, completou.
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